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Médicos Sem Fronteiras age para estancar crise na saúde de Manaus

A instituição se organiza para definir como será feita a ajuda médica e humanitária na cidade cujo sistema de saúde já colapsou devido ao coronavírus

Por Colaborou: Gabriela Maraccini - 30 abr 2020, 17h00

O sistema de saúde de Manaus já entrou em colapso devido à pandemia do novo coronavírus. Até a última terça-feira (28), foram registradas 351 mortes e 4.337 casos confirmados. O cemitério Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, que antes realizava cerca de 30 enterros por dia, na última semana atingiu o pico, com 142 sepultamentos. A prefeitura estima que mais de 4 mil pessoas devem ser enterradas no mês de maio.

Diante do caos, Médico Sem Fronteiras (MSF), instituição de ajuda médica humanitária que já havia iniciado, no início de abril, ações contra a transmissão do Covid-19 em São Paulo, enviou uma equipe para avaliar a situação em Manaus, dando inicio aos treinamentos em hospitais.

“Fizemos uma visita com os nossos colegas para entender como está a situação por lá e, realmente, é muito delicada. O sistema de saúde já entrou em colapso, o que significa que ele não é mais capaz de atender os casos que chegam às unidades de saúde”, explica Renata Reis, porta-voz da instituição, a CLAUDIA.

Segundo Reis, o MSF reforçou sua equipe com médicos que já atuavam em Roraima, em ações com a população migrante e refugiada venezuelana, onde também há projetos de combate à Covid-19. “Realizamos treinamentos nesses hospitais que estão na linha de frente no combate à pandemia. A chave é proteger esses profissionais, porque sem eles é impossível responder a essa crise”, afirma.

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Além disso, a porta-voz explica que a intenção do MSF é, como nos outros estados em que atua, trabalhar com pessoas em situações mais vulneráveis, como moradores de rua, migrantes e, em especial no caso do Amazonas, com a população indígena. “É uma população, na nossa avaliação, que merece um olhar diferenciado e especial. Estamos em contato, obviamente, com lideranças indígenas e não vamos fazer nada sem falar com eles antes, sem entender suas necessidades”, explica.

Sistema de saúde em colapso

Em menos de um mês, o Amazonas entrou na lista de emergência do Ministério da Saúde. Nas últimas semanas, imagens do maior cemitério de Manaus abrindo valas comuns e recebendo câmaras frigoríficas assustaram a população. A média já é de 100 sepultamentos por dia e a cidade está prestes a enfrentar um novo colapso, dessa vez funerário.

Uma das causas para o agravamento da situação foi a baixa quantidade de leitos em UTIs e a escassez de exames para testar casos suspeitos, além da quantidade insuficiente de ventilador mecânico, médico e equipe.

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Em duas semanas, o número de sepultamentos nos cemitérios públicos da capital do Amazonas triplicou, conforme os dados divulgados pela Prefeitura de Manaus. O comparativo considera, por exemplo, os 39 enterros realizados no último dia 9/4, enquanto que, no último sábado, 25, foram 102 registros, um aumento de quase 300% em 16 dias. Durante o mês de abril, são aproximadamente 1.500 registros. Com o aumento na demanda, o município firmou parceria e passa a contar com um crematório. Foto: Alex Pazuello #covid19

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O MSF deve atuar de forma a ajudar a conter o caos. Em São Paulo, foram realizadas pela instituição triagens em centros de abrigamentos de pessoas em situação de rua e o encaminhamento dos casos mais graves para os hospitais. No entanto, a situação na cidade ainda está sendo avaliada para definir qual é a melhor ação a ser realizada na cidade.”O que eu posso garantir é que vamos, a partir da experiência que temos em outras crises, levar o melhor que pudermos dentro das limitações que temos hoje”, reitera Reis.

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A porta-voz explica que um dos principais obstáculos enfrentados para enviar equipes à Manaus é justamente o transporte. “Não tem voo saindo todos os dias, de forma regular. E isso tem sido um desafio enorme para todo o mundo humanitário. Pedimos até aos países, aos estados, às organizações multilaterais para abrirem exceções para que os médicos humanitários consigam chegar nesses locais, porque a ajuda tem sido dificultada por essas questões”, desabafa.

Outro grande desafio para conseguir efetivar as ações humanitárias, é conseguir EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) para as equipes que estão atuando na linha de frente. “Não temos como começar de fato uma resposta de combate à Covid-19 sem preparar adequadamente o nosso pessoal”, lamenta Reis. “Isso é muito importante porque diminui o medo e a ansiedade dos profissionais que estão na linha de frente. Quanto mais eles se sentem treinados e preparados do ponto de vista físico e material, mais fácil é manejar essa crise”, completa.

Ações em outros estados brasileiros

Além do início da ação em Manaus, Médicos Sem Fronteiras também atua no combate ao coronavírus em mais três estados brasileiros: São Paulo, Roraima e, recentemente, no Rio de Janeiro.

Na capital paulista, são feitas triagens e atendimento médico direto para a população em situação de rua, identificando quais são os casos mais leves e encaminhando os mais graves ao hospital. “São pessoas que normalmente tem muita dificuldade de chegar a um centro de saúde e que se tiver um quadro clínico que evolua muito rápido, ela pode morrer na rua. Então precisamos estar próximos dessas pessoas”, explica Reis.

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Médicos Sem Fronteiras atendendo pessoas em situação de rua em São Paulo Médicos Sem Fronteiras/Divulgação

Também são feitas orientações de higiene, distanciamento social e explicações sobre a Covid-19 para que essa população mais vulnerável consiga se proteger da maneira que for possível. Além disso, a instituição também realiza treinamentos de profissionais e jovens em conflito com a lei que estão em medida de internação na Fundação CASA e moradores de ocupações espontâneas, espaços costumeiramente mais populosos e com saneamento básico insuficiente. Instituições de acolhimento de idosos também são locais observados pelo MSF.

Já em Roraima, desde 2018, o foco do trabalho é a população migrante e de refugiados venezuelanos. “São populações vulneráveis que, se não estão nos abrigos oficiais, então nas ruas, em torno de rodoviárias e espaços públicos”, explica a porta-voz. “O projeto voltado para a Covid-19 busca entender a demanda dessa população e melhorar as condições de higiene em alguns abrigos e ocupações espontâneas”, finaliza.

No Rio de Janeiro, estão sendo realizados os preparativos finais para que a organização comece a atuar, também focada na população vulnerável.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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