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Patricia Hill Collins e a defesa de um feminismo negro independente

"Em nossa cultura, não se acredita que negros têm pensamento independente ou coletivo válidos", diz a socióloga feminista

Por Letícia Paiva 20 nov 2019, 20h37

O principal questionamento que surge em relação ao feminismo, sobretudo tratamos as “mulheres” como uma massa uniforme, é a quais mulheres estamos nos referindo, conforme elabora a socióloga afro-americana Patricia Hill Collins. Há o risco de, ao tratar de mulheres, estarmos nos referindo mais precisamente a mulheres brancas de classe média e considerarmos que as experiências de mulheres negras e pobres serão semelhantes as delas.

A percepção de que outros fatores sociais além do gênero, como raça e classe, devem ser consideradas ao refletir sobre as experiências das mulheres e construir o feminismo ganhou o nome de interseccionalidade. Hill Collins é um dos principais expoentes dessa teoria de pesquisa, que foi adotada pelo ativismo feminista, e uma das principais referências quando se trata de estudos de gênero. Ela também é responsável pela teoria que, no Brasil, ganhou o nome de “lugar de fala” (standpoint theory, em inglês).

Com a noção de que o conhecimento é sempre socialmente situado e a situação do grupo oprimido é diferente da do dominante, tal teoria estabelece que diferentes tipos de conhecimento serão produzidos por cada um deles, a partir de seu lugar.

Recentemente, um dos principais livros de Hill Collins chegou ao Brasil em português, Pensamento Feminista Negro (Boitempo), publicado originalmente em português, e a socióloga visitou o Brasil para o lançamento. Na ocasião, a autora conversou com CLAUDIA. Neste Dia da Consciência Negra, confira os principais momentos da entrevista e onde comprar a obra e outros lançamentos recentes do feminismo negro:

A senhora tem dito que é importante manter o feminismo negro em separado do movimento mais amplo. Por que destaca a necessidade de reforçar as vertentes? 

Não há nada de errado com o feminismo mais geral, e sim com . o pensamento de que ele é universal quando na verdade é particularista. Temos múltiplos feminismos que devem ser colocados em diálogo antes de se ter um feminismo geral. Precisamos ter certeza de que há discussões e diálogo entre todos os feminismos. Mulheres negras estão posicionadas no “guarda-chuva” amplo do feminismo, mas, ao mesmo tempo, vivem uma forma distinta de feminismo. Nos Estados Unidos, temos vertentes como o feminismo das latinas e indígenas, além do das trans e lésbicas. Todos são projetos de feminismo. As mulheres estão trabalhando a partir de diferentes locais, de modo a expandir o que é feminismo, mas isso não quer dizer que esse processo já está finalizado. Cada um desses feminismos tem desafios específicos.

Acredita que esses desafios acabam se relacionando? 

O feminismo branco tem o desafio de olhar para o privilégio branco, que pode aparecer em termos de sexualidade, por exemplo. Já o feminismo negro tem o desafio de olhar o racismo e como ele nos coloca para baixo e isso afeta inclusive direitos reprodutivos e nossa sexualidade. Há uma agenda comum para mulheres, mas, para mim, o feminismo se constituiu por diferentes pontos de vista para questões relacionadas, que são experienciadas de formas distintas pelas mulheres. Por isso há uma tensão entre feminismo negro e a necessidade de se ter uma feminismo negro independente. Mas ao mesmo ter esse feminismo negro independente ajuda a todos os projetos.

De que modo isso tem a ver com diferentes pontos de vista, ou “lugares de fala”? 

O ponto de vista é o que nos faz perceber problemáticas sociais, mas ao mesmo tempo ele tem pontos cegos. Você não consegue enxergar certas questões até estar naquele grupo, com aquele ponto de vista. É difícil para nossa cultura acreditar que pessoas que estão na base, isto é negros, indígenas e pobres, têm pensamento independente ou coletivo válidos. Entretanto, elas têm. A questão principal é como poder, relações de poder e dominação são visto de formas distintas. Evidentemente, a sua visão é muito diferente se você está no topo ou na base. Além disso, é comum que se considere, erradamente, que alguns pontos de vista são universais. Para mim, há pontos de vista parciais, não há verdade absoluta neles por si só.

Por outro lado, acredita que, ao se ter o ponto de vista de quem está na base, é possível criar um conhecimento específico e novas soluções? 

Se você está vendo um problema, precisa ser criativo para ultrapassar os seus problemas. Você precisa ser capaz de vencer aquele problema social com colaboração. Surge aí a criatividade por necessidade. Assim, pensar fora da caixa vem do fato de que você está vivendo a vida de um modo em que isso é preciso. Isso aparece em como você, criativamente, vai lidar com alguém que te coloca para baixo, que te oprime. A partir disso, o próximo passo nesse processo é analisar quais são as causas e qual o sistema que está criando essa opressão para criar conhecimento.

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Nesse sentido, acredita que estamos vivendo um momento efervescente para a auto-valorização e auto-definição de mulheres negras, especialmente nas artes? 

É sinal disso muito do que vemos hoje na TV (e que eu assisto quando, supostamente, não deveria estar assistindo), como, por exemplo, a série Dear White People, em que há todas as diferentes representações de mulheres negras também modos de se enxergar como mulher negra. O que temos visto é uma produção artística e cultural de mulheres negras sobre questões que as mulheres negras podem encontrar si próprias e uma diversidade de formas como mulheres negras podem ser representadas. Isso é certamente novo. Encontramos em música, mas agora realmente temos contato com isso visualmente.

Muitas vezes, as observações das mulheres sobre sexismo são acusadas de serem paranoicas. O mesmo acontece com racismo. Na sua perspectiva, o que é dito ser “paranoia” não seria tomada de consciência? 

Eu acho que feminismo é uma forma de ver de forma clara o que está acontecendo em nossa vida diária, não necessariamente o que vamos fazer sobre isso. Mas não é sobre ser paranoica, de que o que você está vendo não é possivelmente acurado. E quando eu vejo racismo e sexismo é acurado, não estou sendo paranoica. Essa é uma concepção interessante, como se quem se levantasse contra o status quo seria na verdade paranoico. Mulheres começam a descobrir o feminismo e acham que estão paranoicas, porque antes era apenas fácil, e agora elas têm consciência. É uma estratégia de supressão, de quando a pessoa adquire consciência se diz que ela está louca. Ao mesmo tempo, é desconfortável adquirir a consciência de que um mundo que achava que era fixo e terminado não é, na realidade, daquele jeito. Você pode se sentir desconfortável com aquele mundo, duvidar se o que está vendo é sexismo; é um processo de maturação.

Muitas vezes, as mulheres negras transitam em espaços em que podem enxergar a opressão de dentro dos espaços de privilégio, embora ainda estejam na base, com os oprimidos. É o caso das empregadas domésticas no Brasil. Isso facilitaria uma percepção única sobre desigualdades e tomada de consciência? 

A questão é perceber que há perspectivas coletivas, que não são isoladas a mulheres especificas. Você começa a perceber que as suas experiências não são apenas individuais, mas estruturais; isso ocorre quando você percebe que todos que estão na mesma situação tem questões parecidas. E esse tipo de percepção gera a tomada de consciência e a ação. Quando você é uma trabalhadora doméstica, está dentro de um espaço privado no qual percebe certas questões, mas vai embora para sua comunidades e fala com os outros. Quando você se conecta com pessoas que estão experienciando o que você está, mesmo quando não é exatamente igual, você consegue ter empatia, mesmo que seja comparando observações. Então, começa a surgir uma organização política, mesmo que seja apenas a comparação de vivências, criando, assim, um conhecimento que é útil para a tomada de consciência. 

 

Uma seleção de lançamentos para entender o feminismo negro

Pensamento Feminista Negro: Conhecimento, Consciência e a Política de Empoderamento, por Patricia Hill Collins | Compre aqui 

Eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo, por bell hooks | Compre aqui

Pequeno manual antirracista, por Djamila Ribeiro e Alceu Chiesorin Nunes | Compre aqui 

Uma autobiografia, por Angela Davis | Compre aqui 

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