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Com Dominique Fishback, filme sobre líder dos Panteras Negras estreia hoje

A atriz fala a CLAUDIA sobre participar de uma trama com temática tão potente e de como a luta antirracista reverbera até hoje

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 25 fev 2021, 16h10 - Publicado em 25 fev 2021, 16h00

A década de 1960 foi marcante para o movimento negro nos Estados Unidos. Ganharam espaço líderes como Martin Luther King e Malcolm X, que se contrapunham ideologicamente sobre a resposta ao racismo – um defendia a necessidade da violência enquanto outro pregava atos não-violentos.

Um pouco mais de um ano após a morte de Malcolm X, era fundado outro movimento, o dos Panteras Negras. O partido, de outubro de 1966, pregava a resistência armada e fazia patrulhas para proteger cidadãos negros da polícia.

Não precisa ser especialista em História para adivinhar que logo as tensões ficaram acirradas e criou-se um embate direto entre a polícia (e as forças nacionais acima dela, como o FBI) e os Panteras. O grupo reunia pensadores, como a feminista Angela Davis, e questionava não só as estruturas sociais que mantinham negros oprimidos mas também o capitalismo, sistema que permitia o mecanismo.

Um dos jovens que ganhou destaque entre os Panteras foi Fred Hampton, que aos 20 anos assumiu a diretoria do partido em Illinois. Fred se descrevia como um revolucionário. Fervoroso na defesa de suas crenças, valores e direitos, atraía atenção e ajudava no crescimento dos Panteras.

Sua trajetória é retratada em Judas e o Messias Negro, filme que chega hoje aos cinemas. Interpretado por Daniel Kaluuya (você vai se lembrar dele de Corra!), o ativista ganha um retrato que vai além dos momentos no púlpito ou à frente das pequenas multidões que juntava. O diretor Shaka King, novato em Hollywood, se preocupou em mostrar também a faceta pessoal de Fred, que se envolve com a sensível Deborah Johnson, papel de Dominique Fishback.

Grávida de Fred, Dominique propõe ao parceiro reflexões que traziam seu olhar do macro (capitalismo e Estados Unidos) para o micro: o que será da vida desse bebê, filho de Fred Hampton, um ativista que bate de frente com as forças policiais americanas, ao nascer? Fred foi assassinado pelo FBI em 1969, aos 21 anos.

CLAUDIA conversou com Dominique, atriz americana, sobre seu papel e também sobre como a trama se relaciona com as lutas antirracistas atuais.

O que mais atraiu você quando apresentaram o projeto do filme? 

Eu já conhecia os Panteras Negras. Não aprendi sobre eles na escola, só na faculdade. Conheci a história de Fred Hampton quando me juntei ao movimento estudantil negro. Eu me senti muito inspirada por seus discursos e pelo fato de sua mulher, grávida, ter se posicionado em frente à ele, como um escudo, para protegê-lo na noite do ataque policial que o matou. Eu pensei: ‘Wow, como se consegue esse tipo de amor?”.

Um pouco antes de me chamaram para o filme, eu estava escrevendo um roteiro chamado Subverted, que é sobre a destruição da identidade negra nos Estados Unidos. Como é um monólogo para eu mesma interpretar, eu estava tentando me entender e também as circunstâncias em que estou inserida.

Também estava escrevendo uma história chamada Gwendolyn e Sekou, um tipo de Romeu e Julieta encontra os Panteras Negras. Julieta é meu papel dos sonhos, mas eu não ia ficar esperando alguém me chamar pra fazer a personagem. Para escrever esse roteiro, eu li A Taste of Power, livro da Elaine Brown, que foi dos Panteras Negras. Isso me deu outra perspectiva do movimento.

Nessa época, ouvi falar que Shaka King tinha escrito um roteiro com Will Berson sobre Fred Hampton e que ele gostaria que eu interpretasse Deborah Johnson, viúva de Fred. Eu encontrei Shaka num café e ele me falou: ‘O papel é seu. Leia o roteiro e me diz o que você pensa’. Eu li e mandei um e-mail pra ele com duas sugestões.

Foto do filme Judas e o Messias Negros. Um homem sentado ao lado de uma mulher passa o braço sobre seu pescoço
Foto/Reprodução

Quais foram as suas sugestões? 

Uma das primeiras coisas que Deborah fala para Fred é: ‘Você gosta de poesia?’. Os Panteras era pessoas muito poéticas e eu achava que perderíamos uma grande oportunidade se não incluíssemos poesia nesse filme. Shaka concordou e me pediu para tentar escrever algo.

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Eu quis acrescentar a perspectiva de Deborah sobre o bebê que ela esperava de Fred. O que ela ia gostar que o bebê tivesse do pai? Escrevi sobre essa contradição de querer que o bebê visse a beleza do mundo, mas ainda assim sabendo que existiria muita feiura para pessoas negras nesse mundo.

Por que você acha que ninguém fala sobre Fred nas escolas? 

Muita gente que era viva naquela época também nunca ouviram falar nele. O filme mostra um pouco desse levante de um messias negro e de como ele foi propositadamente enterrado. Ele tinha 21 anos e inspirava as pessoas, unia todos sob um guarda-chuva para combater a opressão. Ele estava muito à frente de seu tempo.

No ano passado, nas marchas por George Floyd e Breonna Taylor, vimos as pessoas se unindo. Mas ele fazia isso naquela época O que ele conseguiria fazer se ainda estivesse aqui? Por que não aprendemos sobre ele? O que querem de nós? Que fiquemos escravizados às construções sociais e crenças sobre limitações e falta de poder ou que as massas se conheçam profundamente e assumam o poder sobre seus próprios destinos? Não aprender sobre Fred nos responde essa pergunta.

Sua personagem é baseada em uma mulher que está viva, tida como heroína por muitos. Você pode conhecê-la? Como foi a construção? 

Eu gosto de fazer um diário para cada uma das minhas personagens, escrever sensações, descrever situações, colocar música. Eu pedi para Shaka deixar isso entrar na história, que Deborah carregasse com ela o diário onde fosse. Ele permitiu. Então eu fui escrevendo e fiz poemas. Quando eles se veem pela primeira vez, quando se beijam. Eu observava muito Daniel, via como ele tomava espaço e isso me influenciava. Eu estava aberta para permitir que essa personagem vivesse esse amor enorme e transformador.

Desde o começo, tentamos contar com o envolvimento da família. Fomos para Chicago encontrá-los e ver se eles achavam que éramos as pessoas certas para a função. Deborah, hoje chamada de Akua Njeri ou Mama Akua, puxou eu e Daniel de canto para fazer muitas perguntas. Ela realmente se importava.

O filho dela e de Fred, Fred Jr., foi muitas vezes ao set. Ela foi algumas vezes e isso me deixava um pouco intimidada, mas foi uma experiência linda.

Como acha que o filme será recebido fora dos Estados Unidos? 

Em 2017, eu fui para a Grécia e conheci alguns refugiados. Fiquei amiga de um deles e ele me perguntou de onde eu era. Respondi que de Nova York e ele falou: “Ah, América”. Aí eu questionei de onde ele era e ele não quis me falar porque achou que eu ficaria com medo. Quando insisti, ele respondeu que era da Síria com as mãos levantadas e uma cara de medo, como se estivesse me dando um susto. Eu falei que não tinha medo.

No ano passado, com a guerra na Síria ainda acontecendo, eu vi um vídeo de sírios fazendo um quadro com o rosto de George Floyd. Tinha a frase ‘Eu não consigo respirar’. Achei profundo porque mostrava que algumas questões são relativas ao mundo todo, que estamos interconectados. E isso era muito o espírito de Fred. Se estamos todos sob o mesmo sistema opressivo, como saímos dele? Temos que nos preocupar uns com os outros e não nos separar.

Espero que as pessoas vejam que os Estados Unidos está começando a lidar com coisas que o próprio governo faz aos cidadãos, às crianças. Fred tinha 21 anos e Deborah, 19. Grávida, ela usou seu corpo para proteger o dele. Três semanas depois, apesar do trauma, ela deu à luz um menino que não tem pai porque os Estados Unidos não queria mudar e nem reconhecer seus erros.

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