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“Tive síndrome do pânico por causa dos abusos”, diz Gorete Milagres

A atriz relata abusos na infância, uma tentativa de estupro, relações tóxicas com namorados e assédio no trabalho: "Só eu podia mudar a situação"

Por Isabella D'Ercole - Atualizado em 16 out 2020, 15h11 - Publicado em 16 out 2020, 17h00

CLAUDIA assumiu a missão de oferecer às brasileiras um espaço seguro para falar sobre violências sofridas, formando uma rede de apoio e derrubando tabus sobre estupro, assédio e abuso. Precisamos falar mais. Para dar continuidade ao movimento, a atriz Gorete Milagres compartilha seu relato nas páginas a seguir

 

Há 78 dias ininterruptos, CLAUDIA publica em seu site depoimentos de mulheres vítimas dos mais diversos tipos de violência em decorrência do machismo estrutural. Chamada A Palavra de uma Mulher, a campanha tem como intuito fornecer um espaço de fala a quem, na maioria dos casos, guarda há anos o segredo de ter sido abusada na infância, estuprada pelo parceiro, sofrido assédio no trabalho ou sobrevivido a agressões psicológicas.

Como dizia o manifesto que deu início à ação, a palavra é poderosa. “Ela nos permite externalizar sentimentos que há tanto tempo vinham se organizando dentro de nós. Quando falamos, tudo que era subjetivo e pessoal se torna palpável. (…) Se não bastasse esse efeito, já tão benéfico, a palavra ainda estimula outras pessoas a falar.” Desde julho, isso tem se comprovado, pois são dezenas de e-mails que chegam diariamente de mulheres que desejam, enfim, expurgar a dor que as corrói por dentro.

O movimento foi inspirado em figuras corajosas que escolheram CLAUDIA para publicar seus relatos íntimos. A primeira delas foi a atriz Julia Konrad, que revelou ter sido vítima de estupro conjugal, influenciando a discussão do termo e do que ele representa por todo o país. Em seguida, Juliana Lohmann contou sobre um episódio de estupro cujo algoz era um superior profissional. Poucos dias depois, Karen Junqueira expôs as lembranças de ter sido abusada na infância pelo pai de uma amiga e as consequências decorrentes disso.

Ao levarem esses debates para o grande público, essas três mulheres mostram que ninguém está imune de se tornar vítima do machismo, mas que é essencial contar com uma rede de apoio na hora de se tratar e se curar.

A atriz Gorete Milagres compartilha a seguir a sua história, permeada de violências em diversos ambientes – algumas sutis, outras nem tanto. Por anos, Gorete buscou nela a culpa pelo que acontecia para, enfim, se entender como vítima e se perdoar.

 

C

resci no interior de Minas, tataraneta, neta e filha de fazendeiros. Naquela época, bater não era abuso, mas uma forma de educar. Meu pai viu seus negócios ruir e descontava as frustrações nos meus irmãos. Eles, por sua vez, diziam que eu era a caçula mimada porque não apanhava.

Do jeito que aprenderam, fizeram comigo na adolescência. Descarregavam suas iras em mim. Como meu pai morava na fazenda e só voltava nos fins de semana para casa, não tinha autoridade para detê-los e minha mãe desmaiava quando as brigas começavam. Eu aprendi a me defender que nem onça, mas as agressões mexeram comigo. Eu tinha vontade de sumir. Foi quando comecei a saga de fugir da violência.

Aos 19, virgem, sofri uma tentativa de estupro. Estava com amigas quando começou a chover e saí correndo para casa. No meio do caminho, o namorado de uma delas, que estava com a gente antes, me ofereceu uma carona. Eu inocentemente aceitei, mas ele dirigiu para uma mineradora afastada.

Tentou tirar minha calça e não conseguiu, pois eu estava com um lenço amarrado na cintura. Morri de medo e criei uma cena. Deixei ele me dar um beijo e disse que preferia ir a um motel. A ideia era saltar do carro em um farol na cidade. No caminho, rezava para Santa Maria Goretti, que preferiu morrer a ser estuprada. Meu nome é uma homenagem a ela. Ele não seguiu meu plano e foi para uma estrada distante.

Pensei na Santa, rezei, abri a porta do carro e pulei. Rolei bastante, depois me levantei e corri, com ele me seguindo. Avistei um ônibus e entrei na frente acenando para o motorista. Ele me deu uma carona até perto de casa. Decidi pedir ajuda a uma amiga, cujo pai era advogado. Contei para ele o que tinha acontecido e ele me aconselhou a não ir à delegacia, pois, como a cidade era pequena, seria vítima de fofocas e até inventariam que eu estava grávida.

Não queria ver minha mãe sofrendo, então disse que tinha sido atacada por um cachorro. Só dividi com minha irmã. Foi traumatizante, me deixou marcas no corpo e na mente. Depois disso, fui morar com uma irmã em Macaé, no Rio de Janeiro, para tentar esquecer.

Aos 25, tive minha primeira relação sexual com um homem com quem fiquei por anos. Em 1991, conheci na faculdade um estrangeiro lindo. Apaixonados, nos casamos. Algum tempo depois, estreava Filomena no Festival Internacional de Teatro, em Belo Horizonte. Foi um sucesso, mas o comportamento do meu companheiro mudou.

Um dia, fiz uma lasanha de berinjela e ele quebrou o recipiente enquanto gritava que odiava o vegetal. Ao mesmo tempo, chorava pedindo desculpas. Dali em diante, os episódios de violência foram crescendo. Eu achava que a culpa era minha. Contei para a família e ninguém acreditou. Pedi a separação e na semana seguinte descobri que estava grávida.

Resolvemos tentar de novo e eu aceitei ajudá-lo a lidar com traumas da infância. Descobrimos que ele havia sido fruto de um estupro que a mãe sofrera do ex-marido. Conto isso para ressaltar que a violência estrutural existe e ela leva pessoas a serem agressivas.

Quebrar esse ciclo exige força e coragem. Esse homem me agrediu algumas vezes, mas a gota d’água foi quando me bateu grávida. Ele foi embora para o país dele, optando por se ausentar da vida da filha.

Já trabalhando na TV, sustentando minha família, conheci outro homem muito interessante. Achei que fosse para a vida inteira. Tivemos uma filha juntos. Mas notei que ele gostava de puxar o freio de mão quando eu queria tomar decisões, principalmente nos negócios.

Acho que, no fundo, não dava conta da mulher independente e provedora que sempre fui, embora ele tivesse um ótimo emprego. Dessa vez, a violência chegou às minhas filhas. Uma delas, ele agrediu fisicamente. Eu e a outra aguentávamos enorme crueldade psicológica. Tentamos terapia de família, mas nada adiantou. Ele não estava disposto a mudar. Depois de 16 anos, me separei. Foi um processo que impactou a família toda e traz consequências até hoje.

Namorei outros homens que se mostraram possessivos, provocando episódios de ciúmes. Um fazia cenas bizarras quando fãs me pediam um abraço. Ao descobrir coisas surreais sobre ele e também que me traiu, entendi que eu era mais uma vítima de seu comportamento narcisista.

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Ele era tão abusivo que, pela primeira vez, tive medo do feminicídio, apesar de ele nunca ter partido para a agressão física. Mais madura, fiquei mais seletiva e intolerante. Vou embora ao menor sinal de masculinidade tóxica.

Engana-se quem pensa que mulheres bem-sucedidas estão menos vulneráveis a violências. Fui vítima de abuso até no trabalho. Não foi fácil chegar na televisão e já ser campeã de audiência por ter conquistado o público com meu humor.

Em um levante machista, colegas espalharam notícias falsas a meu respeito, tentando me queimar no meio. Recebi ligações agressivas e ofensivas. Fui ameaçada de morte. Estou certa de que poderia ter tido ainda mais sucesso não fossem tantos invejosos que pediram a minha cabeça, causando o cancelamento de programas apesar do contrato assinado. Em outra emissora, sofri assédio moral de um diretor, que fazia tortura psicológica comigo.

Desenvolvi síndrome do pânico por causa de todos os abusos sofridos na carreira e na vida pessoal. Além de anos de terapia, fiz tratamento com remédio e me curei com força de vontade e no palco.

Sempre tive uma rede de apoio, amigos, família e nunca guardei essas coisas nem escondi. Mas notei que a violência é normalizada. Frequentemente, as pessoas me pediam calma, diziam que eu deveria esperar, tolerar. Eu sou muito tolerante, mas se a gente não toma um rumo, vai virando uma bola de neve.

Percebi que só eu era capaz de mudar minha situação. Nada foi melhor do que simplesmente tirar da minha vida esses homens que me faziam mal. Nós, mulheres, nos calamos às vezes por vergonha, medo, insegurança, falta de informação. Por anos, achei que eu estava errando, mas compreendi que a culpa não é minha, e sim do machismo.

Sou livre, independente e se não for para me divertir, a relação não deve durar nem uma semana. Hoje tenho um escudo de proteção, uma carcaça que criei com as dores e elas são a minha força para barrar qualquer tipo de violência e abuso. Avante!”

 

Conheça projetos que apoiam mulheres vítimas da violência

 

Mapa do Acolhimento

Autodenominada rede de solidariedade, a plataforma reúne cadastros de psicólogas e advogadas que desejam ser voluntárias em atendimentos a mulheres que sofrem violências de gênero e faz a conexão entre vítima e profissional. Todo os serviços são gratuitos.

Durante a pandemia, o projeto organizou uma mobilização nacional, #TôComElas, para escrever um guia com os serviços públicos que estão disponíveis nessa área. No site (mapadoacolhimento.org), há diversos conteúdos informativos para auxiliá-las a compreender a experiência pela qual estão passando. O contato pode ser feito pelas redes sociais ou por e-mail (contato@mapadoacolhimento.org).

 

Justiceiras

Mais de 3,8 mil voluntárias oferecem apoio jurídico, psicológico e de assistência social a mulheres de todo o Brasil por meio de atendimentos virtuais. Criado pela promotora de Justiça e colunista de CLAUDIA Gabriela Manssur em parceria com Anne Wilians, advogada e presidente do Instituto Nelson Wilians, o empresário João Santos, do Instituto Bem Querer Mulher, o projeto ainda se juntou ao #MeToo brasileiro, idealizado pela advogada Marina Ganzarolli, garantindo que as denúncias feitas no site do movimento (metoobrasil.org.br) sejam acolhidas pelo Justiceiras (justicadesaia.com.br/justiceiras/).

 

Borboletário

Criado pela jornalista Bianca Kachani, o projeto Borboletário – Abusos e Cicatrizes para Além do Casulo (@bikachani) recebe relatos de mulheres que viveram ou ainda estão em relações abusivas. A princípio, as histórias foram contadas em vídeos narrados por Bianca com ilustrações de Sofia Fragoso (@sofiafragoso).

A ideia era publicar apenas nove relatos, mas com o grande volume de mensagens recebidas, ela decidiu continuar em outros formatos. No último mês, fez uma live no Instagram com uma vítima para que a interação em tempo real pudesse ajudar outras mulheres. O movimento começou após Bianca ter tido contato com muitas histórias próximas. Ela se surpreendeu com o número de amigas que a procuraram para revelar que eram vítimas após a publicação do primeiro vídeo.

O que falta para termos mais mulheres eleitas na política

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