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O consumo desenfreado de vitaminas na pandemia está fazendo mal à saúde

A pandemia aumentou o apelo por cápsulas para turbinar a imunidade. Porém, sem acompanhamento profissional, o consumo pode ser vazio e até prejudicial

Por Cris Gutkoski, Pedro Nakamura e Sílvia Lisboa Atualizado em 15 jul 2021, 19h23 - Publicado em 18 jul 2021, 11h00
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ma corrida às farmácias em busca de compostos vitamínicos impressionou os profissionais da saúde nos últimos meses. Mais uma das mudanças comportamentais trazidas pela pandemia, seria uma tentativa dos brasileiros, assustados com a Covid-19, de reforçar o sistema imunológico e ficar mais resistente ao vírus. “Não tenho dúvida de que o aumento do consumo de vitaminas foi exponencial no período”, acredita o endocrinologista Cesar Boguszewski, professor do curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 

O mesmo fenômeno foi constatado pela endocrinologista Lorena Amato, professora da Universidade Nove de Julho, de São Paulo: seus pacientes começaram a aparecer no consultório com ganho de peso e enorme aflição no que diz respeito ao consumo de vitamínicos.

Uma pesquisa realizada pela Epharma, startup da área de assistência médica e farmacêutica, comprova o movimento. O levantamento feito no ano passado com usuários de planos de saúde constatou crescimento de 29% no consumo de suplementos vitamínicos entre janeiro e agosto.

Pode ser traçado um paralelo entre o fenômeno e o chamado “kit Covid” (composto por medicamentos sem eficácia comprovada no controle do novo coronavírus, como a cloroquina e a ivermectina): ambos são turbinados pela pressa da vida moderna, que favorece o fascínio por soluções rápidas e mágicas.

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Isso não significa que as vitaminas sejam desimportantes. Pelo contrário, são essenciais para manter um organismo saudável e podem se tornar coadjuvantes em diferentes fases da vida ou mesmo como tratamento, incluindo na penosa recuperação pós-Covid.

O problema está em buscá-las no lugar errado e sem a recomendação de um especialista. “O pessoal comprou um monte achando que ia aumentar a imunidade. Não vai”, alerta Boguszewski. “Vejo as pessoas gastando muito dinheiro em farmácia, mas deveriam gastar mais na quitanda. Vai comprar fruta!”, brinca Lorena Amato. O que a especialista quer dizer é que, na maioria dos casos, a melhor maneira de prover o corpo das vitaminas necessárias é também aquela que garante um peso adequado: a alimentação saudável.

Dispor de uma dieta equilibrada, com variedade de grãos, cereais, carnes, leite e derivados, frutas e legumes, de preferência naturais, fornece as vitaminas que o corpo necessita e mantém ativo o sistema imunológico, nossa defesa contra infecções. “Uma dieta ‘colorida’, com alimentos frescos, é a base científica para prevenção de doenças”, orienta Luciana Verçoza Viana, chefe do serviço de nutrologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

mulher olha para o horizonte cercada de bolas coloridas
Gremlin/Getty Images

Foi essa a receita adotada pela paulista Estela Vaccari Pintão, 38 anos. Disposta a perder peso, a farmacêutica transformou a alimentação equilibrada no seu remédio. Aumentou o consumo de grãos, castanhas, linhaça, aveia, granola salgada, sementes de girassol, que auxiliam bastante na digestão e, por consequência, no emagrecimento. De quebra, perdeu 18 dos 20kg que tinha estabelecido como meta após a gravidez. “Não quis um monte de vitaminas, porque já sei que tenho dificuldade de absorção”, diz Estela, que faz reposição da vitamina D, para equilibrar os níveis baixos no organismo. Com a reeducação alimentar, ela se diz muito mais disposta à atividade física, outra aliada do sistema imune.

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A origem do interesse

Nosso fascínio pelas vitaminas é antigo. Começou no início do século 20, quando o bioquímico polonês Casimir Funk ficou curioso com uma pesquisa que mostrava a importância de uma mudança na dieta na prevenção do beribéri, uma das mais temidas doenças da época, comum em populações empobrecidas, que levava à morte por paralisia muscular e nervosa.

Bastava substituir o arroz branco, moído até ficar sem a casca, pelo integral. Funk decidiu isolar os nutrientes da casca do arroz e descobriu a tiamina, que mais tarde ganharia o nome de vitamina B1. Era a substância milagrosa contra a doença fatal.

Funk persistiu no ramo e revelou ao mundo três novos compostos, posteriormente chamadas de vitaminas A, B e C, capazes de combater doenças mortais, como o escorbuto e o raquitismo. Em 1914, escreveu um artigo batizando esses nutrientes de “vitamines”, a partir da expressão “aminas vitais”. “Aminas” se refere à classe química das substâncias, já “vitae”, à vitalidade. Estava selada a associação das vitaminas com as funções vitais.

A cada nova década, outros compostos, para além das aminas, foram sendo isolados, dando continuidade à sopa de letrinhas: B2, K, entre outros – muitos deles nem são vitaminas, mas o nome pegou. O sucesso foi impulsionado pela indústria, que passou a sintetizá-las, transformando-as em cápsulas ou adicionando-as a alimentos.

Uma historieta que ocorreu na Segunda Guerra Mundial ajuda a ilustrar a fama das vitaminas. Em 1941, o então presidente americano Franklin D. Roosevelt convocou cientistas para debater como as pílulas vitamínicas poderiam ser a fonte de vigor dos combatentes para vencer as batalhas.

Não à toa a ideia dos superpoderes persistiu no imaginário da população. Mas é preciso ter atenção com a dosagem e sua forma de ingestão. “Os multivitamínicos comprados em farmácia são uma combinação de diversas vitaminas e oligoelementos que não têm nenhum benefício comprovado ao serem usados por pessoas saudáveis”, alerta Luciana.

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Um dos maiores estudos já feitos, financiado pelo Instituto Nacional de Saúde americano (NHI), investigou a dieta de 31 mil homens e mulheres com mais de 20 anos e concluiu que ingerir vitaminas através de cápsulas não aumenta a longevidade e, na verdade, pode trazer problemas graves.

Para chegar à conclusão, cientistas da Universidade de Tufts, de Massachusetts, nos Estados Unidos, analisaram a qualidade da dieta bem como a ingestão de cápsulas com algum nutriente pelos voluntários. Metade tomava suplementos e um terço era adepto dos multivitamínicos.

No fim do período de seis anos, não houve nenhum impacto na taxa de mortalidade. Pior: a ingestão de 1 mil miligramas de cálcio por dia e de mais de 400 UI de vitamina D foram associadas com maior risco de câncer. “A vitamina D em excesso, por exemplo, aumenta também o risco de hipercalcemia, que traz arritmia cardíaca e vários outros problemas”, observa Cesar.

Uma das razões para evitar a ingestão sem orientação é que só um especialista saberá indicar qual a dose indicada para cada pessoa. As necessidades variam muito, conforme sexo, idade, estilo de vida e o local onde mora.

Na infância e adolescência, os ossos ainda estão em formação e precisam incorporar cálcio e fósforo, sais minerais cuja quantidade é regulada no organismo pela ação hormonal da vitamina D – neste caso, um adendo: a D é, na verdade, um pré-hormônio e não uma vitamina, uma confusão feita ainda nos anos 1920. Já meninas na fase da primeira menstruação podem precisar de suplementos contra a anemia.

Na gestação, e mesmo antes dela, os médicos recomendam tomar ácido fólico, uma das vitaminas do complexo B, importante para o bom desenvolvimento neurológico do feto. Quem opta por uma alimentação sem proteína de origem animal pode precisar de suplementação para as deficiências de ferro, enquanto os sangramentos intensos anteriores à menopausa também tornam as mulheres dependentes de doses extras de sulfato ferroso, combinada a uma dieta mais rica em carnes e verduras.

Luciana só recomenda a suplementação com compostos vitamínicos quando o paciente sofre de alguma deficiência específica ou na prevenção de doenças. “Podemos suplementar de forma isolada ou combinando nutrientes. Suplementações específicas são importantes em casos de patologias”, diz. Um dos casos em que os nutrientes assumem o protagonismo é na recuperação pós-Covid, especialmente em pacientes que foram intubados.

Bolas coloridas caindo escada abaixo
Gremlin/Getty Images

A longa internação provoca perda de massa muscular, o que deixa o indivíduo com uma fadiga muito acentuada mesmo após deixar o hospital. Nesse momento, o combo de vitaminas e proteínas entra em cena para a recuperação dos músculos perdidos, assim como doses extras de ferro e cálcio. “Se o paciente não se alimenta direito na reabilitação, a fisioterapia não funciona. É preciso força para tudo, inclusive para deglutir e ingerir a comida”, ressalta Carol Accioly, especialista em nutrição clínica e terapia nutricional, baseada no Rio de Janeiro,.

A necessidade de isolamento social na pandemia deve agravar a deficiência da vitamina D – até 90% do nutriente é sintetizado pelo nosso próprio corpo com ajuda dos raios solares. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizado em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP), identificou um percentual alarmante na população idosa do estado de São Paulo: mais de 60% dos pacientes atendidos pelo SUS apresentaram déficit.

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“É difícil o consumo diário nas quantidades necessárias de peixes, gemas de ovo, cogumelos e derivados do leite, que carregam naturalmente o composto”, diz a endocrinologista Marize Castro, professora da Unifesp. “Nesse caso, dependemos muito do sol ou da ingestão de suplementos vitamínicos”, explica. Já na criança, a deficiência grave de vitamina D leva ao raquitismo. “No adulto, a mesma doença é chamada de osteomalácia, que é o amolecimento ósseo, muito grave. Num grau menor, a deficiência leva à osteoporose”, detalha Castro.

A pesquisadora acrescenta que os adolescentes, cujos hábitos ao ar livre e disposição para tomar sol costumam ser mais frequentes do que entre a população idosa, surgem agora nas pesquisas com taxas expressivas de deficiência em vitamina D.

O estudo, ainda em fase de análise, é de abrangência nacional, coletou milhares de amostras em laboratório e, segundo a professora, devido às características climáticas de inverno prolongado, os números mais preocupantes são da Região Sul. “Aqui em São Paulo, ninguém toma banho de sol, a gente sai do carro, entra no metrô, vai direto para o trabalho, se fecha em casa”, observa Lorena Lima Amato.

Doutora em endocrinologia pela USP, ela se formou na Universidade Federal de Goiás (UFG), e vivenciou o contraste das rotinas mais ensolaradas em cidades do Centro-Oeste. “A vitamina D é essencial não só para a imunidade, mas também para a saúde óssea e muscular. Na pandemia, as pessoas viram a importância da reposição de vitamina D”. A solução para turbinar a imunidade não podia ser mais natural e colorida: sol, frutas, legumes e verduras. Aumente as doses desse combo e livre-se do excesso de cápsulas e suplementos.

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