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Busca por “cabelo feio” no Google expõe mulheres cacheadas e crespas

Após ter sua imagem associada ao termo, influenciadora Sah Oliveira pede mais transparência à plataforma

Por Ana Carolina Pinheiro Atualizado em 29 jan 2021, 18h21 - Publicado em 29 jan 2021, 15h25

Pegar o celular e abrir seu perfil nas redes sociais reservou notificações duras para a influenciadora Sah Oliveira no último final de semana. “Não consegui abrir todas, mas foram várias mensagens avisando que uma foto minha aparecia na busca do Google ao pesquisar ‘cabelo feio’”, lembra Sah, que já tinha recebido um alerta parecido em 2020 sobre o termo “tranças feias” com a sua imagem como resultado.

Assim como ela, as fotos de outras mulheres, em sua maioria negras, com cabelos crespos e cacheados aparecem como resposta para a busca do termo “cabelo feio”. Ao clicar na imagem de Sah, o internauta é levado para uma matéria que a própria influenciadora escreveu sobre estereótipos em torno do cabelo crespo.

A combinação de palavras-chave da matéria associada à própria imagem gerou questionamentos em Sah no primeiro momento. “Conversando com amigos, comecei a pesquisar e entender como essa relação acontece. Encontrei uma pesquisa em que relatava uma frequente ligação da palavra lésbica com imagens de sites pornográficos”.

cabelo-google
Google/Reprodução

O caso encontrado pela influenciadora  aconteceu na França e gerou mudanças nos algoritmos da plataforma de pesquisa. O movimento do Google para romper com essa hipersexualização de mulheres lésbicas é o que Sah espera em relação às pesquisas em que é exposta.

“Por que o Google não deixa nítido como o processo funciona? Poderia ter alguém para contar isso para as pessoas, criando uma ponte. Minha intenção não é brigar, mas sim que haja progresso”, considera a influenciadora.

Para a CLAUDIA, um porta-voz do Google afirmou que os resultados das buscas não exprimem uma resposta direta ao termo, mas sim conteúdos relacionados. Uma solução que encontraram para deixar explícito o tema que cada foto está ligada é a legenda na imagem. Leia a nota na íntegra:

“Os sistemas de pesquisa do Google Imagens levam em consideração vários fatores, incluindo a correspondência de palavras. Sabemos que, eventualmente, os resultados de uma busca podem repercutir preconceitos existentes na sociedade, já que se baseiam em textos disponíveis na internet. Por isso, exibimos legendas para ajudar as pessoas a entender por que essas imagens aparecem em uma consulta.

Reconhecemos que a associação pode ser preocupante e dolorosa para quem vê, sem que se tenha o contexto mais amplo, e estamos trabalhando ativamente para melhorar esses tipos de resultados e garantir que todas as pessoas e comunidades possam encontrar resultados úteis no Google Imagens.”

A influenciadora aponta que o termo em si já é ofensivo. “Cabelo feio não deveria nem existir como opção de busca”.

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Internet e ativismo

A trajetória como influenciadora de beleza e lifestyle surgiu na juventude, aos 13 anos. “Mesmo sem acreditar muito em mim e crescer com condições financeiras bem precárias, sabia que trabalhariam com motivação”.

Assim, anos mais tarde, ela viu a internet como uma extensão do seu quarto, onde poderia compartilhar cuidados com o seu cabelo crespo e sua rotina como um todo. A identificação do outro lado foi certeira, criando uma rede de apoio virtual com outras mulheres, majoritariamente negras.

“Minha forma não é levantar bandeira direta, mas sim de forma mais leve”, define seu caminho nas redes. Sah percebeu que o ativismo em muitos momentos a distanciava de seguidores, principalmente pelo estereótipo da mulher negra raivosa.

“O que me traz consistência é comportamento. Em vez de falar, passei a mudar meus hábitos, como buscar médicos negros e dar preferência sempre a profissionais negro. A partir disso, o público começou a levantar o assunto do black money, por exemplo”, lembra.

Algoritmo racista nas redes sociais

O algoritmo racista também se faz presente com esse distanciamento de seguidores. No final de 2020, a influencer Sá Ollebar, que também é negra, passou a publicar fotos de pessoas brancas em sua conta. O engajamento de seu perfil, assustadoramente, aumentou. “Não sei se isso que fiz foi tacar fogo na minha própria pele ou se vai realmente mudar algo(nem consigo pensar nesse momento)”, disse Sá em um vídeo que viralizou na rede.

No Twitter, um teste similar foi feito pelo programador e engenheiro de criptografia e infraestrutura Tony Arcieri com fotos dos políticos estadunidenses Mitch McConnell, que é branco, e de Barack Obama. Independente da posição das imagens na publicação, a foto de Mitch sempre ficou em destaque.

Em resposta, o Twitter assumiu o erro dentro da plataforma. “É 100% nossa culpa. Ninguém deve dizer o contrário. Agora, a próxima etapa é consertar isso”, pontuou Dantley Davis, diretor de design da rede social, em setembro de 2020.

  • Todas as mulheres podem (e devem) assumir postura antirracista

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