As histórias de quatro moradoras que sobreviveram à queda de prédio em SP

Narrativas de amor e fé no futuro não foram soterradas no centro da capital paulista junto com o Edifício Wilton Paes de Almeida

O curto-circuito que provocou o fim do Edifício Wilton Paes de Almeida, na região central de São Paulo, escancarou uma dura e crua realidade: a ocupação como última alternativa para a carência de moradia, em um país que registra um déficit de 7 milhões de casas. Até o fechamento da edição de Junho de CLAUDIA, 50 das 170 famílias que habitavam precariamente o prédio modernista, de vidro, que ruiu na madrugada do dia 1º de maio, continuavam acampadas a poucos metros dos escombros.

Elas perderam animais de estimação, documentos, roupas, instrumentos de trabalho, memórias afetivas. Não seguiram para abrigos oferecidos pela administração pública com medo de – longe dos olhos da multidão – sair da mídia e acabar no esquecimento. Permaneciam ali à espera de uma solução definitiva para o desamparo. Muitas consideram insuficiente para custear um novo lar o aluguel social, que consiste em uma parcela inicial de 1,2 mil reais e outras de 400 reais a cada mês.

Mais de 20 dias depois do episódio, com frio, sem dispor de banheiros, comendo alimentos doados e abrigando as crianças em barracas montadas no Largo do Paissandu, as famílias não revelavam desesperança. Pelo contrário, demonstravam muita solidariedade entre elas e continuavam acreditando no acesso a oportunidades para viver dias melhores na cidade mais rica do país.

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O sonho que não desabou

 (Luciana Cavalcanti/CLAUDIA)

Gabriel, 8 anos, Paulo Ricardo, 7, João Vitor, 4, e Fernando, 2, brincam no interior da casa de náilon, onde também dormem amontoados, pertinho da mãe, Francisca Santos Silva, 40 anos, do pai e do irmão mais velho, Riquelme, 15 anos. Gabriel e Paulo Ricardo distraem o caçulinha, que, com o nariz escorrendo, dá sinais de ser o mais travesso.

Com os cabelos em coque e gestos rápidos, Francisca relata que, na madrugada do incêndio, ela e o marido carregaram às pressas os quatro pequenos no colo. Enquanto a família, do terceiro andar, descia pelas escadarias em meio à fumaça e aos gritos, Riquelme fazia o percurso contrário para apanhar o material escolar. Com os olhos marejados, Francisca diz que por pouco não perdeu o primogênito.

O vizinho foi a salvação. Ao ver o adolescente com os livros, arrastou-o prédio abaixo. “Ele gosta de estudar”, explica a mãe. Com orgulho indisfarçável de seus meninos, Francisca exibe as carteirinhas escolares, contando que Gabriel e Paulo Ricardo conseguiram bolsa no colégio particular Liceu Coração de Jesus, onde, apesar das circunstâncias, continuam estudando. “As professoras vieram até aqui ver se meus filhos estavam bem”, recorda.

Os uniformes, porém, foram consumidos pelas chamas no varal. Nada sobrou do lar em que a família viveu os últimos três anos. A carroça do marido, que trabalhava como coletor de lixo reciclável, foi soterrada. A tragédia, porém, não enterrou o desejo de Francisca. “A vida segue. Vamos ficar aqui até achar uma nova casa. Acredito nisso.”

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O brasil como lar

 (Luciana Cavalcanti/CLAUDIA)

O forte sotaque de Pauline Lemba, 37 anos, não deixa dúvidas sobre sua origem. A angolana, que fugiu de seu país para escapar da perseguição política, encara a repórter com certa desconfiança. Aos poucos vai se soltando. Seus primeiros oito meses no Brasil foram vividos na Casa de Passagem da Terra Nova, abrigo público na capital paulista destinado aos refugiados em situação de vulnerabilidade.

Há um ano morava no edifício incendiado, onde os patrícios da etnia bantu fizeram do oitavo andar sua comunidade além-mar. Pauline explica que um socorria o outro. Não faltava quem a ajudasse, inclusive, a cuidar da filha de 8 anos, Aruana. Confessa que as condições das moradias não eram lá essas coisas, com problemas na eletricidade e desconforto no banheiro – fora da unidade que ocupava.

Isso sem contar os inúmeros degraus até alcançar seu apartamento. Mas Pauline admite que, mesmo com a precariedade, o lar brasileiro era melhor e bem mais seguro que o angolano. “Esse país é muito bom”, diz ela, com um largo sorriso.

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A querida do prédio

 (Luciana Cavalcanti/CLAUDIA)

Na escadaria da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, vestida com uma legging preta, Lohany Mckelly, 37 anos, travesti, cuida para que os pacotes de fraldas doados não sejam furtados. Ela trabalha na noite, na Zona Norte de São Paulo.

Com ar nostálgico, repassa, na tela do celular, os seus diversos looks, mostrando como se transformava numa bela mulher com a ajuda de paramentos que foram incinerados no prédio de vidro. Ela lamenta ter perdido as cinco perucas que usava para se embelezar antes de sair para encontrar clientes. Lohany e o companheiro dormiam pesado na madrugada do incêndio e foram salvos graças às lambidas e latidos do cachorro dos dois, que ao sentir a fumaça os arrancou da cama.

A entrevista é interrompida por crianças que a abraçam calorosamente e lhe entregam um pirulito em forma de coração. “Sou amada por todos. Formamos uma comunidade”, afirma. Lohany morou por cinco anos no Edifício Wilton Paes de Almeida, sua primeira experiência em uma ocupação. Hoje considera os vizinhos como sua família e diz que seu destino é seguir com eles.

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Quando a tragédia se repete

 (Luciana Cavalcanti/CLAUDIA)

Sentada em uma das inúmeras pilhas de roupas doadas, espalhadas pelo acampamento improvisado, Maria Carmelita Santos Jesus, 53 anos, agente de administração, tem o olhar perdido e feição de desconsolo. Atônita, ainda tenta assimilar a perda dos objetos que conquistou em anos.

Sente falta da geladeira, do fogão, som, armário e especialmente da beliche, que acomodava também o filho Francisco, 27 anos, nas vezes em que ia visitá-la. Do incêndio, nem seus dois gatos escaparam. É a segunda vez que as labaredas desmontam a vida de Carmelita. Ela morava na Favela do Moinho, também naquela região, quando, em 2011, o fogo descontrolado queimou 80 barracos, deixando 380 famílias desabrigadas.

Francisco, que então vivia com ela, ficou traumatizado, e a solução foi enviá-lo para a casa de uma tia. Carmelita diz não ter condições de morar na periferia, pagar condução para ir ao trabalho ou arcar com o aluguel, que está muito caro no centro da capital. É guerreira. Crê que quem se levantou uma vez vai se reerguer de novo.

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