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No futuro, seu consumo digital vai entrar na contagem de calorias da dieta

Nova área de estudos relaciona nosso comportamento online à alimentação – e promete que daí nascerá uma relação saudável. Entenda

Por Isabella D'Ercole - Atualizado em 21 set 2020, 16h53 - Publicado em 21 set 2020, 18h00

Você abre a geladeira e alcança um iogurte. O rótulo diz que não tem gordura nem açúcares – justamente o que o nutricionista indicou para o lanche da tarde. Com o potinho em mãos, você caminha até a sala, senta-se confortavelmente no sofá e liga a TV.

Na tela, surge um programa de viagens, um episódio de exploração de um campo de papoulas na Holanda. Alguns segundos depois, um aviso aparece: “Este programa libera ácido gama-aminobutírico”. Mais conhecido como gama, esse importante neurotransmissor inibidor age no sistema nervoso central.

Quando acionado, diminui a atividade da região, levando à sensação de calma. Assim como as imagens da natureza, meditação e exercícios de respiração mexem com o gama. Voltando à nossa cena inicial… Diante daqueles cenários belíssimos, você inspira lentamente e sente o peso do corpo sobre o sofá. As preocupações ficam para trás – pelo menos até você mudar de canal.

No celular, chama a atenção um show de stand-up comedy muito engraçado. Enquanto você ri, nota que, no cantinho do visor surge um alerta: “Pode liberar endorfina”. Esse hormônio, bem mais familiar, é aquele que dá a sensação de bem-estar, de prazer, o mesmo de quando fazemos exercícios.

Nessa realidade alternativa, o conteúdo digital que você acessa fornece exatamente o mesmo que a embalagem do iogurte: informação sobre como aquilo pode impactar seu corpo. Isso se encaixa na chamada nutrição digital, área novíssima de estudos. A ideia é tratar da nossa experiência online com a mesma atenção que dedicamos à alimentação. Afinal, hoje o brasileiro passa mais de nove horas conectado, segundo pesquisa da Hoopsuite com a We Are Social – o que nos coloca entre os primeiros do ranking. E é bastante improvável que esse número diminua drasticamente.

“A tecnologia é uma parte tão importante da nossa vida que não podemos mais dividi-la em real e virtual. O que acontece enquanto estamos conectados ainda é real, mesmo que aquele post nas redes sociais não seja 100% autêntico”, explica a psicóloga australiana Jocelyn Brewer, uma das precursoras em pesquisa no campo. “Toda nova tecnologia é seguida por uma fase de adaptação, e a chave aqui é entender como cada um percebe e processa certas interações”, explica.

Com a pandemia, nosso tempo em frente às telas aumentou, algo diretamente associado à nossa saúde mental. Hábitos antigos, como detox digital, talvez não façam sentido nem sequer sejam possíveis, já que a maior parte das nossas atividades acontece no celular, no computador ou na televisão.

“Ninguém vai praticar abstinência. Eu não estou advogando por mais tempo online, mas reconheço que estamos nesse volume de uso, pois para muitos, além de uma ferramenta de trabalho, seja uma forma de escapismo. O equilíbrio virá, mas ainda demora. Um bom exemplo é a evolução da cultura alimentícia. Nos últimos 40 anos, vimos um movimento de troca de embalagens, de transparência de ingredientes, de demanda por matérias-primas mais saudáveis. Essa mudança foi impulsionada pelo consumidor em busca de uma vida mais regrada. Acredito que o mesmo deve ocorrer com o conteúdo e a tecnologia”, defende o americano Michael Phillips Moskowitz, fundador e CEO da AeBeZe Labs, empresa com foco em saúde comportamental e resiliência emocional.

Desde criança, ele faz acompanhamento terapêutico por causa da saúde mental frágil e, mais velho, notou a conexão entre o que assistia e as mudanças de sentimentos.

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“Poucos sabem, mas há estudos científicos que associam conteúdos com neurotransmissores no nosso cérebro. O que nós fizemos foi catalogar isso. Claro que não se deve generalizar, mas a maioria das pessoas reage da mesma forma a certa informação. Vídeos de filhotes de cachorro, por exemplo, liberam ocitocina, hormônio que provoca sensação de afeto e amor. Mas, se você teve uma experiência traumática com um cão na infância, talvez libere noradrenalina, que aumenta os batimentos cardíacos e dificulta a respiração, reações consequentes de medo e nervosismo”, explica Michael.

Os produtos criados pela AeBeZe Labs oferecem mais informação sobre o que está sendo consumido. Ele deve lançar ainda este ano uma ferramenta que associa vídeos do YouTube aos neurotransmissores acionados e aos hormônios liberados. Dessa forma, é mais fácil controlar alterações emocionais.

Um aplicativo desenvolvido pela empresa, o Moodrise, permite testar seu humor e sugere conteúdos que façam o balanço dele. Também é possível conversar por chat com um bot, que fará a recomendação baseada nas informações fornecidas, ou ainda ouvir os podcasts de 30 a 90 minutos com conteúdos para gerar prazer – alguns narrados por celebridades como a atriz Kristin Scott Thomas ou o cantor Devendra Banhart. O sucesso da empreitada é tamanho que o governo dos Estados Unidos pediu o desenvolvimento de um programa especial para astronautas e membros da Força Aérea, algo que imediatamente faz lembrar as cenas de Ad Astra, filme de ficção científica com Brad Pitt.

nutricao-calorias-digitais Getty Images/CLAUDIA

NÃO TEM IDADE
Parece existir um consenso geral de que as novas gerações seriam mais acostumadas ao mundo tecnológico. É verdade até certo ponto, já que os jovens têm o costume de mexer em devices desde pequenos.

“Entretanto, crianças não estão mais preparadas para navegar pelo universo digital do que os adultos. Aliás, talvez estejam até mais vulneráveis”, diz Michael. A falta de informação é o cerne da questão. “O que temos são órfãos digitais, aqueles que não tiveram ninguém para guiá-los na exploração desse universo”, afirma Jocelyn, alegando que o termo nativos digitais é ultrapassado.

Ela aponta para a importância de haver aulas nas escolas sobre higiene e nutrição digital, além de cursos que foquem nos adultos e nos idosos. “Existe uma maneira de usar esse conteúdo para enriquecer a forma como você se sente ou para limitar experiências negativas e criar mais resiliência emocional. Isso pode ser aprendido”, completa Michael.

O QUE MAIS IMPACTA
Não é segredo para ninguém que as redes sociais têm alto potencial tóxico. Não que seja o intuito dessas mídias, cuja pretensão é promover conexões e abrir espaço para as pessoas se expressarem. Entretanto, com o passar dos anos – e talvez pela ausência dessa tal educação digital que Jocelyn cita – o caminho tomado levou as redes a se tornar um lugar de comparação com outras pessoas, disputa por número de likes para validação pessoal, ataques agressivos e orquestrados, além da recente cultura do cancelamento. Nem todo mundo está disposto, contudo, a abandoná-las.

“O objetivo é conscientizar as pessoas sobre como esse material atinge a saúde emocional e encorajar o uso de outros aplicativos que não vão derrubar o humor delas”, acrescenta Michael.

Há muitos fatores que impactam na qualidade de um conteúdo digital, e o importante é que criemos o hábito de nos questionar sobre ele – assim como fazemos com comida. De onde veio? Quem produziu? Qual a qualidade? Como pode me afetar? “A situação que temos não vai ser consertada facilmente, mas é possível, sim, ter uma relação saudável com o digital. Precisamos ganhar de volta o controle e fazer escolhas”, conclui Jocelyn.

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