O machismo está muito mais presente nas músicas nacionais do que parece

Plataforma MMPB analisa letras de canções brasileiras famosas que possuem mensagens negativas para as mulheres

Jorge & Mateus, Péricles, Roberto Carlos, Valesca Popozuda, Vinícius de Moraes… Esses cantores têm mais em comum do que soam. Mesmo trabalhando com gêneros distintos, todos eles possuem letras de teor machista em seus currículos. Elas agora estão compiladas no MMPB (Música Machista Popular Brasileira).

Lançada na terça-feira (03), a plataforma reúne canções brasileiras de sucesso que refletem o machismo presente em nossa sociedade. Basta clicar no botão “shuffle” – inspirado no nome em inglês da função que programa os dispositivos para tocar músicas em ordens aleatórias –para navegar por uma diversidade de mais de cem composições nacionais com letras negativas para as mulheres.

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A ilustradora Rossiane Antúnez, 27 anos, uma das criadoras do projeto, defende que essa é uma prova da necessidade do feminismo. “Até na música somos retratadas de forma questionável”, comenta. Segundo ela, o estopim para a criação do MMPB foi o funk Surubinha de Leve, do MC Diguinho, que ficou entre as faixas mais ouvidas no Spotify e no Youtube em janeiro deste ano no Brasil.

A música foi acusada de apologia ao estupro devido o refrão “Taca bebida, depois taca pica e abandona na rua”. O barulho nas redes sociais contra ela foi tão grande que as plataformas digitais a tiraram do ar e MC Diguinho modificou o verso polêmico para “mas não abandona na rua”. Essa foi a gota d’água para Rossiane se reunir com a redatora Lilian Oliveira, 28 anos, a designer de experiência e interface de usuário Carolina Tod, 27 anos, e a designer Nathalia Ehl, 31 anos, para a criação do site.

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“A gente resolveu dar destaque para outras músicas de outros tantos gêneros que também são machistas”, conta a ilustradora. “E mostrar pra pessoas como a mulher anda sendo retratada na sociedade há muito tempo e como isso é sintomático.”

Junto a cada letra publicada no site está uma análise feita pelas criadoras do projeto justificando o motivo de seu conteúdo ter caráter machista. “O cara se juntou com alguém, mas ele não entendeu que estava se casando com uma mulher. Ele achou que estava se juntando com uma empregada doméstica – como a grande maioria, infelizmente”, diz o texto que acompanha a canção Se Eu Largar o Freio, de Péricles, por exemplo. Na música, o eu lírico reclama das louças na pia e da roupa amassada, sendo que ele paga as contas, e diz para a esposa “parece que nem gosta de mim”.

Segundo Rossiane, a plataforma estará em constante atualização. Nem todas as músicas identificadas pelas criadoras como machistas foram analisadas e publicadas para o lançamento, mas em breve integrarão o site. Além disso, quem o acessa é convidado a colaborar enviando músicas e análises. “Desde ontem [quando o projeto foi lançado], recebemos uma boa quantidade de e-mails com sugestões”, diz.

Navegar pelo MMPB é um exercício de reflexão e autoanálise. Muitas músicas tidas como românticas, divertidas ou até mesmo empoderadoras, descrevem de forma (nem sempre) sutil violência doméstica, competição entre mulheres, relacionamentos abusivos, entre outras situações que devem ser combatidas. Como ressalta a descrição publicada na página inicial da plataforma, “Escute com atenção: o descompasso machista às vezes está só nas entrelinhas.”