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Nova série mostra princesa Catarina de Aragão por perspectiva feminina

"The Spanish Princess", que estreia este mês, supera discursos e representações machistas antigas ao contar outra versão da história

Por Marianne Morisawa Atualizado em 20 out 2020, 16h04 - Publicado em 21 out 2020, 10h00

A história sempre foi narrada e registrada por homens, o que deixa uma marca de perspectiva. São reis, ministros, generais e sacerdotes que ganham o protagonismo e, salvo raríssimas exceções, às mulheres cabem as notas de rodapé.

A comunidade científica feminina tem feito um enorme esforço para rever e, se possível, reverter os impactos disso. Tanto é que, nos últimos anos, personagens mulheres ganharam novas roupagens, de acordo com estudos recentes, e figuras de que nunca havíamos ouvido falar se tornaram inspiração para muitas garotas.

A vida de Catarina de Aragão (1485-1536) é um exemplo perfeito disso. Retratada como a mulher abandonada pelo rei Henrique VIII, ao ser trocada por Ana Bolena, era vista como derrotada e apareceu em séries hipersexualizadas.

A escritora Philippa Gregory, autora de A Princesa Leal e A Maldição do Rei, nunca comprou essa versão e foi atrás de reescrever a biografia da princesa, projeto que inspirou a série The Spanish Princess, cuja segunda e última parte estreia no serviço de streaming Starzplay este mês.

“O mundo conhece a Catarina amarga, de meia-idade, desprezada por Henrique. Isso é injusto porque ela era uma mulher extraordinária, uma guerreira e boa amiga”, diz Emma Frost, cocriadora e showrunner (responsável por coordenar roteiristas e ditar os rumos da trama) com Matthew Graham.

Catarina de Aragão era filha da rainha Isabel I de Castela e do rei Fernando II de Aragão – os dois governaram em parceria unificando a Espanha, embora no papel isso só tenha acontecido bem mais tarde, no século 18.

Foto/Divulgação

Para formar uma aliança com a Inglaterra, Catarina foi prometida ainda criança ao príncipe herdeiro do trono inglês, Arthur. Eles se casaram em 1501, só que Arthur morreu apenas cinco meses depois, antes mesmo de assumir o trono.

A princesa espanhola ficou abandonada à própria sorte, mas, com habilidade, conseguiu cumprir seu objetivo e se tornou rainha da Inglaterra ao casar com Henrique VIII, irmão mais novo de Arthur. Esses eventos foram apresentados na primeira temporada.

A segunda começa com a festa que oficializa a união de Catarina, interpretada por Charlotte Hope, e Henrique, papel do ator Ruairi O’Connor, e se estende mostrando as tentativas de ter um herdeiro, que envolvem muitos abortos espontâneos.

“A série basicamente parte de uma mentira”, explica Frost, referindo-se ao fato de Catarina ter jurado ser virgem mesmo após o casamento com Arthur para poder se unir a Henrique – nos livros de história, não há provas de que não seja verdade. “Parece que ela consegue o que deseja, mas tem que viver com essa fraude, que aos poucos volta para assombrá-la”, completa.

Você deve se lembrar de Charlotte Hope no papel de Myranda, a namorada do terrível Ramsay em Game of Thrones. A atriz topou esse novo projeto porque se identificou com a princesa, apesar dos cinco séculos que as separam.

“Não é uma mera produção de época com vestidos lindos e pessoas andando a cavalo. Essa mulher é incrivelmente relevante até hoje porque ainda falamos pouco sobre infertilidade e aborto espontâneo, por exemplo”, ressalta a inglesa.

Para Charlotte, é como se os dramas de Catarina de alguma forma persistissem. “Eu sou mulher e quero ter uma família, filhos, um casamento feliz, uma carreira bem-sucedida. Não sei se vou ser capaz de ter tudo. Essa ansiedade não me deixa dormir à noite.”

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Algumas cenas foram adaptadas para produzir efeito dramático, claro, mas a maioria delas realmente aconteceu. É o caso daquela em que Catarina cavalga, grávida, até um campo de batalha e faz um discurso decisivo para a vitória inglesa contra os escoceses enquanto seu marido estava na França.

Na versão televisiva, a diferença é que a armadura dela é adaptada para caber a barriga. “Ouvimos falar pouco desses episódios porque o patriarcado é forte, mas eram mulheres poderosas que desenvolviam estratégias de manipulação para conseguir o que queriam”, acrescenta a atriz.

Foto/Divulgação

No resgate de uma versão mais realista da história de Catarina, outras mulheres também ganharam retratos mais respeitosos. Maggie Pole (Laura Carmichael) era uma viúva com cinco filhos e sem herança que virou dama de companhia da princesa.

Meg (Georgie Henley) e Mary (Sai Bennett), irmãs de Henrique VIII, foram obrigadas a se casar com os reis da Escócia e da França respectivamente, mas não deixaram barato. “Elas têm algo de moderno”, afirma Georgie.

A pessoa mais próxima de Catarina é Lina de Cardonnes (Stephanie Levi-John), sua dama de companhia desde a corte espanhola e prova de que, diferentemente do que o cinema e a televisão fazem parecer, havia gente não branca na realeza europeia.

“Algum tempo atrás, alguém me disse que eu deveria fazer um drama de época. Para mim, parecia algo impossível, porque nunca tinha visto ninguém parecido comigo numa produção de época”, conta a atriz, que é negra. “Na verdade, havia, sim. Eram pessoas vindas da África, da Ásia. Lina existiu mesmo e era incrível. Eu me identifiquei muito com ela.”

Apesar desse caso positivo, é impossível não notar que o elenco não conta com espanhóis, mesmo a história sendo sobre a realeza do país. “Nosso critério foi: o melhor ator vence”, alega Matthew. Emma acrescenta que não era possível ser fiel à época, pois a Espanha como conhecemos hoje nem sequer existia.

Charlotte já tinha estudado francês e espanhol na universidade. “Jamais achei que iria usar”, conta, rindo. Nos intervalos das gravações, ela, Stephanie e Aaron Cobham, que interpreta Oviedo, marido de Lina, continuavam falando inglês com sotaque espanhol para manter o ritmo. “Aaron chegava a fingir estar procurando as palavras em inglês, e eu dizia: ‘Cara, você é de Manchester’ ”, lembra Matthew.

Para o elenco feminino, um dos pontos fortes da série é a forma como são mostradas as relações entre mulheres, que nem sempre aparecem em sua complexidade real na TV e no cinema. “Não são simplistas, como mulheres se unindo para derrotar os homens. Elas se apoiam e se derrubam. Uma sente inveja da outra, mas elas se amam; é complicado e rico”, diz Charlotte.

A atriz conta que a personagem lhe trouxe um benefício a mais: serviu-lhe de inspiração para enfrentar este ano tão difícil. “Catarina é forte e também vulnerável. Eu passei boa parte de 2020 gritando e chorando. Quando penso nela, não me julgo. Eu me espelho nessa figura, que foi derrubada tantas vezes, mas nunca desistiu”, conta a atriz. “Ela criou na minha memória a imagem da resiliência, e eu precisei muito disso nos últimos meses.”

A história de Catarina de Aragão é a de uma mulher que fica viúva, tem a enorme responsabilidade de unir reinos, perde muitos filhos e é banida da corte após o divórcio forçado por Henrique VIII.

Mas, para além dos fatos, como isso reflete na vida dela e na trajetória do mundo depende muito do ponto de vista de cada um. “Para mim, essa não é a trama de uma vítima, mas de uma mulher que luta até o final”, afirma Charlotte. “Eu espero que as mulheres percebam que a série é muito fiel à experiência feminina, seja na era Tudor, seja no presente, e que garotas se inspirem na força de Catarina, como aconteceu comigo.”

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