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A ginecologia natural trata o corpo feminino combinando saberes e técnicas

A corrente usa plantas, aromas e o conhecimento dos povos originários para tratar de forma integral e vem conquistando cada vez mais adeptas

Por Sílvia Lisboa/Colaborou Juliana Coin - Atualizado em 21 set 2020, 12h35 - Publicado em 21 set 2020, 13h30

A estilista Ananda Sophie sofreu uma gravidez ectópica rota, em que o embrião se aloja fora do útero, quando ainda amamentava seu filho, Vicente, então com um 1 ano e 4 meses. Dores fortes revelaram uma hemorragia, que levou a uma cirurgia de urgência e transfusão de sangue. O embrião parou na entrada de uma trompa removida anos antes devido ao rompimento de um cisto – se houvesse seguido pelo caminho oposto, a outra trompa, Ananda ficaria estéril.

A recuperação foi dolorosa e os índices de HCG (hormônio que atesta a gravidez) permaneciam estranhamente altos mesmo após quatro meses. A gestação interrompida lançou a estilista de 36 anos em uma depressão pós-parto. “Eu desmamei o Vi nesse processo porque não podia pegá-lo no colo”, recorda. Foi quando ela resolveu recorrer à ginecologia natural.

A prática, que ganha popularidade no país, propõe um resgate dos saberes ancestrais associados à saúde feminina. Seus tratamentos partem do pressuposto de que a mulher deve entender seu corpo e envolvem o uso de plantas, aromas e alimentos para cuidar de incômodos, como corrimentos, ou mesmo de distúrbios mais sérios, como a endometriose, uma das causas de infertilidade. A candidíase, infecção que provoca coceira, pode ser eliminada pela aplicação de alho intravaginal.

Outra técnica conhecida é a vaporização do útero – utilizada por Ananda para reduzir as dores do pós-operatório. Consiste em acocorar-se, com saia e sem calcinha, sobre uma bacia de água fervente com ervas frescas e secas, deixando o vapor penetrar na vagina – é preciso manter certa distância para não queimar a pele.

Ananda fez infusões com plantas indicadas para casos de aborto: artemísia, calêndula, alecrim, camomila e manjericão. Ela recorda ter sentido uma profusão de aromas invadindo o quarto. “Eram momentos de meditação, me fizeram imensamente bem”, diz. Em uma das vezes, pensou nas suas avós, que reverenciavam as plantas e suas propriedades. “Tive um insight lindo de reconexão. E me dei conta de que precisava remendar esse vazio que havia no meu ventre.”

Após as sessões, como suas avós, ambas artesãs, Ananda decidiu representar o que havia sentido durante o tratamento. Bordou em um quadro bastidor redondo seu útero, ovários e, no lugar vazio da trompa esquerda, um buquê de flores coloridas e alegres. “Precisava fazer as pazes com meu corpo, minha perda e meu ciclo.”

A experiência da estilista gaúcha resume por que a prática tem ganhado popularidade: a ginecologia natural faz uma abordagem integrativa da saúde feminina. O foco não é tratar a doença, mas a mulher, suas emoções, a rotina, a alimentação. As consultas costumam destoar do atendimento padrão. São longas e invertem a ordem hierárquica entre médico e paciente. É a paciente que segura o espéculo para observar o colo do útero através de um espelho. “Eu vou apenas indicando e explicando cada parte. Algumas desconhecem o próprio corpo e choram”, relata a ginecologista carioca Debora Rosa.

“É muito transformador na vida de uma mulher, um empoderamento profundo do ser, um retorno ao seu corpo”, define a médica pioneira na prática no Brasil, a também carioca Bel Saide. Ela estudou fitoterapia no Peru com os Mapuches, indígenas do Chile e da Argentina. As conversas no consultório de Debora e Bel não se limitam às queixas ginecológicas trazidas pelas pacientes; abordam também opressão feminina, patriarcado e pensamento descolonial, conceito que reivindica os saberes dos povos originários soterrados pela dominação europeia.

“O saber normativo não é oposto ao tradicional nem inferior, mas complementar. Os dois traçam caminhos diferentes, que às vezes convergem”

Maiana Gomes, terapeuta do feminino

 

Ancestralidade atualizada

A ginecologia natural ganhou força na América Latina como um movimento sociocultural por volta de 2008, com o lançamento do Manual Introductorio a la Ginecología Natural, escrito pela socióloga e parteira chilena Pabla Pérez San Martín. A obra é uma das inaugurais da metodologia, que se ampara nos pilares do autoconhecimento e do autocuidado.

Apesar de recente, a prática está intimamente ligada aos levantes feministas que ganharam força nos países latinos nos anos 1960 e 1970. Não à toa o manual de Pabla Martín é uma espécie de manifesto que define a vertente como “um conjunto de técnicas conscientes para descolonizar nossos corpos”.

No Brasil, foi lançado este ano o primeiro curso de pós-graduação em ginecologia natural do mundo, na Escola Shen, referência em medicina chinesa, em Recife. “O conhecimento tradicional precisa ser legitimado, e uma das formas é seu ingresso nas universidades”, diz Maiana Gomes, coordenadora do curso e terapeuta do feminino.

“O saber normativo não é oposto ao tradicional nem inferior, mas complementar. Os dois traçam caminhos diferentes, que às vezes convergem. Vejo esse curso como uma reparação histórica”, acrescenta. O corpo docente, composto de médicas, farmacêuticas, terapeutas holísticas, uma educadora especializada em florais da Amazônia e uma liderança tupinambá, já mostra a diversidade de conteúdo.

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A formação terá 22 meses de duração – acontecerá uma versão à distância devido à pandemia. É bom lembrar que ao menos dez terapias integrativas e complementares usadas na ginecologia natural, como a fitoterapia e a aromaterapia, são reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e oferecidas hoje no Sistema Único de Saúde. Segundo um documento da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), países como a Bolívia, o Equador e o México incluíram nas suas constituições o respeito às tradições ancestrais e a necessidade de inclusão delas no sistema de saúde. Outros países, incluindo Brasil, Chile, Cuba, Guatemala, Panamá, Peru e Nicarágua, têm leis e políticas nacionais que caminham no mesmo sentido.

Priscila Barbosa/CLAUDIA

Xô, hormônios

Um dos fundamentos da ginecologia natural consiste em ensinar as mulheres a fazer as pazes com seu ciclo menstrual. A prática é radicalmente contra a interrupção química da menstruação por meio da pílula de uso contínuo – aliás, os hormônios são vistos com ressalvas e usados em casos bem específicos. “Temos de reconhecer o significado da pílula para a emancipação feminina, mas seu uso atual é um exagero”, afirma Bel.

A menstruação é encarada como expressão cíclica da natureza da mulher, associada às fases da Lua e aos arquétipos – modelos que simbolizam características de algo ou ideais. Por meio da observação, a mulher pode aprender mais sobre si mesma. Em uma das técnicas usadas, a mandala lunar, a paciente preenche as sensações físicas e emocionais em cada estágio.

A linguagem mística, que recorre aos astros e a elementos da natureza, é característica da metodologia, mas pode afastar as mais céticas. A psicóloga porto-alegrense Ana Roberta Ritcher, 40, adotou a técnica em 2015 e relata ter reformulado sua rotina, que agora segue o “tempo do seu corpo”.

“Conforme fui conhecendo meu ciclo, ajustei minha rotina e as atividades diárias. Envolvi meu parceiro também. Hoje ele entende, acolhe, percebe e, muitas vezes, até se adianta. Quando estou em período pré-menstrual, já sabe da minha necessidade de ficar mais recolhida e quieta”, diz. Na mandala lunar, o período pré-ovulatório e a ovulação representam os arquétipos da donzela e da mãe, quando sobram energia e disposição.

Depois, vem o “subterrâneo de si mesma”, época da TPM, letras que Debora associa a “tempo para mim”. Por fim, chega a menstruação. A fase é representada pela feiticeira e a anciã, que revelam a irritação e a falta de energia características do período. “Nossa sociedade promove como certos ou positivos comportamentos lineares, sem oscilações, em que se produz igual todos os dias.

Isso não é uma realidade para as mulheres, que têm essa natureza cíclica”, defende a ginecologista e obstetra paulista Marcela McGowan. “Saber lidar com todas as fases e tirar o melhor de cada momento é libertador”, resume ela, que atende o público LGBT+.

Fique alerta

Apesar do nome, a ginecologia natural não é uma especialidade médica e, portanto, não está sujeita à fiscalização dos conselhos da área. Ela se associa às terapias integrativas, que vêm ganhando força e reconhecimento, mas a regulação sobre a atuação dos profissionais ainda não existe.

Isso preocupa terapeutas e médicos sérios praticantes. “É claro que compromete a segurança”, diz Maiana. “As plantas têm contraindicações e podem fazer mal. A paciente precisa se informar antes sobre a carreira e formação de quem vai atendê-la”, recomenda Debora.

A ginecologista Ilza Maria Urbano Monteiro, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), encara como positiva a chegada da ginecologia natural ao Brasil, apesar de achar um erro demonizar os métodos hormonais. “Em alguns casos, como sangramentos, eles evitam que a paciente seja operada”, enfatiza.

“É claro que acontecem falhas, mas percebo que houve melhora dos dois lados. Não há mais espaço para a medicina tradicional, aquela em que os médicos ficavam numa posição de superioridade”, diz, ressaltando que nos casos mais graves o conhecimento convencional é um aliado. “Graças a Deus existe a alopatia para salvar vidas. Você não trata com chá uma mulher com hemorragia. A boa medicina pode ser integrada”, resume Bel. A estilista Ananda Sophie manteve as vaporizações do útero até aceitar a perda. Quando se sentiu curada, engravidou da filha, Flora.

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