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“Um número significativo”, diz advogada sobre vítimas de Marcius Melhein

Em live, advogada de defesa e consultora das vítimas discutiram detalhes das acusações contra o humorista

Por Da Redação 4 dez 2020, 20h09

Sucedendo a repercussão da matéria publicada nesta sexta-feira (4) pela revista piauí, a advogada criminal Mayra Cotta e a cientista política Manoela Miklos participaram de uma live organizada pelo UOL e mediada pelos jornalistas Leonardo Sakamoto e Nina Lemos. Na transmissão, elas discutiram detalhes das denúncias de assédio sexual praticado por Marcius Melhem contra Dani Calabresa e outras mulheres. Ambas trabalham no caso, atuando na defesa e consultoria das vítimas.

Questionadas sobre o que representam essas denúncias, Mayra e Manoela afirmaram esperar que o caso possibilite uma nova fase no debate público sobre a violência de gênero, em específico o assédio no ambiente de trabalho.

“Temos um avanço em duas frentes muito importantes: tanto a individual, particular das vítimas, quanto a simbólica, para todas nós mulheres que sabemos o problema do assédio sexual no trabalho”, disse a advogada.

  • Elas também apontaram a necessidade não apenas do Estado, mas também das empresas de assumirem suas responsabilidades pela segurança das mulheres. “As organizações precisam ser mais proativas em lidar com esse tema. É preciso entender que o assédio sexual não acontece porque um dia um homem acorda e decide assediar alguém. Ele é reproduzido, corroborado pelo ambiente de trabalho”, explicou Mayra.

    “Muitas vezes, dentro da empresa não existe alguém com autonomia e objetividade suficiente para endereçar um assédio, porque as condutas vão se naturalizando. Então as empresas podem chamar um olhar externo para analisar as relações de gênero internas, tentar entender se tem algum problema ruminando ali que pode vir a explodir e se transformar num caso muito grave de assédio”, continuou.

    No caso da Rede Globo, a advogada apontou que, do ponto jurídico, a responsabilidade não chega a ser criminal, mas civil. “A empresa é responsável pelas pessoas que ela coloca em posição de poder”, disse, explicando o fato de Marcius ocupar um cargo alto na hierarquia – ele era diretor do Departamento de Humor –, um dos elementos do crime de assédio sexual.

    Condutas semelhantes

    Durante a conversa, foram levantadas as comparações que estão sendo feitas com o caso de Harvey Weinstein, tanto sobre as posturas dos assediadores, quanto das dificuldades das vítimas em romper o silêncio.

    Para Manoela, os paralelos são muitos, com condutas metódicas, longevas e toleradas. “Mas eu espero que, para além dos paralelos infelizes, tenhamos também os felizes, que nos permitam avançar”.

    Tendo atuado também nas denúncias realizadas pela figurinista Su Tonani sobre o assédio que sofreu do ator José Mayer, a cientista política também foi questionada a respeito das semelhanças entre esses dois casos, ambos ocorridos na mesma instituição.

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    “Como estamos falando de dois casos que ocorreram dentro de uma empresa, pode parecer que o problema é esse espaço. São todos os espaços, todas as empresas”, reforçou.

    A cientista política define que os paralelos entre os dois casos estão na vontade de falar sobre o assunto, apesar do medo. “Mas existem também diferenças bastante significativas. [O relato da Su] era um relato profundamente trágico, mas não tão surpreendente. Nesse caso, surpreende isso: a magnitude, longevidade, quanta gente acompanhava e sabia e quanta gente não fez o que deveria e poderia”.

    Em relação à quantidade de vítimas e suas identidades, as duas reiteraram seus compromissos em preservá-las, uma vez que o processo de denúncia pode ser de uma violência da mesma magnitude que a sofrida inicialmente.

    “Quando uma vítima não quer falar, ela está com medo. Um medo que não é infundado. Elas estão olhando para uma situação de assimetria de poder de uma magnitude inédita. Mesmo quando estamos falando de nomes conhecidos”, disse Manoela.

    “Nossa estratégia sempre foi o foco ser ele, pois ele é o responsável pelo que está acontecendo”, completou Mayra. “E não as mulheres que já sofreram muito. É preciso ser muito responsável para falar de trauma”.

    A advogada revelou não ter ideia do número exato de vítimas e que mais denúncias contra Melhem podem surgir a qualquer momento. “Quando saiu a matéria da Folha [de São Paulo], imediatamente novas vítimas me procuraram. Casos antigos, algumas não trabalhavam mais na Rede Globo. Mas o que sabemos já é um número bastante significativo”.

    Próximos passos

    Sobre o que pode acontecer de agora em diante do ponto de vista legal, Mayra explicou que qualquer promotor ou promotora pode instaurar um inquérito para averiguar as condutas, solicitando inclusive uma investigação interna na Globo, mas é apenas uma possibilidade e nada foi definido nesse sentido ainda.

    Ela também reforçou a importância de tornar públicas histórias como essa para criar uma rede de apoio. “Uma coisa que me chamou muita atenção foi que, quando as mulheres souberam que haveria uma investigação interna, a primeira coisa que elas pensaram foi: ‘Que alívio! Eu não sou doida de ter achado que sofri uma violência, que o que aconteceu comigo foi errado. Eu não estou sozinha'”.

    “Temos que criar um mundo em que consigamos falar mais sobre isso de uma forma que não exija tanto das mulheres que estão passando por uma situação de violência e que desejam sair dela. Isso é uma construção longa, e hoje é um dia muito importante nessa construção”, prosseguiu a advogada.

    “É algo que nenhuma mulher vai fazer sozinha, mas coletivamente. Contando sempre com a tomada de responsabilidade de outros atores, principalmente daqueles que devem zelar pelo local de trabalho”, concluiu Mayra.

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