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As protagonistas da vida e as reflexões sobre o combate à violência racial

Conheça um pouco mais sobre a vida de 4 mulheres pretas que inspiram e refletem sobre a luta contra à desigualdade racial no âmbito profissional e pessoal

Por Sarah Brito
25 jul 2023, 17h11

Nesta terça-feira (25), comemora-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data criada com o objetivo de refletirmos sobre a luta de diversas mulheres contra o racismo, a violência doméstica e o machismo.

No Brasil, a data se tornou uma homenagem à vida e história de Tereza de Benguela, mais conhecida como a Rainha Tereza, que liderou um quilombo no Mato Grosso, em meados do século XVIII.

Há mais de 30 anos, a data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) após o primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana. Este encontro proporcionou ao mundo uma maior reflexão sobre a resistência e a luta destas mulheres negras ao longo da história pelo protagonismo de suas vidas.

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Mesmo após tantos anos, a data ainda é lembrada por ser um símbolo de inspiração e conhecimento sobre as medidas de acesso à educação, saúde,  empregabilidade e segurança.

Pensando nisso, ouvimos diversas histórias de grandes mulheres e potências negras que fazem dessas reflexões o combustível e inspiração para proporcionar espaços cada vez mais seguros e coerentes com o seus protagonismos. Conheça a seguir um pouco mais sobre a história de cada uma:

As protagonistas de suas vidas

Vivian Moreira

COO da Zeka Edu posando para ensaio fotgráfico
Vivian Moreira hoje ocupa o cargo de COO na Zeka Edu, plataforma de ensino à distância, e também faz parte do conselho consultivo da QIPS, consultoria especializada em melhorias clínicas (Paulo Barros/Reprodução)

Vivian é COO da Zeka Edu plataforma de ensino à distância e membro do conselho consultivo da QIPS, consultoria focada no desenho, implementação e monitoramento de soluções personalizadas em gestão clínica. Ela é natural de São Paulo, mais precisamente da zona leste, onde foi criada. Ela conta que é atuante da causa racial desde 1997, quando a palavra representatividade não possuia o mesmo significado de hoje. Sua participação em um cursinho popular de pré-vestibular foi o pontapé para que ela entendesse que os rótulos dados durante sua infância e juventude, não eram os mesmo definidos para o seu futuro. “Eu tinha entre 17 e 18 anos e as minhas representatividades eram todas dentro de casa, eram pessoas negras que entenderam que a educação é o verdadeiro trampolim para chegarmos em alguns espaços.” conta.

Ela também explica que a sua persona só foi possível após o conhecimento de falar no coletivo, e também pela busca por proporcionar educação de qualidade para aqueles que ficaram “da ponte para lá”: “Como COO da Zeka Edu, uma das grandes pautas para poder assumir este cargo foi poder proporcionar educação de qualidade e comprovação do segundo grau do ensino médio para pessoas adultas em favelas e em comunidades, pessoas estas que se parecem comigo, que não conseguiram ser resgatadas no passado.”

Ela deixa bem claro que romantizar sua história é esquecer da menina de 13 anos que já trabalhava para complementar a renda familiar. “Eu não permito e não gosto que romantizem a minha história. Porque romantizar a vida da menina preta que aos 13 anos entregava panfletos no farol, e que hoje senta na cadeira de conselho, não é falar sobre uma meritocracia, mas na verdade sobre a reflexão de como a gente falhou como sociedade”, explica.

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Vivian frisa que nesta data devemos, acima de tudo  refletir sobre as nossas vitórias coletivas: “Talvez seja um pouco perigoso não entendermos que sim, a gente continua lutando contra o racismo, porém ele continua evoluindo, por vários outros métodos, por vários outros meios, pela tecnologia. Porém, hoje temos diversas vitórias coletivas, essa matéria, por exemplo, é uma vitória coletiva com histórias individualizadas. E eu acho que é isso que a gente tem que lutar daqui pra frente.” 

Jandaraci Araújo

Jandaraci Araújo posando para o ensaio de Conselheira 101
Jandaraci Araújo é co-founder da Conselheira 101, programa de incentivo á presença de mulheres negras em conselhos de administração (Conselheira 101/Reprodução)

Sendo a sétima filha de uma grande família nordestina, Jandaraci é Co-founder da Conselheira 101, programa de incentivo à mulheres negras sobre governanças corporativas. Ela abre nosso bate papo contando que sua vida tinha tudo para fazer parte das estatísticas de violência doméstica, quando fugiu para o sudeste com suas duas filhas. 

Sua história, assim como muitas outras mulheres, passa por uma intersecção, a da solidão da mulher negra. “Eu sempre acreditei que não dá para ser sozinha nos espaços, isso é uma premissa, porque eu sempre estive sozinha. A solidão da mulher negra não passa só pelas questões afetivas, mas também por essa solitude na sua trajetória. Estamos falando de várias mulheres que foram as primeiras e as únicas nos espaços em que ocuparam”, conta.

Porém, ela nunca esteve sozinha. Jandaraci conta que sempre teve a comunidade ao seu lado, assim como o princípio yoruba, em que ela mesma cita: eyin koni kant. Segundo ele, o indivíduo não é apenas um, mas sim, a comunidade: “O princípio de que esse lugar que devemos ocupar jamais poderá ser feito sozinho. Dessa forma,  isso faz com que a gente se movimente em vários aspectos para que nos mantenhamos sempre juntos em diversas frentes, acelerando carreiras e quebrando diversos incômodos.”

Um desses incômodos gerou o Conselheira 101, que, após muitos anos de estudo,  visa quebrar as barreiras da invisibilidade racial em carreiras de altíssima formação de pessoas negras ignoradas no mercado.

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Ela ainda reflete que o dia 25 é uma forma de honrar todas aquelas que vieram antes de nós: “Eu gosto de honrar as que vieram antes de mim. Antes das redes sociais e até mesmo de jornais. São todas mulheres negras da história. Temos as contemporâneas, mas também temos as que foram totalmente apagadas da história, como a própria Tereza de Benguela, Maria Felipa e Dandara. Esse dia serve para nos enaltecermos e lembrarmos da força que temos, pois se muitas puderam avançar, foi porque estávamos lá desde que esse Brasil existe, movimentando esta economia e cuidando de seus filhos. Precisamos entender que a gente pode mudar essa história e eu acho que esse é o maior legado que podemos deixar.” 

Isabel Fillardis

Isabel Fillardis, atriz e cantora confirmada na mediação do Fórum Pacto das Pretas
A atriz e cantora Isabel Fillardis será a apresentadora e mediadora do Pacto das Pretas, fórum que reúne diversas profissionais referências em áreas do mundo corporativo, financeiro, tecnológico entre outros para fomentar inciativas e avanços de lideranças negras no mercado de trabalho (OliverPress/Divulgação)

Atriz e cantora em diversas produções, atualmente interpretando Aparecida Madureira na novela Amor Perfeito, também é porta-voz, apresentadora e mediadora da Pacto das Pretas, fórum que reúne nesta terça-feira mulheres de diversas áreas de atuação, com o objetivo de fomentar ações de impacto para a inclusão em cargos de liderança.

Isabel reflete que a maior dificuldade da luta racial está nas sutilezas da discriminação, e sobre como o letramento e o conhecimento sobre sua ancestralidade, através da arte, a ajudou a entender quem de fato era: “Eu sou filha de pai militar e mãe do lar, e o racismo não era uma pauta debatida em casa. Apesar de tudo, ele sempre esteve presente nesse viés comportamental, como, por exemplo, do ensinamento da minha mãe em entrar de cabeça erguida nos lugares. Foi através da arte e fazendo pesquisas com as personagens que fui interpretando que entendi a importância do letramento. Com ele, mais a gente toma posse da história e entende  o quão profunda é a nossa existência”, conta.

Ao longo de seus 50 anos, Isabel conta que seus planos são de conquistar os espaços que ainda não foram alcançados e poder inspirar outras tantas outras meninas que querem chegar lá: “Eu quero fazer tantas coisas que ainda não fiz e que tenho muita gana de fazer,  principalmente de conseguir afetar outras meninas, porém agora um pouco mais consciente de onde estou,  da onde vim e para quero ir. É sobre dar as mãos, poder olhar para as outras irmãs em áreas diferentes e poder dizer que elas podem contar com uma representante da arte dentro da Pacto das Pretas. Me sinto muito honrada e privilegiada por estar no meio de tantas mulheres significativas e potentes, com histórias incríveis para me inspirar.” 

Fernanda Ribeiro

Fernanda Ribeiro posando em ensaio fotográfico para a OliverPress
Fernanda Ribeiro é Co-fundadora da Conta Black, conhecida por ser uma das primeiras fintechs direcionadas a fomentar e trazer dignidade fincanceira a comunidade negra no Brasil, com mais de 40 mil contas por todo país (Ingrid Guimarães/Reprodução)

A Co-founder da fintech  Conta Black, Fernanda Ribeiro conta que cresceu em uma família rodeada por muito carinho e por muitas mulheres, e que desde de muito nova sabia que possuía o dom da mentoria: “Eu fui criada dentro de um lar de muito cuidado, pois minha família queria me proteger de  todas as formas. O que é legal de falar é que para além dessa presença muito feminina em minha vida, eu tenho a presença muito próxima do meu pai. Então eu tive o privilégio de viver esta referência, que é o contrário do que a maioria espera dos lares pretos.”  

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Ela diz que nunca teve dúvida sobre qual carreira gostaria de seguir, mas que suas lembranças afetivas contribuíram para o seu sucesso na área executiva de companhias aéreas. “Eu sou turismóloga por formação, porém  trabalhei por muitos anos na área, como executiva nas principais companhias”, explica Fernanda.

A especialista financeira conta que, à medida em que subia de cargo, cada vez menos encontrava pessoas parecidas com ela. “Eu sempre tive  como  obrigação e missão abrir portas e segurar para que outras pessoas pretas pudessem entrar, porém, por ser um cenário extremamente hostil, era muito difícil encontrar pessoas pretas que estavam dispostas  a atuar nessa área.”

Mesmo estudando muito, a executiva se deparou com um dos momentos mais difíceis de sua vida, aquele que a faria repensar sobre as expectativas racistas de um mercado cruel: “Fui diagnosticada com Burnout após trabalhar por volta de 14 a 18 horas por dia. Muito disso está associado àquela premissa de que eu tive uma oportunidade única, então deveria entregar o triplo do esperado. Acredito que todas nós ouvimos isso desde sempre.”

Então, após pedir demissão e passar por um periódo sabático, ela e outros dois sócios se juntam para fundar a Afro Business, uma rede de empreendedores, microempreendedores e profissionais liberais negros que tem como objetivo gerar oportunidades de trabalho e renda para pessoas, além de promover conexões entre elas. Algumas, declara, foram essenciais para a descoberta de  outras diversas deficiências financeiras entre as pessoas negras. “A partir dessas conexões, a gente começa a descobrir diversos gaps (descontinuidades nos gráficos) financeiros. Empreendedores e pessoas pretas que não conseguiam ter conta bancária, logo também não conseguiam nenhum tipo de empréstimo para fazer seu negócio crescer.  E daí surge uma  ideia de negócio, que é a Conta Black,  formada por um conjunto de produtos e serviços financeiros  alocados em uma única conta digital. Algumas pessoas carinhosamente o chamam de o primeiro banco preto,  liderados  por pretos”, conclui Fernanda.

Atualmente, a Conta Black está presente em todos os estados brasileiros, com mais de 40 mil clientes por todo Brasil, entre eles empreendedores e empreendedoras formais e informais.

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A história da luta e da resistência dessas e de tantas outras potências femininas, devem se manter presentes em nossas reflexões todos os dias, para assim seguirmos combatermos a violência e a intolerância contra essas mulheres.

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