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Livro organiza produção erótica de Mário de Andrade

A pesquisadora literária Eliane Robert Moraes nos abre para um universo de desejos e sacanagens por meio da literatura erótica

Por Paula Jacob Atualizado em 7 jul 2022, 13h05 - Publicado em 8 jul 2022, 08h36

Línguas, orifícios, corpos, frestas, texturas. Cenários sensoriais se misturam numa poética ora delicada ora obscena no livro Mário de Andrade: Seleta Erótica (Ubu, R$ 99), organizado por Eliane Robert Moraes. Se antes as rimas de amor e as histórias brasileiras nos mais diversos contextos conquistaram os corações dos leitores, agora, elas atravessam (também) outros cantos do corpo. O recorte proposto pela professora de literatura brasileira da USP e pesquisadora do CNPq traz à tona passagens que, provavelmente, você tenha lido na inocência, mas que carregam infinitas possibilidades eróticas de interpretação.

Estudiosa do tema desde os anos 1980, Eliane passou primeiro pelos clássicos europeus, como Marquês de Sade e Georges Bataille, para então aportar no Brasil. “Não temos uma pornografia organizada, diferente dos franceses, alemães e indianos. Contudo, você junta três brasileiros e estão falando porcaria”, brinca. Daí surgiu a ideia de estudar, dentro da literatura brasileira, o recorte erótico, tendo como resultado o livro Antologia da Poesia Erótica Brasileira (2015, esgotado na sua versão original, mas que está sendo atualizado por ela).

Livro
Ubu/Divulgação

Mário de Andrade já tinha cruzado seu caminho ali, com a sua “erótica popular, nordestina, picante”. Anos depois, ele retorna para esta publicação que é “como um filho da pandemia” para Eliane. “Foi uma intuição certeira, principalmente a partir da leitura de Turista Aprendiz e da descoberta do trecho censurado de Macunaíma [retirado da versão original por moralismo da época]. Mas são inúmeros poemas, crônicas e cartas em que o erotismo frequenta as suas palavras”, conta.

A seleção, feita com ajuda da catalogação de duas ex-orientandas, dividiu-se em agrupamentos temáticos de excertos e textos completos que mostram a profundidade com a qual o autor enxergava a sexualidade e toda a sua complexidade. “Ele escreve sempre com uma opacidade, não usa palavrão, só metáforas. É alusivo e sugestivo. Mesmo quando é mais explícito nas bocagens, ele não fala a coisa propriamente. Usa uma outra palavra, joga com o mostra-não-mostra. No poema ‘Girassol da Madrugada’, por exemplo, ele alude a um amor homossexual falando de eclipse e cataclisma. Vasculha em outros lugares a ‘flor da madrugada’ escondida no nosso corpo, na parte mais noturna que temos”, explica Eliane sobre o “tecido textual turvo” que se repete em sua obra.

Nesse tecido, também é possível perceber o caminho que ele percorreu com a língua (a sua e a portuguesa) em cadências diferentes, mas sempre corporais. Destaca-se, aqui, para além da qualidade literária inegável de seus escritos, a sonoridade dos mesmos, responsável por criar uma nova camada erótica no sentido que nos desperta arrepios. Como a professora bem cita, Marquês de Sade já falava do ouvido como o sentido mais sexual dos órgãos, porque “é ele que recebe as sensações mais intensas”. “Toda a obra de Mário passa pela música, não só por escrever sobre, mas no paradigma musical de seus escritos, onde a erótica adentra. Logo, a voz é um tema central para pensarmos o erotismo porque é ela que dá o tom aos significantes. O poder da palavra falada é um espetáculo, e não é todo autor que tem isso.”

Notas sobre moralismo

Apesar dessa poesia cantada e da perspectiva da opacidade, bastante lacaniana, presente no seu jeito de escrever, Eliane ressalta que a literatura erótica tem autores extremamente obscenos. “O senso comum traz o pornográfico como algo explícito e o erotismo como algo velado. Passei a problematizar isso quando li autores incríveis que jogam um monte de xiriba nas páginas.” Tome como exemplo Hilda Hilst e o seu Caderno Rosa de Lori Lamby (1990, Companhia das Letras). Após anos escrevendo as poesias mais intrigantes e belas sobre o amor, ela publica uma história de “adoráveis bandalheiras”. “[Sigmund] Freud tinha muito cuidado ao usar a palavra erotismo porque ela, de alguma forma, vela as coisas, fazendo concessões sobre a própria coisa. É preciso ver se não há um moralismo aí, entende? Você só consegue penetrar nessa literatura se você se despe de questões morais”, aponta a especialista. Segundo ela, é mais sobre o valor literário que o tamanho da obscenidade escrita. “É isso que delimita a diferença. Diria que o que existe é um erotismo e uma pornografia comerciais. Veja, 50 Tons de Cinza é muito mais leve que 120 Dias de Sodoma.”

E desse cruzamento entre sexualidade e moral, podemos entender a censura da passagem “As 3 F… na rede” de Macunaíma, obra mais célebre de Mário de Andrade, como um representante da dicotomia da própria sociedade brasileira: aquela que julga e venera o corpo alheio na mesma intensidade, mas questiona e repulsa a clareza da sexualidade. “O sexo fica destinado às revistas masculinas, à leitura adulta, principalmente naquela época; fica rebaxaido. Enquanto isso, o livro é visto de num lugar idealizado. E aí ele escreve sobre o caráter do brasileiro, falando de gueto, putas, homossexuais, transexuais… Ele te transtorna porque é papel da arte e da literatura transtornar sistemas que acham que [esses assuntos] estão no lugar errado. A pornografia mainstream não tem o mesmo efeito porque ela está no ‘lugar certo’”, pontua Eliane.

Two Women Embracing, Egon Schiele (1911)
Two Women Embracing | Egon Schiele (1911)/Divulgação

Contudo, na visão dela, já atingimos melhores condições para explicitar desejos, principalmente quando se trata do desejo feminino. “A gente foi para as ruas, brigou, passou pela contracultura, pelo tropicalismo; falamos de sexualidade feminina, de aborto e liberdade. Há 30 anos, não era possível falar o que eu falo; há 50, então, seria absurdo. O que não quer dizer que a gente atingiu um ponto de liberdade. Mas a questão transsexual está na pauta da novela das 21h, na sala de aula… São conquistas importantes.”

Lembrando, porém, que a potência erótica é subjetiva, e onde moram as suas sensações (nos escritos de Mário ou de outrém), não necessariamente vão morar as dos outros. “Precisamos entender que a resolução erótica é individual. Devemos sair do olho do comercial, que surge na tentativa de delimitar o desejo das pessoas, para tentar resolver certas questões sem moralismo. Não se pode entregar por inteiro para essa erótica que vem pronta. O único cuidado é para que esse caminho não vire uma obsessão pelo próprio ego. É a busca pela individualidade erótica, não a individualista.” Deixe-se sentir. Tudo.

Na apresentação do livro, você escreve que “já no primeiro poema do autor temos um conteúdo sexual que se oculta em meio a um tecido textual turvo e pouco intelegível”. Esse lugar não seria propriamente o erótico, como disse Roland Barthes, “onde o tecido se entreabre numa brincadeira de aparecimento-desaparecimento”? 

Sim, com certeza. No caso do Mário de Andrade é isso, ele escreve sempre com uma opacidade, não usa palavrão, só metáforas. É alusivo e sugestivo. Mesmo quando é mais explícito nas bocagens, ele não fala a coisa propriamente. Usa uma outra palavra, joga com o mostra-não mostra. No poema “Girassol da Madrugada” [pág. 206], por exemplo, ele alude a um amor homossexual falando de eclipse e cataclisma. Vasculha em outros lugares a “flor da madrugada” escondida no nosso corpo, na parte mais noturna que temos. Mas, na literatura erótica, temos autores extremamente obscenos com as palavras disponíveis. Existe uma variação grande para aquilo que se considera erotismo. Eu sou da opinião que o erotismo não se diferencia da pornografia.

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E por que você acha que o erótico e o pornográfico não se diferem?

O senso comum traz o pornográfico como algo explícito e o erotismo como algo velado. Passei a problematizar isso quando li autores incríveis que jogam um monte de xiriba nas páginas. Hilda Hilst tem o seu emblemático Caderno Rosa de Lori Lamby, posso dizer que é erotismo e não pornografia, quando ela fala tudo com todas as letras? Tudo não literalmente, porque o sexo mexe com a nossa fantasia, nunca é possível mostrá-lo por inteiro e, mesmo assim, [essa tentativa] não é válida para todos. O que funciona para mim, não é o mesmo que para você. Isso muda culturalmente. O que acontece é que existe a boa pornografia e a má. [Sigmund] Freud tinha muito cuidado ao usar a palavra erotismo porque ela, de alguma forma, vela as coisas, fazendo concessões sobre a própria coisa. É preciso ver se não há um moralismo aí, entende? Você só consegue penetrar nessa literatura se você se despe de questões morais. Acredito que é mais sobre o valor literário, do que sobre a obscenidade. É isso que delimita a diferença. Diria que existe um erotismo e uma pornografia comerciais. À exemplo: 50 Tons de Cinza é muito mais leve que 120 Dias de Sodoma. Distinguir erotismo e pornografia é complicado por entrar no aspecto moral de querer limpar as palavras, as sujeiras, as porcarias. Depois, fica limpinho demais na cama…

As ditas passagens obscenas foram responsáveis pelo tolhimento do autor diante de sua obra mais célebre, Macunaíma. Num paralelo com o próprio comportamento brasileiro, em que se julga e venera o corpo alheio na mesma intensidade, mas questiona e repulsa a clareza da sexualidade, o que o “herói de nossa gente” escondeu é aquilo que justamente queríamos ler? 

O conteúdo sexual é [visto como] negativo porque traduzimos assim enquanto sociedade. Pensando no Mário, lemos, mas meio escondido. O sexo fica destinado às revistas masculinas, à leitura adulta, principalmente naquela época; fica num gueto rebaxaido. Enquanto isso, o livro é visto como cultura, num lugar idealizado. Você não vai colocar no livro o que você escreveria na porta de um banheiro público. E aí ele faz um livro sobre o caráter do brasileiro, falando de gueto, de putas, homossexuais, transexuais… Ele te transtorna porque é papel da arte e da literatura transtornar sistemas que acham que [esses assuntos] estão no lugar errado. A pornografia mainstream não tem o mesmo efeito porque ela está no “lugar certo”.

E você acha que essa “insuficiência moral do homem brasileiro”, que Mário tanto fala, mudou desde a escrita de Macunaíma?

A gente foi para as ruas, brigou, passou pela contracultura, pelo tropicalismo; falamos de sexualidade feminina, de aborto e liberdade. Há 30 anos, não era possível falar o que eu falo, há 50 anos, então, seria muito absurdo. Hoje, circulamos o papo sobre sexo e gênero, transgênero, não binários. O que não quer dizer que a gente atingiu um ponto de liberdade. A força do obscurantismo está em todas as áreas, e, com a pandemia de Covid-19, isso se agravou também na educação e na pesquisa. Mas penso que são conquistas que não regridem. A questão transsexual está na pauta da novela das 21h, na sala de aula. São conquistas importantes.

The embrace (Lovers II), Egon Schiele (1917)
The embrace (Lovers II) | Egon Schiele (1917)/Divulgação

Há na linguagem de Mário um encontro entre a sonoridade e a escrita. Do seu ponto de vista e de campo de pesquisa, o erótico também mora no som, não só em termos de melodia, mas na sonoridade das palavras?

No início de Lolita, Vladimir Nabokov descreve o nome Lo-li-ta através do movimento da língua para enunciá-lo. Como na fala, a língua sobe até o céu da boca e desce – olha o quão sexual é essa cena. [Marquês de] Sade aponta o ouvido como o sentido mais sexual dos órgãos. É ele que recebe as sensações mais intensas. E toda a obra de Mário de Andrade passa pela música, não só por escrever sobre ela, mas no paradigma musical de seus escritos, onde a erótica adentra. A voz é um tema central para pensarmos o erotismo porque é ela que dá o tom aos significantes. O poder da palavra falada alto é um espetáculo. E não é todo autor que tem isso.

Audre Lorde escreveu que o erotismo é também um lugar de poder: desse espaço de saber sobre os próprios desejos e também de romper com uma lógica capitalista-patriarcal. Você concorda com ela? Quais caminhos o erotismo tem para agregar nessa emancipação da sexualidade?

O erotismo-pornografia comercial surgem na tentativa de encaixar o desejo das pessoas, sem permitir a elas o voo mais livre do desejo singular. Quando consegue desvincular-se disso, passa-se a entender melhor o próprio corpo, as fantasias, os desejos e como tudo isso opera. Nesse sentido, o erotismo pode ser muito libertador. Porém, eu tomo cuidado de não transformá-lo num conto de fadas, porque ele pode carregar aspectos obscuros e misteriosos. Ele é a matéria fundante da nossa existência, independente se você pratica mais ou menos, em grupo, sozinho. E essa matéria tangencia o perigo. Não é nem um “liberou geral”, nem um manual. A literatura erótica é composta por autores que nos dizem o tamanho imensurável do desejo e até onde a fantasia pode chegar – e o quanto isso mexe diretamente com algo que nos constitui, em toda a sua complexidade e mistério.

Na escrita erótica, as palavras carregam significantes e metáforas que, a partir da interpretação subjetiva de cada leitor, podem surtir efeitos eróticos diferentes. O que em Mário de Andrade e outros autores que usam esses recursos fazem da escrita erótica um mar de significantes enigmáticos?

Esse tema é lindo, porque é aquele que nomeia algo que te escapa. É essa a opacidade do sexo, algo bem lacaniano: o sexo, por excelência, é opaco. Cabe à poesia saber colocar o significante enigmático em cena, dizer o que nos escapa e onde nos reconhecemos. É um vazio que se abre e nos convida a interpretá-lo, vivenciá-lo. Mário deixou isso acontecer em seus textos, como um bom poeta.

Tanto Freud quanto Georges Bataille falam, cada qual em sua área de atuação, sobre o exercer do erótico como uma forma de dissolução do Eu. Você acha que a sociedade tem dificuldade de lidar com o erótico porque estamos todos presos no ego?

O que nos afeta social e sexualmente é aquilo que vivenciamos na nossa época. Não tenho notícia de um tempo em que o erotismo era mais livre. Mesmo na França do século 18, com os libertinos, era um grupinho fechado, deviam ter lá seus problemas – como Sade retrata direitinho. Não sei se vivemos numa era de repressão, porque, muitos falam justamente do contrário: tudo pode ser erótico, o que é também um problema. Precisamos entender que a resolução erótica é individual. Devemos sair do olho do comercial para tentar resolver certas questões sem moralismo. Não se pode entregar por inteiro para a erótica que vem pronta. O único cuidado é que esse caminho não vire uma obsessão pelo próprio ego. É a busca pela individualidade erótica, não individualista.

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