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Você não é o seu trabalho (e por que você deve fugir dessa armadilha)

A busca confusa por propósito nos deixa vulneráveis para cair nas armadilhas de um sistema que estimula o trabalho como prioridade

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 3 dez 2021, 13h44 - Publicado em 22 nov 2021, 15h31

“O trabalho perfeito não existe”, diria qualquer psicóloga diante da maioria dos homens e mulheres que vão aos consultórios reclamando da falta de algo que os satisfaça e preencha profissionalmente. Imagine seu ídolo ou uma referência no mundo do trabalho. Nem o trabalho dele ou dela é perfeito, acredite. E isso não é culpa dos cargos, mas de nós mesmos, que demos à essa atividade uma carga de responsabilidade emocional muito maior do que ela deveria ter.

“Vivemos num sistema que foi enraizando na gente a ideia de que é obrigatório crescer na carreira, ter sucesso, como se não houvesse limite nem objetivo final, porque sempre dá para ir além. Normalizamos, por esse motivo, muitas horas de trabalho, almoçar na mesa, jantar diante do computador, não ter tempo para ir ao médico ou praticar exercícios. Ficamos todos exaustos. Só que, como isso não era falado, acreditávamos que existiam casos isolados de estafa ou esgotamento. As pessoas tinham receio de admitir que estavam cansadas e de falar publicamente ou até com familiares e amigos próximos sobre a situação”, explica Roberta Paes Carneiro, diretora de recursos humanos da Fluke, empresa no setor de telefonia.

CARREIRA
Getty/CLAUDIA

Estamos construindo essa noção de que a realização inclui dinheiro, reconhecimento e fama há muitos anos. Para algumas pessoas, pode até ser verdade, mas não é para todos nós. Aí que entra a importância do propósito, termo que ouvimos bastante recentemente e que acabou banalizado.

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“Existe uma grande confusão entre o que é propósito e o que fazemos de fato. O propósito pode estar atrelado à sua carreira, mas ele é mais do que isso”, afirma Heloísa Capelas, assistente social especializada em desenvolvimento humano e autora de Inovação Emocional: Estratégias Para Que Seu Impacto No Mundo Construa Resultados Saudáveis, Fortes e Perenes (Gente).

“As pessoas estão pensando que propósito é ficar rico fazendo uma coisa que gosta, mas, na verdade, propósito é você descobrir quem você é e o que pode fazer para ser feliz com o que tem”, acrescenta. Não tem nada a ver com paixão pelo trabalho, porque é claro que dá para amar o que se faz, mas, como em qualquer relação, vão existir momentos chatos, burocracias e decepções – ou seja, não é recomendado idealizar.

CARREIRA
Getty/CLAUDIA

Segundo a especialistas, estudos comprovam que a felicidade e a satisfação humana são, na maior parte dos casos, provenientes de ações que impactam não apenas as nossas vidas, mas a dos outros. “Somos seres relacionais e ter conexões genuínas, fazer bem ao próximo pode ser mais recompensador do que ganhar uma promoção”, explica Heloísa.

Apesar desses exemplos, pode ser difícil encontrar o seu propósito e talvez essa resposta demore anos para chegar. O ideal é se perguntar com frequência os motivos pelos quais você sai da cama de manhã e o que verdadeiramente impulsiona suas decisões. É bastante improvável que entregar um relatório no prazo correto ou aumentar o lucro do seu setor venham à sua cabeça.

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“O propósito é aquilo que você nasceu para fazer e você não nasceu para trabalhar numa vaga ou empresa específica. Essa experiência é um pedaço de quem você é, mas você também é muito mais. Somos múltiplos e precisamos abraçar essas facetas todas, equilibrar cada uma delas para entender o sentido das nossas escolhas”, recomenda Heloísa.

É nesse ponto que entra mais um fator estressante: as redes sociais. A possibilidade – injusta – de comparação que elas oferecem nos coloca em contato constante com versões criadas de outras pessoas – e todas parecem estar ganhando dinheiro e alcançando status com o “propósito” delas.

“Por causa da nossa organização social, é comum que entremos num piloto automático e busquemos conquistas motivadas por fatores externos, alguns que, no fundo, nem são realmente importantes para nós. Aí, quando vemos no Instagram outra pessoa que subiu mais um degrau nessa busca, sentimos ansiedade. Vivemos um momento em que parecer é mais importante do que ter – outro período social que já ocorreu – e do que ser, que era o que deveríamos estar buscando”, afirma a psicóloga Ana Léria, especialista em psicologia positiva e comunicação.

A pandemia para o bem e para o mal

Você já deve ter ouvido o termo “epidemia de burnout”. O ritmo intenso imposto por nós mesmos e pelo sistema começou a demonstrar rachaduras com muitos profissionais apresentando sintomas de estafa ao mesmo tempo. O stress excessivo que resulta no burnout pode causar desde falta de ar e depressão até questões cardiológicas.

Se já víamos o problema sendo exposto antes da pandemia – e finalmente entrando numa esfera de discussão pública, quebrando o tabu sobre o tema –, o tempo em casa e a pressão do que vivemos abriu as cortinas para uma questão social muito real. “A dedicação excessiva num país em crise, com tanto desemprego, como é o nosso, também carrega o fator do medo de perder, de não ter. É um instinto básico humano. Só que dedicação não é garantia de manutenção do emprego, o que pode gerar outra decepção ainda maior”, explica Ana Léria.

“O propósito é aquilo que você nasceu para fazer e você não nasceu para trabalhar numa vaga ou empresa específica. essa experiência é só um pedaço de quem você é, mas há outros”

Heloísa Capelas, especialista em desenvolvimento humano

A sobrecarga, especialmente para nós, mulheres, não seria sustentada por muito tempo. Conscientes da situação e também interessadas no bem-estar do funcionário – que precisa estar saudável para produzir –, as empresas passaram a adotar novas estratégias. “As organizações estão valorizando a vulnerabilidade, adotando a ideia de que o funcionário não tem que ser perfeito e ignorar emoções negativas no ambiente profissional”, explica Ana Léria.

“Muitas empresas fizeram conversas sobre saúde mental no isolamento, chamaram médicos para dar palestras sobre o tema, passaram a oferecer subsídios para terapia e até reservaram horários na agenda de todos para meditação e descanso”, completa Roberta, que alerta, contudo, que o movimento não pode vir apenas da empresa. “Cabe a nós abrir espaço na rotina para o que nos traz prazer, e não apenas fazer aquilo que garante dinheiro. Pode ser uma atividade mais artística, uma mentoria que não tenha a ver com a sua carreira”, sugere.

Tem solução?

Sim, mas não há caminho fácil. “O grande ponto da cura é a conexão com nós mesmas, e não com o mundo exterior, que é o que está acontecendo no momento. O autoconhecimento é libertador”, fala Ana Léria. Segundo ela, essa trajetória pode gerar dores, porque envolve reconhecer falhas e erros. Mas, de acordo com a psicologia positiva, também ocorre a valorização e o uso de forças e virtudes, gerando satisfação plena.

“Vejo as pessoas mergulhando no trabalho para tentar fugir de problemas. Isso é um autoengano. O nó não vai se desfazer sozinho”, acrescenta ela, que chama a atenção também para o risco de depositarmos a esperança da felicidade e da realização no futuro. “Pensamos, muitas vezes, que vamos nos sentir satisfeitos quando casarmos, quando tivermos filhos, quando alcançarmos aquele cargo alto. E aí vamos jogando a responsabilidade pela felicidade lá na frente. Perdemos contato com as necessidades do aqui e agora. Usamos o tempo presente para trabalhar excessivamente, com a justificativa de que isso vai gerar frutos em algum momento”, afirma Ana Léria, que recomenda atividades de mindfulness para se centrar no agora.

“É importante pensar em viver bem todos os dias. Sugiro tentar entender o que satisfaz necessidades individuais. Eu descobri que, para mim, faz diferença acordar com calma e escrever. Muda meu bem-estar durante o dia, então não abro mão desse hábito”, exemplifica Roberta. No fundo, o que tudo isso provoca é um retorno para nós mesmas, um olhar para o interno que privilegia interesses e sonhos diferentes.

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