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‘Bom Dia, Verônica’ trata de violência contra a mulher em trama instigante

Em entrevista a CLAUDIA, Tainá Müller e Camila Morgado falam sobre a importância da nova série da Netflix em tratar sobre feminicídio e questões de gênero

Por Gabriela Maraccini (colaboradora) - Atualizado em 1 out 2020, 14h06 - Publicado em 1 out 2020, 14h00

Quem assistir a Bom Dia, Verônica, a nova produção nacional da Netflix que estreia nesta quinta-feira (1º), não vai se deparar apenas com um instigante e perturbador suspense policial. Também vai dar de cara com questões muito inerentes à nossa sociedade, como a violência contra a mulher, corrupção e saúde mental.

Protagonizada por Tainá Müller, como a escrivã Verônica, e por Camila Morgado, como a dona de casa Janete, a série começa logo com uma cena forte: uma mulher comete suicídio na Delegacia de Homicídios de São Paulo, após ter sido vítima de um golpe dado por um rapaz em um aplicativo de relacionamento.

A partir disso, a vida de trabalho burocrático de Verônica muda completamente. Na mesma semana, ela recebe um telefonema de Janete, uma vítima de violência doméstica. Determinada, a escrivã decide usar toda sua habilidade investigativa para mergulhar nos casos das duas mulheres: a jovem suicida enganada por um golpista e a esposa subjugada pelo marido, um inteligente e perigoso serial killer, interpretado por Eduardo Moscovis.

Tainá Müller como Verônica, em ‘Bom Dia, Verônica’, nova série da Netflix. Foto: Suzanna Tierie/Netflix/Divulgação

A série é baseada na obra literária homônima, escrita por Raphael Montes e Ilana Casoy. A dupla foi responsável, também, pela adaptação para a Netflix.

CLAUDIA conversou com Tainá Müller e com Camila Morgado para falar sobre a preparação para interpretar suas respectivas personagens e sobre a importante mensagem por trás da série. Confira:

Tainá, você publicou em seu Instagram que devorou o livro de Bom Dia, Verônica em três dias. Como você se sentiu lendo a história sabendo que iria dar vida a ela?

Tainá: Eu, como leitora, tentei me deixar envolver na história. E foi muito engraçado, porque a Verônica do livro, mais do que a da série, é uma personagem super errática. Eu fui sofrendo junto com ela, mas já sabendo que ela teria algumas modificações na adaptação. Então, eu não me apeguei muito, justamente porque o próprio Rafael e a Ilana mudaram a personagem para a série, porque são obras diferentes. Uma é literatura, a outra é audiovisual. Eles acharam bacana reinventar a Verônica no roteiro e entrou também o meu depoimento pessoal, como atriz, na composição dela. Então, a Verônica que está na tela é uma construção conjunta, pensada por mim, pelo Rafa, pela Ilana, pelo Zé Henrique [diretor], pela nossa figurinista, Marina Franco, e pelos atores que contribuíram no processo.

Quais foram os desafios de interpretar uma personagem com personalidade tão forte como a da Verônica?

Tainá: Eu acho que o maior desafio foi deixar o motor da Verônica ligado (risos). Ela é uma personagem que tenta equilibrar a vida profissional com a familiar, carrega uma tragédia na vida dela e, ao mesmo tempo, entra em uma espécie de quase obsessão por desvendar esses crimes e ajudar essas mulheres. Então, é muito para uma personagem só e eu não poderia deixar a bola dela cair nesses quatro meses de gravação. Eu tinha que manter uma frequência muito alta, todos os dias, e isso me exigiu muita energia, aquecimento e concentração, porque ela não olhava para o lado, ela só olhava para frente. Isso foi bem desafiador.

Tainá Müller interpreta a escrivã Verônica, que se envolve na investigação de dois casos de violência contra a mulher. Foto: Suzanna Tierie/Netflix/Divulgação

Você se identifica com alguma dessas questões da personalidade da Verônica?

Tainá: Com certeza. O próprio fazer da Verônica, que me demandou muito tempo e energia, me trouxe esse outro lado de chegar em casa e tentar dar a melhor atenção possível para o meu filho – e às vezes faltar energia para isso. [Trouxe esse lado] de eu me cobrar de estar 100% em tudo. Eu acho que essa é uma questão da mulher contemporânea. E isso, de certa forma, também nos oprime, porque há uma autocobrança em todas as áreas. Muitas questões da Verônica me tocam, ela tem o cuidado pelo pai dela, ela dá atenção à filha que sofre bullying na escola… São questões que eu acho que muitas pessoas vão se identificar.

Camila, a Janete representa milhares de mulheres brasileiras que sofrem com a violência doméstica no Brasil. Qual é o desafio de dar vida a uma personagem com tamanha representação?

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Camila: É um tema urgente, então o desafio era fazer essa vítima com verossimilhança, porque eu estou falando da verdade e muitas mulheres vão se identificar. Eu quis entender bem esse processo de como a vítima vai compreendendo que ela não é responsável pelos atos do agressor. É um processo doloroso, que ela tem que ir amadurecendo e entendendo que ela não é culpada – porque muitas acham que são. O processo de manipulação e a violência psicológica são tão intensos que, até ela entender que ela não é responsável, e sim a vítima, leva um tempo. A violência de gênero é pautada no poder, então os homens não são responsabilizados pelo o que eles fazem e são sempre perdoados. Então é muito difícil. O meu desafio era esse comprometimento, ter um respeito profundo por quem está vivendo isso ou por quem conhece alguém próximo, para eu poder fazer essa vítima com verdade, para que ela possa criar uma empatia no público e uma identificação nas mulheres.

Janete (Camila Morgado) vive um relacionamento abusivo com o marido Brandão (Eduardo Moscovis), um inteligente e perigoso serial killer. Foto: Suzanna Tierie/Netflix/Divulgação

Como foi o preparo para interpretar a Janete?

Camila: O fato de sermos mulheres já vai nos ajudando a falar sobre esse tema que é tão espinhoso, porque nós já vivemos algo parecido na nossa vida ou conhecemos alguém que passou por isso. Quando eu estava fazendo a personagem, algumas mulheres no set vieram falar comigo, porque estavam se enxergando naquele papel. Uma veio falar comigo chorando e me agradecendo, porque é muito bom perceber que não está sozinha. Quando a mulher percebe que tem outras mulheres que passam por isso e ela pode fazer uma denúncia, eu acho que tudo começa a se modificar. Mas eu li muita coisa para me preparar, eu conversei muito com a Ilana e com o Rafael, conversei com o Zé Henrique, com o Du [Moscovis] e com a Tainá. Vi muita séries e filmes, porque é uma personagem com muitas camadas. Eu tinha que fazer esse espaço da casa dela como um grande cativeiro, porque a manipulação que ela sofria era tão intensa que ela começou a não pertencer mais ao mundo externo.

A série tem uma grande importância em qualquer período, mas principalmente agora durante a pandemia do coronavírus, em que os casos de violência doméstica aumentaram por conta do isolamento social. Vocês acham que a série vai servir como um alerta?

Tainá: Eu espero que sim. Às vezes, precisamos falar da realidade de uma forma emoldurada pela ficção, para que ela tenha ainda mais impacto do que uma notícia, por exemplo. Então, na medida em que as mulheres forem se envolvendo com o drama da Janete, eu acredito que aquelas que estiverem passando por uma situação de abuso, ainda mais no confinamento, ficarão mais atentas. Se isso acontecer, vai ser para mim o grande gol como artista, porque para mim tem que ter propósito. Cada vez mais eu quero trabalhar em personagens que tenham um propósito maior, não só algo superficial. E eu acho que a Verônica me possibilitou isso.

Camila: Eu me sinto até um pouco constrangida falando desse tema sabendo que eu sou uma mulher branca e privilegiada, em um país onde mais de 50% da população é negra e sabendo que, se eu falo de um machismo estrutural, eu tenho que falar do racismo estrutural, porque ambos estão ligados. Um não vai melhorar sem a melhora do outro. Então, as duas coisas estão profundamente ligadas e enraizadas e os dois casos são estruturais. Precisamos mudar a forma de ver esse homem, ter igualdade na sociedade, tanto de classe, de raça e de gênero. Precisamos muito falar sobre isso. Acho que essa série traz essa pauta tão urgente, porque não podemos aceitar isso como normal. Isso não é normal e não tem argumento que justifique esse tipo de violência.

Para Camila, a cena em que Janete abre a caixa que é usada por ela no momento em que Brandão comete seus crimes, é uma simbologia à forma como ela compreende que vive um relacionamento abusivo. Foto: Suzanna Tierie/Netflix/Divulgação

Qual é a mensagem principal que a Verônica e a Janete poderão passar para as mulheres que assistirem à série? 

Tainá: Acho que cada pessoa que assistir à série vai tirar uma mensagem dela. Há uma primeira mensagem muito clara, que fica ainda mais explícita no final de cada episódio: busque ajuda. Mas também há várias outras questões. É uma série que trata muito de saúde mental também. O próprio Brandão tem uma questão mental e a Verônica também. A saúde mental é um assunto presente à medida em que um sistema opressor não só mata, mas adoece as pessoas.

Camila: A Janete tem a questão da caixa [a caixa é usada, na cabeça da personagem, para que ela não veja o modus operandi do marido enquanto comete seus crimes]. A caixa representa esse cativeiro dela e eu acho muito simbólico que, enquanto ela fala com a Verônica, ela começa a entender que o que ela tá vivendo não é normal. Quando ela abre a caixa, ela começa esse processo de entender que ela é vítima desse sistema absolutamente machista. Eu acho que é importante as mulheres poderem abrir essa caixa.

Assista, abaixo, o trailer de Bom Dia, Verônica:

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