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“O Acontecimento” carrega a beleza e a força do livro de Annie Ernaux

Filme de Audrey Diwan está em cartaz no Brasil pelo Festival Varilux e traz para o audiovisual um relato íntimo e honesto sobre o aborto

Por Paula Jacob Atualizado em 21 jun 2022, 14h12 - Publicado em 22 jun 2022, 08h10

“Tem um buraco no meu coração.” Foi essa mensagem que mandei ao meu companheiro após assistir O Acontecimento, de Audrey Diwan, na cabine de imprensa do Festival Varilux de Cinema Francês – este, acontece até o dia 07 de julho em cinemas nacionais. E tinha mesmo, um bem profundo e questionador. Bem similar ao que me acometeu quando terminei de ler o livro homônimo de Annie Ernaux (Fósforo, R$ 54,90), do qual a diretora francesa se baseou. A história é um relato pessoal da escritora sobre o seu episódio de aborto ainda na faculdade de letras. Jovem, ela tinha poucas experiências sexuais e acabou engravidando de um colega de outra universidade. Sem um cenário favorável para ter a criança, em termos psicológicos e acadêmicos-profissionais, diga-se, ela enfrenta as adversidades sociais e médicas para conseguir o direito à escolha. O impeditivo, porém, é a falta de legislação à época – hoje, já é possível optar por interromper a gravidez até doze semanas de gestação, segundo a legislação francesa.

Assim como no livro, o filme utiliza de recursos poéticos para criar lacunas de narrativa e deixar ao espectador a tarefa de juntar as peças. Não somos cúmplices da cena de sexo inicial, nem do rosto desse parceiro (até um terceiro momento), nem das conversas que eles tiveram – se tiveram. É um brincar com a objetividade e subjetividade de um jeito bonito e sensível. Tem coisas que realmente só uma mulher poderia dirigir, como é o caso. Da fotografia lavada, à la Sofia Coppola 2.0, com o jeitinho francês que carrega na sua essência a despretensiosidade da Nouvelle Vague, O Acontecimento é aquela beleza trágica e forte que é difícil de escapar (e superar). O que torna esse nome não só uma metáfora para o que aconteceu, o aborto, mas como tal é descrito no livro e filmado no longa como “uma coisa” que ninguém te conta como funciona. Mas elas contam, escritora e diretora.

O Acontecimento filme
Divulgação/Divulgação

Mais uma vez assim-como-no-livro, o filme nos carrega pelo coração na vida dessa jovem aspirante a escritora, com ótimas notas na universidade, possível conclusão da graduação com menção honrosa, mas que é rechaçada pelas colegas de turma, vista como uma mulher vagabunda e obscena. Julgada pela sua sexualidade e pelo seu desejo, como se uma mulher que pensa academicamente não pudesse transar. Mas ela faz ambas as coisas, e dança, e conversa, e bebe, e fuma, e toma sol na praia, e coleciona livros. Uma pessoa como qualquer outra. O problema, para essas ~amigas~, é ela deixar tudo isso à mostra, porque, no fim, ninguém deixa. A sexualidade é privada em todos os âmbitos, o que gera falta de informação e autoconhecimento. Só que isso já é outro assunto. 

O Acontecimento filme
Divulgação/Divulgação
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De volta ao filme-livro, Audrey Diwan coloca imagens tão factíveis nas palavras de Annie que toda a produção mental que se cria ao ler – aliás, leia antes de ver, se possível – se dissolve nessas passagens audiovisuais com gosto de mar. A atriz, Anamarina Vartolomei, completa a organização da diretora com uma atuação delicada tal qual o tema pede, e a idade da personagem também. Ela, que defende o direito de escolha, se vê presa numa sinuca de médicos dispostos a tudo menos ajudá-la. Ironicamente, não são as melhores amigas que a auxiliam nesse processo solitário e doloroso, mas um amigo que, inclusive, tentou assediá-la depois de descobrir que estava grávida. “Risco de gravidez não tem, vem cá”, lhe disse, assim, como quem corta uma pera logo cedo. É ele que a leva para uma outra colega de faculdade que fez o procedimento clandestinamente com uma mulher mais velha numa cidadezinha próxima. 

O Acontecimento filme
Divulgação/Divulgação

Desesperada com o avanço rápido das semanas de gestação, ainda tendo que confrontar as outras mulheres da universidade e juntar dinheiro para pagar o procedimento, Anne consegue finalmente aliviar a sua angústia. Ou quase isso. Como o processo é feito às escondidas por falta de legislação, não dá certo de primeira, mas funciona na segunda. O único “detalhe” é a dor abundante do risco de vida que ela correu. E aí, nem no livro, nem no filme, somos poupados de nada. Nada mesmo. Annie Ernaux cria uma cena tão explícita e sensorial sobre o que é um aborto que falta estômago para ler a passagem sem escorrer lágrimas no rosto. Assim como tratam sobre cenas sexuais em que os personagens “vivem felizes para sempre”, “saem num date e acordam lindos e plenos na cama no dia seguinte”, sem mostrar a realidade disso, incontáveis livros e filmes trataram sobre o aborto pelo não dito-não visto. “E aí ela abortou.” Choro, choro, fim. 

O Acontecimento filme
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Annie Ernaux não. Ela chora, ela se contorce de dor, ela sangra, ela quase morre, ela pede ajuda a uma pessoa para cortar o cordão umbilical no banheiro da faculdade, com febre, com sangue, com desespero. Ela sofre, e ela descreve o sofrimento. Esse, do acontecimento, e de todo o processo até chegar o dia. Principalmente das palavras de homens médicos que são contra ou que “nossa, se soubesse que você era estudante, teria te ajudado”. Annie toca no problema de gênero, no problema de classe, no problema de controle de natalidade, no problema da sexualidade, no problema da sociedade. Fala com todas as letras, que Audrey Diwan mostra com todas as nuances de cor na tela, aquilo que ainda temos tanta dificuldade de conversar sobre. Num contexto em que o assunto vai e volta nas pautas políticas de países mundo afora, inclusive nossos vizinhos latinos, para o positivo, e nos ditos “países de primeiro mundo”, para o negativo (ironicamente), O Acontecimento chega às telas como uma impossibilidade de diálogo impossível de escapar à audiência. Se o buraco no coração não lhe acontecer, tente outra vez.

O Acontecimento filme
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