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“Pieces of a Woman”, novo filme da Netflix, aborda luto após morte de bebê

Para protagonizar o drama, cuja história foi inspirada na experiência pessoal da roteirista, Vanessa Kirby assistiu a um parto: "Foi transformador"

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 8 jan 2021, 14h08 - Publicado em 8 jan 2021, 14h00

Esse texto precisa começar com um aviso. Pieces of a Woman (partes de uma mulher, em tradução livre) conta a história de um parto com o resultado mais trágico de todos: a morte do bebê. Caso esse seja um gatilho para você, leitora ou leitor, recomendo cautela para continuar essas linhas e também para assistir a trama.

O filme devia ter pouco menos de 30 minutos quando precisei pausar pela primeira vez. Vanessa Kirby (você vai se lembrar dela como a princesa Margaret na primeira fase de The Crown, também da Netflix) tem atuação primorosa como Martha e é impossível resistir ao seu sofrimento.

Mesmo quem nunca passou por um trabalho de parto sente a intensidade do momento, a mistura de emoções. A insegurança é substituída pelo medo, depois pela dor. Contudo, nesse final, não há felicidade, a recompensa por tanto esforço. Em minutos, o bebê é retirado de seus braços, sem vida.

Martha tenta retomar o trabalho, a rotina enquanto convive com as consequências fisiológicas do parto, como vazamento de leite dos seios. Mas nada pode ser pior do que a confusão nas tentativas de demonstração de empatia dos outros. São olhares constrangidos, palavras absolutamente sem sentido, busca por justificativas para uma tragédia tão profunda – um retrato fiel do “mundo real”.

“Para nós, é uma história muito importante, porque sofremos com um aborto. Não foi nada parecido com o de Martha. Mas o filme se tornou um meio falarmos sobre esse assunto que não teríamos abordado mesmo entre nós”, explica a roteirista húngara Kata Wéber, casada com o diretor do filme, Kornél Mundruczó.

“Kornél encontrou minhas anotações, eram algumas linhas de diálogo perdidas. Ele me encorajou a transformar em um roteiro, então foi um projeto muito compartilhado desde o início”, completou Kata.

Um homem, o diretor do filme, instrui duas mulheres, uma jovem loira e uma senhora idosa.
Foto Reprodução/Netflix

O casal falou a CLAUDIA sobre a experiência de transformar uma dolorosa vivência pessoal em algo tão público. “Foi um processo emocional e escuro, eu não queria compartilhar antes de terminar. Mas se tornou uma terapia. E eu me senti como se fosse a primeira vez que uma mulher falasse sobre isso, porque tantas outras vieram me procurar para contar suas histórias. Gente que eu nem imaginava dividindo o que aconteceu com elas, experiências únicas e solitárias”, fala Kata. “Foi quando entendi que não estávamos sozinhos. Foi chocante quantas pessoas nos procuraram. É um tabu ainda”, disse Kornél.

No filme, Martha e Sean lidam com a dor de formas muito diferentes. Ele está aberto ao processo do luto, quer falar sobre o assunto, sofrer e passar pelas etapas. Martha se fecha completamente, tentando ignorar o que aconteceu; ela evita as cerimônias de luto contra a vontade do marido e da mãe. “Eu queria mostrar que há reações distintas. Martha acha que é uma traição ir adiante, que ela ama a bebê demais para deixá-la ir”, explica Kata.

Uma mulher loira usa blusa de gola alta bege e casaco vermelho
Foto Reprodução/Netflix

Para Vanessa, o papel era impossível de recusar, mas ela temia não entregar a plenitude do que é um trabalho de parto por não ter tido a experiência pessoalmente. Mergulhou num processo que ela descreve como absolutamente transformador na vida dela.

“É um plano sequência, são mais de 20 minutos seguidos de um parto sem cortes, sem edição. E eu não queria que ficasse com cara de uma versão cinematográfica”, conta. Ela assistiu todos os documentários disponíveis no assunto, mas achou que eram versões muito “limpas”. “É a experiência mais comum da humanidade e não vemos com frequência. Há muitas mortes nos filmes, mas poucos nascimentos”, aponta.

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Uma mulher loira está deitada dentro de uma banheira, olhando para um homem, do lado de fora
Foto Reprodução/Netflix

O próximo passo foi encontrar um obstetra que a ajudasse na autorização para assistir um parto, que ela descreveu como uma experiência imensa. “Eu não teria conseguido sem ver aquilo. O que eu a vi fazer é uma coisa muito feminina, ela se entregou ao seu corpo, é algo animalesco mesmo. O corpo tem sabedoria e inteligência para saber o que fazer sem comandos conscientes da mente”, diz Vanessa. “Foi o maior ato de coragem que eu já testemunhei.”

As lições aprendidas durante a produção de Pieces of a Woman seguem com Vanessa, apesar das gravações terem começado em 2019. “É uma jornada em que uma contração causa uma dor muito intensa e você tem que respirar, então vem uma expansão e é hora de relaxar. Isso é se entregar à dor, permitir que ela esteja ali. Passei a pensar nisso no dia a dia quando estou vivenciando situações difíceis”, explica.

A terceira personagem-chave em Pieces of a Woman é a mãe de Martha, Elizabeth. Interpretada pela veterana Ellen Burstyn, a personagem causa raiva na maior parte das cenas – e muita empatia no final. Elizabeth é uma sobrevivente. Sua mãe, judia, sofreu durante o nazismo e precisou esconder sua bebê para que ela sobrevivesse. Chegou a ouvir do médico que deveria jogá-la fora.

Uma senhora com cabelos brancos usa blusa de lã marrom e cachecol verde
Foto Reprodução/Netflix

É difícil para ela, portanto, compreender que a neta não sobreviveu. “Ela é bem intencionada, mas ela não escuta a filha. Ela acha que a filha está passando pelo luto de forma errada e quer impor o que acha correto. Isso é comum entre mães”, fala Ellen.

Elizabeth não se dá bem com Sean e não esconde isso. Ela chega a oferecer dinheiro para o genro ir embora. A sensação é que ela ainda trata Martha como uma criança, tentando evitar que ela viva qualquer tipo de dor. Nesse processo, força um embate nos tribunais. “Elizabeth quer Justiça para mostrar para Martha que a culpa não foi dela, que ela não fez nada de errado. Ela acredita que culpar a parteira vai aliviar os ombros de Martha”, explica a atriz de 88 anos.

Duas mulheres sentadas olham uma para outra. Uma delas está grávida e com a mão na boca.
Foto Reprodução/Netflix

Pieces of a Woman tem muitas camadas – tão subjetivas que vale a pena ver o filme mais do que uma vez. Há sutilezas cenográficas; causa sensações diversas, estimulando até olfato e paladar; retrata os imbróglios provocados pelo dinheiro quando este é supervalorizado.

Em sua estreia, no Festival de Veneza de 2020, já conquistou troféus e consagrou Vanessa. O filme tem grandes chances de indicações ao Oscar, incluindo prêmios pela atuação de Vanessa e de Ellen, direção e roteiro. Está disponível na Netflix.

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