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Diário De Uma Quarentener

Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.
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Eu quero uma casa no campo…

Uma casinha no mato, café preto pela manhã e chás pela tarde são os desejos da escritora Juliana Borges no momento

Por Juliana Borges
Atualizado em 28 set 2020, 21h46 - Publicado em 28 set 2020, 21h00

São Paulo, 28 de setembro de 2020.

Se alguém me perguntasse há cinco anos se eu me mudaria da cidade, ouviria um belo gigantesco: JAMAIS! Eu duvidava quando minha mãe dizia para eu dar tempo ao tempo e que, tão logo os anos avançassem, o que eu mais sonharia seria com uma casinha no mato, café preto pela manhã e chás pela tarde, uma hortinha com de tudo um pouco, o vizinho mais próximo a quilômetros e um silêncio de calmaria. Mas é só o que sonho nesses tempos.

Incrível imaginar que eu, uma amante da metrópole, que já curtiu muitas noites paulistanas, um dia escutaria Casa no campo, na voz de Elis Regina, e ficaria imensamente emocionada, fosse aos prantos e cravaria esse sonho para sua velhice. Cada vez mais, tenho adorado “o silêncio das línguas cansadas”, o papo telepático com minhas plantas e o desejo de “plantar e colher com a mão a pimenta e o sal”. O barulho tem me irritado sobremaneira, a mania de falar pelas tabelas têm parecido cada vez mais insuportável e crianças gritando descontroladamente na rua, sem qualquer freio parental, têm me feito desconfiar se os humanos sabem mesmo o que é humanidade.

Belchior, o grande, já havia dito para mim, em alguma tarde ensolarada da juventude, que somos mais parecidos com os nossos pais do que poderíamos imaginar. Apesar de amar cada pedaço daquela composição, eu sempre duvidava que eu, tão forte de questionamentos, cantaria aquela canção-poema concordando com ela. Pois bem, Belchior, você estava certo, cara! E, obviamente, minha mãe também estava.

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Talvez o fato de escrever, e agora o ter como ofício, seja um fator decisivo nessa virada de ser e ver o mundo. Ou talvez seja só a idade, apesar de desconfiar agudamente dessa hipótese, mesmo a achando mais poética. O que sei de meus amigos da mesma idade é que boates já não fazem muito sentido e que um barzinho, com cantinho e violão, seja mais prazeroso. O que me faz questionar se o meu caso não fosse de uma “idade avançada precoce”, já que botecos sempre foram meu espaço de socialização preferido – desde o momento que passaram a ser espaços permitidos a mim, que fique claro.

Enquanto o sonho da casa no campo não vem, vou me contentar com a mudança para um bairro “idoso”, com muitos velhinhos e quintais com plantas, em que o silêncio seja cultuado como divindade. Bom, hoje, já me percebi coando café enquanto escutava um podcast pela manhã, coisa que me levou à memória de minha bisavó preparando nosso desjejum quando íamos passar as férias com ela – no tempo em que a cidade de Campinas era interior. E, se você amiga leitora, souber de vilinhas idílicas e silenciosas em São Paulo, manda pra cá. Não vejo a hora de ser a velhinha que meu cérebro já anuncia. Já estou até reaprendendo a tricotar.

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