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Sem planos de aposentadoria, mulheres pensam numa segunda carreira

A aposentadoria não faz sentido para uma geração de mulheres produtivas e com necessidades financeiras. Mas o mercado as obriga a pensar num plano B

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 19 set 2021, 23h22 - Publicado em 17 set 2021, 15h00
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ara a maioria da população brasileira, a proposta de parar de trabalhar aos 60 a 65 anos e viver uma rotina mais tranquila, apenas com a renda da contribuição pública ou de ganhos acumulados durante a vida sempre foi uma utopia. Nos últimos anos, o cenário piorou com a reforma da Previdência, que exige maior tempo de contribuição e dificulta retornos de valores mais altos, e com a perspectiva da fragilidade desse sistema, que pode não dar conta da numerosa população.

Agora, novos fatores entram para essa equação – e eles são especialmente preocupantes para as mulheres. Com a longevidade crescendo, os 50 anos se tornaram um auge produtivo na vida profissional, e, para a maioria das mulheres, é improvável parar dali 10 ou 15 anos. Além disso, como elas se tornam mães mais tarde, ainda somam contas altas em casa nessa idade, sustentando os filhos e também, por vezes, os pais idosos. É uma combinação do desejo de continuar com necessidade de renda.

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O que vai na contramão é justamente o mercado de trabalho, que não é amigável com as mulheres nessa faixa etária – por puro preconceito ou por não encontrar pessoas com conhecimentos atualizados, especialmente no âmbito digital.

artista pendurada em bambolê suspenso
Astrid Spengler/EyeEm/Getty Images

Tanto é que, na pandemia, foram as mulheres que mais ficaram desempregadas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020, a taxa de desempregados com mais de 50 anos ultrapassou os 7%, registro mais alto desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012. Do fim de 2019 até o fim de 2020, mais de 400 mil brasileiros nessa faixa etária ficaram desempregados. Em 2021, o cenário deve permanecer sombrio, com a pandemia do novo coronavírus ainda sem perspectiva de acabar, a crise financeira piorada por ela e pela crise política e institucional que o Brasil enfrenta.

Ainda que tudo isso forme um contexto pessimista, as mulheres não têm opção a não ser arrumar um plano B. Elas enfrentam o desconhecido, superam o medo, arriscam e escrevem novas histórias para si mesmas. Um reflexo disso já foi notado no último ano, quando houve aumento expressivo no número de negócios abertos por pessoas mais velhas: 115% superior a 2019 entre pessoas de 55 a 64 anos. A maioria seguiu o caminho por necessidade, reforçando que é preciso deixar de lado o discurso de “sonho de investir num negócio próprio” e encarar as dificuldades impostas pelo mercado.

62% das mulheres empreendedoras tiveram seus negócios afetados por causa da pandemia

Não que o empreendedorismo não tenha sofrido com a crise: na verdade, o cenário foi brutal, fechando quase 10 milhões de negócios. As mulheres representam 62% dos afetados, segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2020, feita em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP). Ao mesmo tempo, os novos negócios de mulheres subiram 49% entre 2019 e 2020.

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A análise é de que as mulheres que tenham deixado o empreendedorismo foram substituídas por outras, menos experientes ou com formação educacional inferior. Foi observado também que a maioria dos negócios nasceram digitais, exigindo habilidades específicas e com promessa de alcance nacional.

“É claro que estamos falando de um cenário de exceção, uma crise que exigiu atuação rápida. Mas é fato que os mais jovens e os mais velhos são pouco absorvidos pelo mercado, portanto podemos usar essa informação para ir construindo um futuro mais sólido e possível para uma segunda etapa da carreira e, depois, para uma aposentadoria”, explica Carolina Martins, especialista em recolocação e autora do maior perfil no LinkedIn sobre o tema.

De olho no amanhã

Formada em economia, a paulista Giovanna Fischer, 39 anos, tem uma sólida trajetória no mundo corporativo e gosta do seu emprego. Contudo, desde o nascimento dos filhos, ela percebeu que seu avanço nas empresas pelas quais passou teria um limite.

“Se você me perguntasse há pouco mais de uma década como eu enxergava minha aposentadoria, eu diria que estaria viajando pelo mundo. Mas, se eu fizesse as contas, não batiam. Aí vieram as crianças e a responsabilidade financeira aumentou. O que eu achava que custaria um valor virou o dobro. Ao mesmo tempo, tomei consciência de que o crescimento corporativo é limitado. São menos vagas da diretoria para cima e ainda que seja possível virar CEO, exige um estilo de vida que não é o desejo de todo mundo”, conta a mãe de Pedro, 9 anos, e Vitória, 3.

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Segundo Giovanna, a carreira da mulher é como uma parábola, uma curva no gráfico que ascende para, depois de atingir o cume, cair. Enquanto segue sendo promovida e com ótimas perspectivas, ela decidiu se aventurar paralelamente no empreendedorismo. Primeiro, estudou óleos essenciais, uma paixão desde a adolescência, depois fez muitos cursos sobre terapias holísticas para, enfim, criar uma empresa de óleos essenciais, a Essentioils, tema que também rendeu um livro escrito por ela.

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“Eu sou economista e nunca fui muito holística, tinha até certo preconceito com isso. Mas a aromaterapia, que eu simpatizava desde a adolescência, me ajudou num momento difícil da minha vida pessoal, quando sofri um aborto e, em seguida, perdi meu pai. O autoconhecimento que essa terapia e outras me proporcionaram permitiu que eu revisse meu estilo de vida, entendesse que eu me estressava demais e tinha um ritmo de trabalho insustentável. Quero que outras pessoas tenham essa mesma oportunidade”, fala ela.

“Se eu demorei 20 anos para construir a minha carreira, por que quero que meu empreendimento dê resultado em 2 meses?”

Giovanna Fischer, economista

A história de Giovanna ilustra bem a de muitas mulheres que abrem negócios mais tarde na vida: elas preferem se dedicar a uma paixão, algo que dá um retorno maior do que o financeiro, mas também alimenta o propósito.

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“Eu gosto muito do conceito de empreendedorismo como forma de remunerar aquilo que você gosta. Porém, é importante entender que o empreendedorismo de palco, esse mágico, de crescimento e lucro imediatos que as pessoas adoram divulgar, não existe. Qualquer projeto exige estudo prévio, investimento e pelo menos um ano para estabilização antes de começar a crescer de verdade. Os negócios necessitam de tempo de maturação e de maturidade do fundador. Não dá para levar a sério aquelas histórias de que a pessoa começou a vender biscoito na praia e em meses tinha 37 lojas espalhadas pelo país”, acrescenta Carolina.

Equilibristas no circo
Pacific Ibarra/EyeEm/Getty Images

Giovanna concorda, tanto que fundou a empresa – que entrou num processo de aceleração do Vale do Silício recentemente – com o intuito de levá-la paralelamente por um bom tempo. “Eu demorei 20 anos para construir uma carreira, por que eu quero do meu empreendimento resultado em dois meses? Sei que minha empresa vai demorar de 5 a 8 anos para crescer da forma como sonho e me dar o retorno financeiro programado para que eu não tenha que mudar meu estilo de vida quando sair do mundo corporativo”, explica.

“É importante entender que o empreendedorismo de palco, esse mágico, de crescimento e lucro imediatos, que as pessoas adoram divulgar, não existe. qualquer projeto exige estudo prévio, investimento e pelo menos um ano para estabilizar antes de começar a crescer de verdade”

Carolina Martins, especialista em recolocação

Consciente e planejada

A demissão não precisa ser o fim da trajetória para ninguém. A recolocação é uma opção, mas o cenário atual dificulta que ela aconteça rapidamente, especialmente para quem deixou de se atualizar. “Contudo, muitas mulheres seniores encontram frilas como consultoras e podem até abrir uma empresa específica para isso, caso tenham domínio de uma área do mercado em que atuavam”, explica Carolina, que acredita que é questão de tempo para as empresas se adaptarem e reverem a demissão de profissionais mais velhos.

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“Não faz sentido trocar um experiente por dois juniores, afinal, não é o quantitativo que faz a diferença no trabalho, mas o qualitativo”, prevê. Enquanto isso não acontece, Carolina sugere estar preparada financeiramente. “Guarde o equivalente a seis meses de salário para uma reserva de emergência. Isso pode ser construído aos poucos, para se precaver em uma possível demissão”, explica.

A longo prazo, pensando em uma aposentadoria, Carolina sugere não contar com outros recursos que não os que você juntou no decorrer da vida. “A previdência pública ficará mais difícil e até inacessível. Para manter um padrão de vida semelhante ao seu atual, é recomendado separar fatias cada vez maiores do seu salário, começando com algo em torno de 3% e crescendo essa quantia. Faz diferença você poder escolher se quer parar ou não, sabendo que tem condições de sobreviver independentemente da decisão”, afirma.

Parar? Nem pensar

Aida Fonseca, 53 anos, começou a trabalhar muito cedo no mercado financeiro, mas a rotina nos bancos ficou incompatível quando se tornou mãe. “Não quis comprometer a maternidade e parei feliz, porque era meu desejo ficar com as minhas filhas. Sempre pensei num plano B, contudo”, diz ela, que fez faculdade de psicologia com quase 40 anos.

“Era uma carreira de horários mais flexíveis, então parecia promissora para uma mãe”, lembra Aida, que engravidou da segunda filha durante o curso. Um convite de trabalho para seu marido levou a família toda a morar nos Estados Unidos e no Uruguai, frustrando o plano de Aida. “Eu precisaria revalidar meu diploma, o que dificultava exercer a psicologia. Só que não me saía da cabeça a busca por outra oportunidade”, diz.

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Um tempo depois, ela foi convidada para ser sócia da Novelaria, loja de produtos para trabalhos manuais com aulas e até um café. “Juntava minhas áreas de experiência. Eu já tinha trabalhado com comércio exterior, o que me ajudava na parte de importação dos produtos. E também tinha noção da importância das terapias manuais para a saúde mental”, conta Aida, que em pouco tempo se tornou a única dona do negócio.

Equilibrista
Maryna Terletska e Boris SV/Getty Images

Ela voltou para o Brasil e começou uma nova fase da vida. “Ampliei a oferta de produtos e de cursos. Tenho muito orgulho do que faço. Além disso, me sinto útil, produtiva. Por mais que eu tivesse parado de trabalhar consciente da minha decisão, sentia falta dessa sensação”, revela.

Ela diz que até o casamento mudou, já que tem novos assuntos para discutir com o parceiro. “Também acho um bom exemplo para minhas filhas. Elas vêem a mãe curiosa, aprendendo, questionadora, ativa. Eu não penso em parar pelos próximos 20 anos. Sei que a idade talvez me obrigue a reduzir o ritmo, mas a aposentadoria nos antigos formatos, de ficar em casa, não passa pela minha cabeça”, conta.

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