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Série “Cidade Invisível”, da Netflix, moderniza folclores brasileiros

A trama de mistério envolvente mistura fantasia e realidade. As atrizes Alessandra Negrini e Jéssica Córes falam a CLAUDIA sobre a produção

Por Maria Clara Serpa Atualizado em 15 jan 2021, 18h11 - Publicado em 19 jan 2021, 11h00

Nas noites de lua cheia, um homem bonito e elegante, vestindo terno e chapéu brancos, aparece nas pequenas vilas e povoados às margens do Rio Amazonas. Com seu jeito galanteador, seduz as jovens solteiras das comunidades. Apaixonadas, elas aceitam acompanhá-lo em um passeio pelo rio e acabam engravidando. No dia seguinte, o rapaz desaparece e ninguém nunca mais o vê.

A maioria dos brasileiros conhece essa história como a lenda do boto cor-de-rosa, uma das mais famosas do nosso folclore. Porém, em outros lugares do mundo, poucas pessoas saberiam identificar o mito. Com a ideia de valorizar nossa cultura e apresentá-la internacionalmente, Carlos Saldanha criou o roteiro de Cidade Invisível, nova série da Netflix, que será lançada em 5 de fevereiro.

Pela primeira vez, o diretor mundialmente conhecido pelas animações A Era do Gelo, Rio e O Touro Ferdinando – indicado ao Oscar de melhor animação – se aventura em uma produção live-action. O enredo, inspirado em uma história dos escritores Carolina Munhóz e Raphael Draccon, conhecidos pela série O Escolhido, também da Netflix, e por livros best-sellers de ficção e fantasia, ganhou vida com um elenco de peso.

“Saldanha é uma pessoa adorável e de um talento muito especial. Tenho confiança na intuição dele. Parece uma criança com sua alegria e empolgação. É um garoto apaixonado. A minha impressão é de que vai ser assim para sempre, e é daí que vem o seu gênio criativo. Foi muito bonito trabalhar com ele”, conta Alessandra Negrini, que interpreta Inês, uma mulher poderosa e cheia de mistérios, dona de uma boate no Rio de Janeiro.

Nos cinemas e em diversas plataformas de streaming, é comum encontrar filmes e séries que contem mitos de outras culturas com elementos e referências mais atuais. Como brasileiros, especialmente os que vivem nas grandes cidades, acabamos consumindo mais essas tradições do que o nosso próprio folclore, que é muito rico e mistura elementos da cultura indígena, africana e europeia.

Em Cidade Invisível, Saldanha e os diretores Julia Jordão e Luis Carone usam figuras às quais somos apresentados quando crianças, como o boto, Saci-pererê, Cuca e Iara, em uma releitura moderna. “A Netflix tem grande alcance, é motivo de orgulho poder falar da gente, compartilhar a nossa cultura com o mundo. Isso nos fortalece. E é uma chance de muitos brasileiros aprenderem mais, valorizarem riqueza e diversidade que temos”, afirma Alessandra.

“O brasileiro é criativo e forte, vamos sempre dar um jeito de produzir arte, seja como for”

Alessandra Negrini

 

Na trama, contada em sete capítulos, o protagonista Eric, interpretado por Marco Pigossi, perde a esposa em um incêndio durante uma festa junina no Rio de Janeiro. Para todos os presentes, o ocorrido não passa de um acidente, afinal, as queimadas nas matas são comuns na época. O fiscal da Polícia Ambiental, porém, não se contenta com essa resposta e resolve investigar o caso da mulher sozinho.

Poucos dias depois, um boto cor-de-rosa, animal de água doce típico da região Norte, aparece morto em uma praia carioca. Para Eric, os dois acontecimentos estão ligados. Contrariando a família, os amigos e seu chefe, ele começa a descobrir o “mundo paralelo” dos seres mitológicos brasileiros, que vivem entre o universo místico e humano.

Duas mulheres posam para a câmera. Uma, branca, com o cabelo castanho e solto, usa um vestido fluido preto florido. Ela está com as mãos na cintura. A outra, negra, com o cabelo preso em duas tranças, está com um vestido verde.

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Como a intenção dos criadores era trazer o folclore de maneira mais moderna, não espere representações literais dos personagens. O Saci, por exemplo, é conhecido como Isaac, usa bandana em vez do gorro, e tem uma prótese na perna, passando despercebido pelos humanos.

Famosa por seu papel como a modelo Lyris na série Verdades Secretas, sucesso da Rede Globo, Jéssica Córes, 30 anos, interpreta Camila, um dos seres mitológicos que resolve usar seu poder para ajudar Eric. “Eu sempre quis atuar nesse mundo lúdico, pois há, fora o lado heroico, outro divertido, de pregar peças”, conta a carioca.

Criar Camila demandou um trabalho corporal intenso. Jéssica recebeu aulas de natação e de dança oriental. “Por ser uma personagem muito sedutora, Camila despertou uma faceta mais empoderada, forte e confiante em mim”, afirma. Para ela, é bom observar também maior representatividade do elenco. “Não é uma superação, afinal, há outras como eu na indústria. Porém, é importante lembrar sempre que, se estamos aqui, é porque outros abriram esse caminho. É um sentimento de gratidão”, afirma.

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Para Alessandra, as plataformas por assinatura podem representar o futuro da cultura no país e são uma forte ferramenta para lutar contra o retrocesso que a área vive. “O brasileiro é criativo e forte, vamos sempre dar um jeito de produzir arte, seja como for. O importante é que a gente tenha sempre um espelho para se reconhecer, se amar, se pensar e se enxergar como país. Se o streaming nos dá isso e valoriza as produções nacionais, acredito que seja uma das formas de nos fortalecer daqui em diante”, explica.

Jéssica concorda. Para ela, estamos passando por um momento muito crítico na área. “Fico feliz de ver que as produções nacionais estão ganhando mais força e sendo estimuladas por empresas como a Netflix”, explica a atriz, que deixou sua casa, no Rio de Janeiro, por três meses para as gravações, que aconteceram em São Paulo e Ubatuba, litoral norte do estado paulista, em 2019.

Como nosso folclore está intimamente ligado à fauna e flora nacionais, seria quase impossível não abordar assuntos relacionados à natureza na série. Muitas cenas foram gravadas em matas e, nesses momentos, Cidade Invisível fala sobre a questão da preservação ambiental, outro assunto completamente negligenciado pelas autoridades nos últimos anos.

“Não tinha como não falarmos disso. Tratamos das queimadas e do desmatamento de forma realista, mas eu prefiro acreditar que, em breve, a situação vai melhorar. Abordar esse assunto atual no cinema e nas séries é uma maneira de amplificar as discussões e torná-las mais fáceis para todos poderem opinar. Espero que, nas próximas temporadas, aprofundemos ainda mais esses debates”, finaliza Jéssica.

 

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