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A quarentena vai mudar a nossa relação com o corpo?

Longe dos olhares da sociedade e diante de uma nova realidade durante a pandemia, mulheres estão ressignificando seus corpos e a maneira que enxergam beleza

Por Isabella Marinelli - Atualizado em 22 jun 2020, 00h07 - Publicado em 7 jun 2020, 10h00

Depois de colocar as crianças para assistir a mais uma aula de ensino à distância, a professora universitária Camila de Araujo tomou fôlego e pegou uma tesoura. Dona de um corte pixie, nome dado aos fios bem curtinhos, sua intenção ia além de só aparar as pontas. Era o momento de dizer adeus à tintura após anos de retoques quinzenais. Aos 40, a paulista nunca tivera outra cor de cabelo senão o castanho. Passou a vida sem luzes ou alterações bruscas. Por isso, foi uma grande mudança olhar-se no espelho e deparar-se com os fios prateados. A decisão de assumir o grisalho não era um mero impulso de quarentena.

“Há muito tempo eu pensava que gostaria de ver o meu cabelo como ele realmente é. O isolamento social foi apenas o estopim”, conta. Camila tinha colorido os fios pela última vez por volta do dia 10 de março, pouco antes do início da reclusão em Portugal, onde passa uma temporada desde setembro de 2019. “Lojas e salões estiveram fechados. Mesmo que eu quisesse, não poderia fazer algo a respeito”, conta. Mas não foram os empecilhos práticos que me levaram a abandonar de vez a coloração. “No Brasil, eu via poucas mulheres com mechas brancas aparentes. Aqui tem mais. Um dia estava no metrô e avistei uma senhora, que talvez fosse mais jovem do que eu. O cabelo dela era todo cacheado e grisalho. Lembro de ter enxergado beleza naquilo”, relata. “Foi um momento muito importante para mim quando finalmente cortei o cabelo e vi sua cor natural. Eu me senti corajosa por ter dado esse passo e me libertado. Meus gêmeos, de 7 anos, estranharam e me questionaram. Expliquei que cinza também é uma cor, e hoje eles me veem com outros olhos”, relata.

Camila não foi a única a aderir a esse movimento. Pipocaram nas redes sociais pessoas que aproveitaram os dias de isolamento para fazer mudanças que antes pareciam mais difíceis. Há quem tenha topado o desafio da transição capilar para se livrar das químicas, experimentado a abstenção da depilação ou até raspado a cabeça. São catarses pessoais que saltam aos olhos como boas experiências diante de um cenário tão complicado. A falta de grandes emoções proporcionadas pelas interações sociais, a possibilidade de curtir a nova versão antes de apresentá-la ao mundo e até, em certa medida, o tédio foram catalisadores de vontades que estavam à beira de se concretizar. Outro motivo talvez seja o aumento da frequência com que nos olhamos no espelho e nas telas eletrônicas – com todas as implicações que surgem daí. Quem não aderiu ao hábito de continuar se vestindo em casa como se fosse sair enxerga imagens fora do comum no próprio reflexo. Mais olheiras? Menos maquiagem? Cabelo natural? O tempo em casa, ainda que não ocioso, somado à ansiedade e ao nervosismo do momento, criou outros códigos de vestimenta, de rotina, assim como novos hábitos alimentares, de comportamento, de higiene.

Cresceram as buscas por receitas, por exercícios e itens de ginástica para uso doméstico. Nos últimos três meses, o Google Trend, ferramenta de monitoramento de pesquisas da maior plataforma do mundo, registrou um aumento de mais de 3 600% na combinação de termos “Como não engordar na quarentena” e de 400% sobre “engordar na quarentena”. Já a frase “como emagrecer na quarentena” teve um crescimento de mais de 2 250% no período avaliado. É claro que não se pes- quisava sobre quarentena antes, mas as questões auferidas com esse dado indicam um sintoma da preocupação com a estética e a saúde relacionada ao tema. Outro destaque vai para a categoria de cuidados que, diferentemente da área anterior, já registrava curiosidade prévia. O interesse por skincare e pele nunca foi tão gran- de quanto em maio de 2020. O primeiro teve um aumento de 614%, enquanto o segundo bateu os 20%. “Como ter a pele perfeita” é uma das pesquisas que mais cresceram nos 30 dias antes de esta matéria ser escrita.

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Na mesma época, um texto de Harling Ross publicado no site Man Repeller, considerado um dos mais influentes do mercado da moda segundo o Business of Fashion, viralizou com o título “I Don’t Know How Else To Say, But… I Miss Feeling Hot”, algo que em tradução livre poderia ser lido como: “Não sei bem como dizer, mas estou com saudade de me sentir gostosa”. Contrariando o que pode parecer à primeira vista, as palavras tomam um sentido muito mais relacionado ao prazer de ter experiências externas que fazem bem para a autoestima, como usar um vestido de tecido gostoso ou trocar olhares em um restaurante. Em contrapartida, a au- tora conta sobre os dias em isolamento na casa dos pais e as mensagens um tanto quanto sem emoção que anda trocando com o noivo. A conclusão é que existem novas prioridades, como manter a saúde em dia e proteger-se do coronavírus, mas ficar de pijama e não dar valor a coisas simples, como montar a mesa do jantar, funciona como gatilho para a baixa autoestima e para uma imagem desleixada de si mesma. O texto foi compartilhado milhares de vezes, com muitos comentários de mulheres dizendo que sentiam as mesmas aflições.

Olhar de Paulina/CLAUDIA

FECHADA PARA BALANÇO
A equação da autoestima na quarentena está longe de ser simples. Gostemos ou não, o lado de fora continua sendo uma grande influência na maneira como nos sentimos. Diante de um cenário inédito, muitos fatores podem influir nessa questão. Além da convivência aumentada com a própria imagem e de certa distância de situações que ajudam a construir a nossa valoração individual (um elogio inesperado, por exemplo), enfrentamos a privação de atividades que contribuem para o bem-estar, como praticar esportes ao ar livre ou poder cortar o cabelo, sem contar o acúmulo de tarefas e a insegurança relacionada a outros setores da vida que foram impactados, como o lado profissional. “Se as mulheres já sofriam com essa sobrecarga, agora elas estão ainda mais pressionadas presas em casa”, alerta a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro Liberdade, Felicidade e Foda-se (Planeta). Há 25 anos, Mirian se dedica aos estudos sociais em torno do universo feminino, que prosseguem com força total durante a pandemia. “Desde sempre, a principal queixa que ouço das minhas fontes de pesquisa é que elas não têm tempo para si mesmas. Em casa, com tantas obrigações, a situação piorou. Que horas essas mulheres vão parar para olhar para si próprias?”, questiona. Para ilustrar a seriedade do tema, o relatório “Tempo de Cuidar”, da Oxfam, mostra que as mulheres são responsáveis por 75% de todo o trabalho de cuidados não remunerados do mundo. Diante disso, a aparência torna-se mais um revés e menos uma prioridade para elas.

“Tem um peso completamente diferente você decidir encarar uma mudança de visual ou essa transformação lhe ser imposta pelas circunstâncias”, defende Mirian. Há uma carga negativa em precisar aceitar os fios brancos, por exemplo, quando não se trata de uma decisão. Pior: diante de tantas sensações, a desconexão entre a imagem real e o que se gostaria de ser é mais um pesar. “Não estamos 100% afastadas dos outros. Estamos nas videoconferências, no WhatsApp, nas lives. É uma falácia dizer que não somos vistas na quarentena e, por isso, seria mais fácil enfrentar a situação”, argumenta. Ela é exemplo da própria fala. Sem retocar a coloração  há dias, já notou a raiz grisalha despontando. Passou a adotar lenços no cabelo para não ter que lidar com essa questão no momento. Seria hipocrisia dizer que os incômodos são futilidades. A socialização das mulheres impõe nas entrelinhas uma lista de requisitos a ser cumpridos para que elas sejam aceitas. “No nosso país, o corpo feminino é um capital social. Ele tem valor e precisa seguir uma série de padrões. Deve ser magro, bonito e não pode ser velho. Somos campeãs mundiais em número de cirurgias plásticas e procedimentos estéticos. Nosso mercado é um dos mais competitivos na venda de tintura para cabelo. Esses são sintomas do comportamento da brasileira em relação à beleza”, explica Mirian. 

É lógico que já avançamos no tema. A quarta onda feminista, caracterizada pela penetração dos ideais do movimento por meio da internet e das redes sociais, espalhou ideias importantíssimas relacionadas à discussão de corpo, gênero e performance de feminilidade. Movimentos como o body positive – que defende enxergar o próprio corpo com olhar amoroso, para além do que é considerado dentro do padrão – e o plus size, de valorização dos corpos gordos, foram funda- mentais para uma nova construção do belo. Mas não é fácil se desapegar de valores tão arraigados. “O sentimento de autoestima não depende de um convencimento racional e lógico, não é controlável pelo raciocínio. Pelo contrário, como outros sentimentos, é inconsciente”, explica a psiquiatra Sonia Eva Tucherman, autora do livro Autoestima (Blucher). A missão pode ficar ainda mais difícil para quem sente necessidade de ir ao salão de cabeleireiro, à academia ou seguir uma dieta cheia de regras, mas não tem acesso ou não dá conta agora. 

Olhar de Paulina/CLAUDIA

AS NOVAS FRONTEIRAS DA AUTOCONFIANÇA
Essa é mais uma cobrança constante que também está deixando as pessoas ansiosas. Pesquisas científicas indicam que repetir afirmações positivas nas quais você não acredita – ou nem sempre acredita – pode ser um gatilho para emoções ruins e ansiedade. Isso significa que dizer “Estou amando o corpo que tenho hoje” ou “Estou me sentindo muito bem!”, quando não é verdade faz a mente criar mais estresse, culpa e ressentimento ligados ao assunto. É nesse contexto que pode ganhar destaque o body neutrality, movimento que já caminhava há alguns anos. Ele prega o que o nome entrega. É a capacidade de olhar o próprio corpo com neutralidade, sem amá-lo nem odiá-lo, mas compreendendo que ele é um instrumento para outros tipos de realizações pessoais – como ser bem sucedida numa profissão, viver sensações gostosas, abraçar, beijar.

A expressão “neutralidade corporal” começou a aparecer nos blogs e na imprensa por volta de 2015, mas ganhou popularidade quando Anne Poirier, da universidade americana Colby-Sawyer, iniciou um programa sobre o assunto no spa Green Mountain, da Fox Run, em meados 2016. O objetivo dela era demonstrar que ser apaixonada pelo próprio corpo nem sempre é realista ou possível para todo mundo – por inumeráveis motivos sociais ou pessoais. Segundo ela, é perfeitamente aceitável enxergar o corpo como uma ferramenta de realização sem pensar sobre a aparência dele o tempo inteiro.

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No livro Face Value: The Hidden Ways Beauty Shapes Women’s Lives (O valor do rosto: maneiras secretas que a beleza molda a vida das mulheres, em tradução livre), não disponível em português, a autora retoma um dos pontos mais importantes do conceito. Ela defende que, quando você diz a uma mulher que ela deve se sentir bem com a sua forma, está pedindo que regule seu corpo e também suas emoções. Anne relata que pôde comprovar a eficácia dessa linha de pensamento ao se dar conta de que, nos momentos em que esteve mais feliz durante a vida, não se preocupou com a aparência. A intenção de tirar o peso do amor a todo custo em relação ao corpo nada tem a ver com falta de cuidado ou de amor-próprio, muito pelo contrário. A ideia é que ele sirva como fonte de prazeres variados, tanto relacionados à saúde quanto às vivências.

Uma divisão da autoestima em vários pilares foi a saída encontrada pela consultora de imagem Ana Paula Pedras, 32 anos, para superar uma fase ruim. Depois de ver seus projetos profissionais suspensos por causa da pandemia, a mineira sentiu a tristeza bater. O quadro se agravou com a impossibilidade de praticar exercícios físicos ao ar livre, que é uma de suas grandes paixões, além da falta de acesso a outros mecanismos para cuidar do corpo.

“Entrei num processo de resgatar hábitos de autocuidado em casa para compensar a privação da circulação fora. Voltei a testar receitas caseiras para o cabelo e a fazer as minhas unhas sozinha. Esses rituais, que incluem sempre uma boa música, se transformaram no meu momento de autoconhecimento, porque desligo o celular e passo a me olhar”, relata.

É assim que Ana Paula tem conseguido levar esses dias com mais serenidade. “Entendi que a autoestima é construída assentada em nossas qualidades e em não ter medo de falar sobre elas. Deve ser pautada pelo autoconhecimento. Isso permite que às vezes eu não me sinta bonita, sem que a crença no meu valor seja abalada. A mulher é cobrada para enxergar o autocontrole sobre o corpo como autocuidado. Quando consegue, é sinônimo de sucesso. Se me descuido, engordo, e isso não é bom. Logo não se pode perder o controle. Quando entendemos os muitos papéis que desempenhamos e conseguimos nos enxergar como capazes, inteligentes, boa filha, boa mãe, a importância da autoimagem em termos de beleza é diluída e perde espaço”, argumenta.

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