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Grupo católico é investigado por abuso psicológico

Fundado em 1999 por João Clá, o Arautos do Evangelho é um grupo conservador católico localizado no meio da Serra da Cantareira

Por Da Redação - Atualizado em 17 fev 2020, 12h28 - Publicado em 21 out 2019, 15h49

Um grupo religioso tem sido investigado por abusos psicológicos, assédio, humilhação e estupros. De fundação realizada em 1999 por João Clá, os Arautos do Evangelho são uma associação católica conservadora sediada no meio da Serra da Cantareira, onde mantém castelos e colégios que funcionam em sistema de internato.

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Reconhecidos pelo Vaticano em 2001 e com 15 escolas espalhadas pelo Brasil, os Arautos – que contam com aproximadamente 700 alunos – seguem “a missão de levar a animação cristã das realidades temporais”, segundo o seu próprio carisma.

Mas agora o Ministério Público (MP) de São Paulo apura uma série de denúncias feitas por 40 pessoas sobre agressões praticadas pelos membros do grupo, como mostrou o Fantástico no último domingo (20).

Reprodução/Rede Globo

Ouvidas pela reportagem, as mães de alunos alegaram ter começado a desconfiar quando perceberam que os comportamentos dos filhos estava diferente. “Minha filha virou um robô. Minha filha não existe. Ela não tem amor pela gente, não tem carinho, não tem nada. Ela é um robô”, declarou uma mulher que preferiu não se identificar.

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A acusação de que o grupo promove o afastamento familiar é endossada por Alex Ribeiro de Lima, ex-aluno que passou 18 anos no grupo. “A família tem que sumir do mapa. Porque, segundo eles, a família atrapalha o caminhar do jovem lá dentro”, disse. Uma outra jovem afirmou que era ensinada a não amar os pais, pois eles eram os responsáveis por tudo de ruim que ela havia aprendido.

Das 23 pessoas que o telejornal entrevistou, doze estão citadas no inquérito aberto no MP, sendo que todas contaram situações semelhantes.

“Meu filho tinha medo de vim pra casa, ele achava realmente que o mundo ia acabar. E que a única salvação dele era dentro dos Arautos do Evangelho”, contou Patrícia Sampaio.

Rituais

Os arautos creem e esperam pela Bagarre, uma grande destruição apocalíptica, no qual o mundo seria destruído e então recriado em uma nova era onde apenas os membros da instituição se salvariam.

Deus iria punir a terra por todos os pecados que foram cometidos aqui. Então, a natureza se revoltaria contra o homem, os demônios apareceriam e aconteceria um confronto entre os supostos filhos de luz e os filhos de trevas. Os filhos de luz são os Arautos e os filhos de trevas somos todos nós, todo o resto. Inclusive, lá dentro, eles têm treinamento pra preparar essas pessoas pro momento da bagarre”, contou uma jovem que foi interna durante 5 anos. A preparação incluía até mesmo cursos de diferentes modalidades de tiro.

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Os interno também passam pelo ritual dos capítulos em que os integrantes deitam no chão e, durante horas, ouvem acusações de um superior. “Existe uma tática nesses capítulos que eles fazem. Controlar a pessoa que está ali deitada para que se sinta um grande pecador, uma pessoa que não vale nada. E eles começam a fazer essa lavagem cerebral na mente das pessoas”, revelou Alex. 

Carta Capital/Reprodução

Existem ainda relatos de abuso sexual e estupro. Em um boletim de ocorrência feito em maio deste ano, uma jovem relata que, aos 13 anos, foi acordada por uma encarregada do alojamento para tomar banho. Foi quando percebeu que sua região íntima estava sangrando, irritada e inchada. Ela acredita ter sido dopada.

Maria Paula veio da Colômbia para o Brasil quando tinha 11 anos. Passou dois no castelo e também relata ter sido vítima de João Clá. “Ele me chamou depois da missa, entramos na sacristia e aí, quando tava sacristia, vi que ele deu um beijo em uma menina. Eu fiquei pensativa: será que esse beijo é na boca ou na bochecha? Então quando ele me deu um beijo na boca, eu fiquei pensando: ‘Deus o que é isso?’ Uma menina que vivia na Colômbia comigo também me contou que ele deu um beijo na boca. Então eu perguntei e ela disse ‘Que bom, então recebeu a graça'”.

Alguns denunciantes também apontaram casos de racismo. “A maioria são loiros de olhos claros. Quando tem alguém mais moreninho que você vê, ele sempre tem uma função específica. Normalmente é ficar na cozinha. Cozinha para as pessoas, limpa, lava e, inclusive, eles almoçam separados” disse um relato.

Ao Fantástico, representantes dos Arautos negaram as denúncias. “Essa afirmação de beijo na boca é calúnia. […] Afirmar que um boletim de ocorrência possa ser indício de prova. Boletim de ocorrência é um primeiro passo. É um ato unilateral, de alguém que vai na delegacia e faz uma denúncia. A delegada já ouviu […] Essa investigação vai seguir o seu curso e quando for concluída a investigação, aí sim cada um vai saber o que fazer. Tem até direito de recorrer à Justiça como denunciação caluniosa”, afirmou o padre Alex Barbosa de Brito.

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“Até poderia mostrar fartamente como convivemos entre raças. Nós temos indianas, temos da República Dominicana – que são muitas bem coloridas –, temos aqui daqui do Brasil – da Bahia, do Nordeste. Todas muito moreninhas e todas convivem com as loiras do sul numa perfeita harmonia”, completou a madre Mariana Morazzini Araiz.

Investigação

Em um vídeo, João Clá grita palavras em latim e bate no rosto de uma jovem com uma folha de papel. Ele tenta obrigá-la a fazer votos. Em outro, um grupo de sacerdotes se reúne para ler o suposto interrogatório de um demônio em uma sessão de exorcismo. A entidade teria previsto a morte do Papa Francisco e dito que tem poder sobre ele. 

Divulgada nas redes sociais, a filmagem levou o Vaticano a abrir uma investigação em 2017 e nomear no fim de setembro o cardeal Dom Raymundo Damasceno para atuar como uma espécie de interventor dos Arautos.

“Então tive acesso aos vídeos. Os vídeos falam por si. João Clá bate nas meninas, né? A reunião que o João Clá e os padres dele têm com o Satanás é uma coisa louca. Então, não há dúvida que não é um bom lugar para um filho estar, né? Eu fui buscar meu filho”, disse a mãe de um ex-aluno.

Em 2018, as denúncias foram arquivadas pela então promotora do caso, porém a advogada que representa algumas das famílias denunciantes conseguiu que o MP reabrisse o caso.

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Reprodução/Rede Globo

Em junho deste ano, vistorias foram realizadas no castelo por peritos das áreas de assistência social e de psicologia do Ministério Público. Os laudos que analisaram as condições em que vivem as crianças e adolescentes mostraram que eles não são autorizados a ter celular e só podem ligar para a família por meio de telefones fixos. Para enviar mensagens via WhatsApp, todos usam um único aparelho, no qual as conversas ficam visíveis a qualquer pessoa.

Nos quartos, nada de fotos dos amigos ou parentes. Na maioria dos ambientes, apenas imagens de João Clá e outras pessoas enaltecidas pelos Arautos. Também não foram encontrados livros didáticos sobre a história do Brasil ou de literatura nacional. Somente enciclopédias antigas e livros escritos por Clá. Aos peritos, as religiosas que os receberam informaram que havia uma biblioteca para os livros usados na escola, mas que elas não estavam com a chave.

Para o MP, além do Estatuto da Criança e do Adolescente, os Arautos também desrespeitam a liberdade de ir e vir e violam direitos previstos na Constituição, impedindo que os alunos se defendam da violência praticada por seus superiores.

À reportagem, o grupo religioso alegou utilizar um sistema de ensino que segue as determinações do Ministério da Educação. Também afirmaram serem vítimas de perseguição. “Nós estamos diante de uma situação, de uma campanha de difamação feita por desafetos da instituição, desafetos da igreja em geral. Uma campanha de perseguição religiosa onde a igreja católica está em foco e a instituição em particular”, disse o padre.

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