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As mulheres que lutam contra o coronavírus na periferia

Esforços urgentes organizados por líderes comunitárias e agentes sociais estão garantindo alimento, água e renda às famílias vulneráveis durante a pandemia

Por Ana Carolina Pinheiro Atualizado em 7 Maio 2020, 15h10 - Publicado em 3 Maio 2020, 08h00

“O morro não tem vez, mas, se derem vez ao morro, toda a cidade vai cantar”, compôs Vinicius de Moraes, com Tom Jobim, em 1965. A música fala sobre a realidade das comunidades, que então cresciam desordenadas e sem amparo nas formações montanhosas do Rio de Janeiro. Cinquenta e cinco anos depois, a realidade não é diferente. As comunidades de todo o Brasil seguem à margem da sociedade, e, em meio à pandemia do novo coronavírus, são os próprios moradores e a população que correm para garantir o mínimo a quem tem tão pouco.

A transmissão do vírus começou entre residentes de bairros elitizados, mas hoje já é mais letal para a periferia, onde faltam estrutura hospitalar e políticas sociais e de saúde que atendam às particularidades das pessoas que vivem ali. Segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, em 18 de abril, a Brasilândia, uma das áreas mais pobres da cidade, onde 50% dos moradores são negros, tinha 89 casos confirmados e 54 mortes. Já o Morumbi, bairro nobre em que parte da população mais rica divide o espaço com grandes favelas, registrou 297 infectados e sete mortos, revelando uma desigualdade de proporção assustadora.

Entre os mais vulneráveis, a orientação de ficar em casa para se proteger pode parecer piada. Primeiro porque os puxadinhos construídos aleatoriamente muitas vezes não guardam os 2 metros de distância segura recomendados nas cartilhas. E também porque a aglomeração acontece dentro de casa, já que em geral famílias inteiras dividem lares de dois cômodos. Mas, mais importante de tudo: ficar em casa também significa ter o estômago vazio. A renda, que já era apertada para pagar todas as contas, se torna praticamente inexistente. São diaristas, babás e outros trabalhadores sem contrato que têm direito ao auxílio emergencial aprovado pelo governo federal. O benefício, que varia de 600 reais a 1,8 mil reais, é destinado também a profissionais informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados.

Entretanto, isso está longe de ser suficiente. A fome e o medo persistem. Instituições e associações vão se juntando em uma força-tarefa para auxiliar moradores das comunidades durante os meses de distanciamento social. São líderes de projetos reconhecidos e voluntárias que colocam a própria vida e de suas famílias em risco para ajudar quem só pode contar com elas.

Danubia (de branco) segura no colo o filho, Almir. A seu lado, as irmãs e a mãe. Ela arrecada alimento e água para moradores de Sussuarana, em Salvador Lane Silva/CLAUDIA

A arte como agente de transformação

Uma fita cassete do rapper MV Bill transformou a vida de Danubia Santos, 33 anos. De Sussuarana, em Salvador, a educadora tinha apenas 12 anos quando ouviu a música e entendeu a sua realidade e a da periferia, além da importância da arte como instrumento de libertação. Foi fazer aulas de teatro em um projeto social e ali se aproximou ainda mais das demandas locais, em especial do empoderamento da estética afro-brasileira entre crianças e jovens. “Conheci a Central Única das Favelas, a Cufa, em uma entrevista com o Bill, fundador da iniciativa juntamente com o Celso Athayde. Quando soube que poderia ser uma das representantes deles em Salvador, não pensei duas vezes”, comenta. O intuito da organização é preencher o vazio deixado pelo poder público, promovendo atividades nas áreas de educação, lazer, esportes, cultura e cidadania.

Hoje são mais de 174 mil habitantes em Sussuarana, mas não há nenhum posto de saúde 24 horas. Moradores caminham pelo bairro em direção ao trabalho, outros seguem a rotina ignorando a gravidade da Covid-19. “Para informar e mapear as situações mais delicadas, criamos também um grupo inter-religioso”, explica Danubia, que negocia com empresas a distribuição de água para famílias que estão sem abastecimento. O dinheiro arrecadado no site da Cufa garante doações de cestas básicas, itens de higiene e produtos de limpeza. No momento da entrega é que Danúbia alerta sobre o problema e tenta convencer mais pessoas a aderir ao isolamento. “Explicamos que não precisam sair para conseguir comida, que nós vamos fazer isso por elas”, conta. A Cufa também foca nos 5,2 milhões de mães que vivem em comunidades. Segundo pesquisa do Data Favela e do Instituto Locomotiva, 92% dessas mulheres revelaram que terão dificuldade para comprar alimento durante a pandemia. A campanha Mães de Favela já beneficia milhares com o auxílio financeiro de 120 reais, também arrecadado no site da Cufa.

A rotina da líder comunitária é intensa. Quando Danubia precisa sair, é a família, seu porto seguro, que cuida do filho dela, Almir, 2 anos. “O pai dele foi assassinado durante um assalto no Carnaval e me vi completamente perdida, mas não dava para ficar parada nessa situação. Minha mãe e minhas irmãs olham meu filho sempre que necessário”, diz ela.

Informar e alimentar

Rozeli da Silva é presidente da ONG Renascer, que ajuda mais de 580 famílias da comunidade do Restinga, em Porto Alegre Nilveo Pereira Cristiano/CLAUDIA

Mais de 580 famílias contam diariamente com o apoio da ONG Renascer, em Porto Alegre, durante a pandemia da Covid-19. Outras 1,5 mil aguardam na fila de espera por falta de doações. A instituição foi criada pela ex-gari Rozeli da Silva, 56 anos, e a assistente social Learsi Kelbert, em 1994, com o intuito de diminuir os casos de gravidez na adolescência na região. Havia uma questão pessoal por trás da iniciativa. Rozeli, hoje presidente, se tornou interna da Febem aos 11 anos e teve o primeiro filho aos 13. Sofreu violência doméstica em dois relacionamentos e só aprendeu a ler e escrever aos 33 anos. Ela não queria que outras jovens tivessem o mesmo destino tortuoso. Mas o foco e a logística da ONG mudaram em março, quando Rozeli recebeu um e-mail da prefeitura alertando sobre o início da pandemia e da necessidade de fechar o espaço físico da Renascer por tempo indeterminado. “As mensagens pedindo ajuda começaram a chegar instantaneamente”, conta.

Para conscientizar e apoiar os moradores do bairro periférico da Restinga, duas estratégias foram adotadas. Primeiro, a ONG acionou a rede de apoio para encontrar os casos de vulnerabilidade extrema. Depois, dedicou-se a educar. “Faço lives diárias explicando a importância de manter a casa aberta, lavar as mãos e higienizar os produtos com sabão e água sanitária. Álcool em gel, para eles, é artigo de luxo.”

Artistas locais têm se revezado nos pedidos de doações, mas, mesmo com a colaboração de muitas pessoas, Rozeli teme pelos próximos meses. A lista de famílias precisando de auxílio só cresce, e os donativos decaem. São necessários itens de higiene, alimentos, produtos de limpeza. As doações podem ser feitas diretamente com Rozeli por e-mail (rozelidorenascer@gmail.com).

Da neta de 13 anos, Rozeli escutou: “Se os mais velhos fazem parte do grupo de risco, o que a senhora está fazendo na rua?”. A avó diz para Kerolyn que não sente medo e se cuida, mas também que é sua missão ajudar. “Se for para eu ir embora com essa doença, sei que fiz minha parte e deixei uma história de amor.” Para tentar relaxar, à noite, Rozeli gosta de ler, principalmente a Bíblia.

Isolados, mas com apoio

Kika trocou a cama de casa pelas instalações da Associação de Moradores do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte Rafael Freire/CLAUDIA

A agenda de Cristiane Pereira, 43 anos, conhecida como Kika, anda concorrida. Para não gastar tempo, a líder comunitária já abriu mão do trajeto diário até sua casa e se mudou para a sede da associação Aglomerado da Serra, que auxilia 120 mil habitantes da maior favela de Minas Gerais. “De 20 a 26 de março, passamos de 35 famílias cadastradas para 3 mil”, conta a produtora cultural e promotora pública, que recolhe e distribui cestas básicas.

Além de levar comida e produtos de higiene, Kika busca conscientizar. “Um grupo se organizou e recolheu 20 reais de cada um para alugar uma moto que percorre a comunidade alertando as pessoas sobre o perigo do vírus e pedindo para ficar em casa.” A associação também concentrou esforços para ajudar quem tinha direito ao auxílio emergencial e não estava conseguindo o dinheiro por ter dificuldades no cadastro ou em alguma outra fase do processo.

Até a metade de abril, a associação já havia apoiado aproximadamente 6 mil famílias. Entretanto, de tempos em tempos, precisa recusar novos pedidos, pois as doações diminuem a cada dia. “Temos 45 voluntários que fazem as compras e preparam as refeições de moradores diagnosticados com a Covid-19 e com mobilidade reduzida”, explica ela, que decide o destino das doações feitas neste site.

As noites de sono de Kika não são mais as mesmas; a responsabilidade vem lhe causando insônia. A casa, que compartilha com o marido e os seis filhos, tem uma nova dinâmica. “É tudo muito bem bolado. Quando toco a campainha, minha filha mais velha leva o caçula de 1 ano para o quarto. Enquanto isso, tiro a roupa e coloco em uma sacola. Vou direto para o banho. Só depois de limpa, abraço meus filhos. Assim que eles dormem, volto para a associação para acabar algumas tarefas e recomeçar bem cedo”, explica. Por enquanto, o domingo é o único dia em que a família consegue passar mais tempo junto.

Batalha para a proteção de todos

Camila Silva, do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, distribui alimentos a famílias vulneráveis Hector Santos/CLAUDIA

O primeiro contato de Camila Aparecida Silva, 35 anos, com o novo coronavírus foi ao acudir a mãe, Rosangela, 58, ascensorista do Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, que sofria com febre, tosse e falta de ar. “Os médicos falaram que era início de pneumonia, só que não havia o teste para a Covid-19. Foi uma situação complicada, mas, pelo menos, ainda tinha respirador para salvar a vida dela”, relembra a integrante da Associação de Mulheres do Complexo do Alemão, que pertence à terceira geração de uma família nascida e criada na comunidade.

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A relação da líder comunitária com o movimento social é intensa. No início de 2015, ela se juntou a outras moradoras para criar o Mulheres em Ação no Alemão. “A instituição nasceu para atender pontos que o poder público não alcança, como a violência doméstica. Recebemos ainda mais denúncias durante o isolamento social”, destaca.

Hector Santos/CLAUDIA

Ciente de todas as dificuldades que atingem os habitantes do Alemão, ao escutar as primeiras orientações da Organização Mundial da Saúde, Camila percebeu que adaptações seriam necessárias. “Como falar para famílias que ficam até 15 dias sem água que todos deveriam lavar as mãos por 60 segundos frequentemente?”, questiona. Com os moradores Rene Silva e Raull Santiago, Camila criou o gabinete de gestão da crise em março. “Começamos a produzir material para informar os moradores e a pressionar a Companhia Estadual de Águas e Esgotos e o governo para resolver a instabilidade no abastecimento de água.” Surtiu efeito: novas bombas foram instaladas para evitar a escassez.

Mas a luta não para. Com escolas e projetos sociais fechados, os filhos de Camila ora ficam sozinhos, ora com os avós. O caçula, Tales, 4 anos, acompanha a mãe. Enquanto amamenta o pequeno, Camila monitora 200 famílias e os infinitos pedidos de ajuda recebidos pelo Mulheres em Ação. “Tem uma mãe com nove filhas. Nessa família, vai um 1 quilo de arroz em um dia só”, exemplifica.

A distribuição das doações tem um critério doloroso, já que não há comida e produtos para todos. “Às vezes, chegamos com itens para uma família, mas ela mesma avisa que tem alguém em condição pior. Idosos sem celular são ainda mais difíceis de encontrar. Ficamos sabendo pelos vizinhos que um senhor estava dando farinha com água para o neto.” Para seguir atuando, o gabinete de gestão de crise do Complexo do Alemão recebe doações neste site.

 

A responsabilidade nas costas

Juliana Gomes (à esquerda) e Elizandra Cerqueira, da Associação de Mulheres de Paraisópolis, alimentam mais de 3,5 mil moradores da comunidade por dia Francisca Rodrigues/CLAUDIA

Com mais de 100 mil habitantes, Paraisópolis é a segunda maior favela de São Paulo – desde o início da pandemia, o estado tem o maior número de casos diagnosticados e óbitos por Covid-19 no país. Resta às empreendedoras sociais e representantes comunitárias o trabalho de manter a comunidade funcionando durante o isolamento. Elizandra Cerqueira, 32 anos, e Juliana Gomes, 34 anos, da Associação de Mulheres de Paraisópolis, têm criado e adaptado projetos para garantir comida e renda aos moradores. Foi o caso do Mãos de Maria, que oferece cursos voltados para a gastronomia. O restaurante dentro da comunidade estava fechado e todas as encomendas de festas haviam sido canceladas e perdidas. Mas, após quatro dias de portas cerradas, as alunas retornaram com a missão de alimentar a comunidade. “Não sabíamos se o projeto sobreviveria, mas então encontramos esse novo propósito, de alimentar os moradores que estavam passando fome. Afinal, quem mora aqui não tem função que possa ser feita em home office”, explica Juliana, sócia da instituição.

Elizandra explica que outras iniciativas sociais de Paraisópolis direcionadas às mulheres também se uniram nessa ação de combate ao novo coronavírus. “Eu, a equipe do Mãos de Maria, a Rejane Santos, do Emprega Comunidades, e a Sueli Feio, do Costurando Sonhos, nos juntamos para contribuir com quem não tinha mais salário nem alimento. Em abril, distribuímos mais de 3,5 mil marmitas por dia”, explica.

O grupo também adaptou duas escolas da comunidade para receber pessoas diagnosticadas com a doença. “Assim, diminuímos os riscos de contágio dentro das casas apertadas, com poucos cômodos e alto número de moradores”, diz Elizandra. Todas as ações desenvolvidas em Paraisópolis acontecem graças às doações arrecadadas neste site.

Para Elizandra, duas questões deixam seu coração mais pesado: a saudade da família, que ela não vê desde o início da quarentena, e a situação de 6 mil famílias que moram em cima de um córrego não canalizado, mais um dos vários problemas de infraestrutura da comunidade. “Quando chego em casa, tento não ficar perto do celular. Brinco com meu cachorro, procuro me desligar”, diz ela. A válvula de escape de Juliana são os filhos pequenos e, no pouco tempo que sobra, ela conversa virtualmente com outros membros da família ou vê lives de cantores sertanejos.

 

Vocação na prática

Alfa de Jesus Martins auxilia na arrecadação e distribuição de doações a famílias vulneráveis de Manaus Coletivo Ponta de Lança/CLAUDIA

Manaus sofre com a falta de estrutura dos hospitais e de profissionais para combater a pandemia. Os números da capital subiram vertiginosamente até ela se tornar a quarta com mais casos da Covid-19 no país – tem a maior taxa de incidência da patologia no país e de letalidade. Em 21 de abril, o prefeito, Arthur Virgílio Neto (PSDB), declarou que a cidade vive uma situação de calamidade pública, pois a taxa de ocupação de UTI estava em 91% e haviam pessoas morrendo em casa.

A soteropolitana Alfa de Jesus Martins, 45 anos, é uma das pessoas que tentam diminuir o impacto da epidemia, principalmente para a população mais vulnerável. Ela, que era freira, se mudou para o Amazonas em 2006. “Manaus é um destino muito procurado pelos missionários porque tem complexas demandas sociais. Em 2010, concluí a faculdade de serviço social e recebi a dispensa da vida religiosa, que tinha pedido fazia dois anos. Mas minha vocação continua. Expresso no cuidado com o outro, mas de forma mais concreta, além da oração”, considera a assistente social da Caritas, confederação humanitária da Igreja Católica.

Antes da pandemia, o trabalho de Alfa era concentrado em mulheres e partia do pressuposto da colaboração e da economia solidária. “Organizamos grupos que produziam uniforme escolar para várias escolas da cidade, por exemplo. Assim, elas tinham renda e maior autonomia em casa. Os lucros de cada grupo eram divididos igualmente”, comenta. Após uma conversa com catadoras de lixo, contudo, ela percebeu a urgência em medidas de proteção contra a Covid-19. Ao mesmo tempo, a Caritas já se mobilizava para colocar no ar a campanha Puxirum, termo usado pelos amazonenses para identificar uma ação coletiva. Por meio de de doações no site, a instituição consegue auxiliar no sustento de comunidades ribeirinhas e urbanas. Todas as orientações passadas às famílias assistidas estão em comunhão com o Ministério Público. “Também direcionamos ao órgão casos específicos, como os de menores vítimas de abuso sexual que cumprem o isolamento social dentro de uma ocupação na área urbana”, explica.

A meta para ajudar todas as famílias que vivem nas periferias de Manaus e nas ruas está longe de ser atingida, mas Alfa não pensa em desistir. “Mesmo sendo um trabalho intenso, faço de coração. É uma forma de devolver a Manaus tudo o que recebi nesses quase 15 anos.”

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