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Stéphanie Habrich é empreendedora, apaixonada pelo mundo da educação e do jornalismo infantojuvenil. Fundadora do Joca, único jornal para jovens e crianças do Brasil, ela vai abordar aqui na coluna temas que interligam o contato com as notícias desde a infância e a educação, sempre pensando em como podemos ajudar nossos filhos a serem cidadãos com pensamento crítico.
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O caminho de Santiago de Compostela

A colunista Stéphanie Habrich conta sobre o percurso, que fez em julho, e compartilha algumas reflexões que teve ao longo do trajeto

Por Stéphanie Habrich Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 26 set 2022, 14h54 - Publicado em 19 set 2022, 10h25

Em julho, decidi me aventurar em algo que sempre quis fazer, mas que me parecia um acontecimento muito distante: o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Uma amiga que faz o percurso todos os anos há uma década – sem nunca pular um ano, exceto durante o isolamento social –, me convidou para fazê-lo com um grupo de amigas que, até então, eu não conhecia. Assim, decidimos, junto a mais 14 peregrinas, fazer o caminho de 280 quilômetros a pé, ao longo de 11 dias, saindo de Léon, na Espanha, até Santiago de Compostela.  

Fizemos apenas uma parte do caminho francês, que tem mais de 800 km ao todo. Esse é apenas um dos muitos trajetos possíveis que levam a Santiago de Compostela – que podem ser feitos a pé, de bicicleta ou, mais raramente, a cavalo. 

Apesar de muitas pessoas acreditarem que o Caminho de Santiago é um trajeto do século XX (por ter ganhado popularidade nos anos 1980 e passado a ser considerado uma das principais rotas cristãs do mundo), ele é, na verdade, feito há mais de mil anos. As peregrinações datam da descoberta do suposto sepulcro do discípulo de Jesus, Tiago Maior, na Galícia, século IX. Desde então, cada viajante fez seu próprio caminho, que vai da porta de sua casa até Compostela. No entanto, com o passar dos anos, algumas rotas e vias foram se tornando mais populares e transitadas, por motivos que vão desde segurança até facilidade de abastecimento. 

Em 1993, a Unesco incluiu o Caminho de Santiago na lista de patrimônios mundiais e, para colocar ordem no caos de tantos trajetos distintos, decidiu conceder essa distinção ao Caminho Francês, o mais transitado desde a Antiguidade – que, segundo Oficina de Peregrinos de Santiago de Compostela, foi feito por 55% dos andarilhos em 2021. 

Apesar de ser uma peregrinação a princípio católica, nem todos que fazem essa jornada optam pela caminhada por motivos religiosos. O canal oficial aponta que 40% dos peregrinos que completaram o caminho não o fizeram só por essa razão, enquanto 20% foram motivados por um caráter apenas espiritual – por ser uma oportunidade de autoconhecimento, gratidão e reflexão.

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Ainda de acordo com a Oficina, o Brasil ocupa o 13° lugar na lista de nacionalidades de peregrinos que chegaram à Praça do Obradoiro, em frente à catedral de Santiago de Compostela, em 2021. O número, porém, varia de acordo com cada ano. Em 2017, por exemplo, os brasileiros chegaram a ocupar a 9ª posição. 

A sensação de caminhar ao longo de um percurso que é traçado por peregrinos há mais de mil anos é, sem dúvidas, uma oportunidade única que emana uma energia sem igual. Caminhar distâncias que jamais imaginei, colocar meu corpo, mente e espírito à prova, conhecer gente do mundo todo e a mim mesma foram conquistas que eu não teria se não passasse por essa experiência. Acho que mesmo eu duvidaria se não tivesse feito o percurso, mas existe uma magia durante o trajeto, e coisas incríveis acontecem para quem está aberto a recebê-las. O caminho está cheio de histórias surreais e as reflexões e a energia que sentimos é muito particular, do momento em que estamos vivendo e das pessoas que nos acompanham. Momentos especiais surgem a todo instante. 

Mesmo na minha única experiência, senti que cada pedaço do caminho desperta emoções extremamente diferentes entre si. Em parte dos 280 quilômetros, fui acompanhada de conversas incríveis, com cada uma do nosso grupo, que pude conhecer intimamente dia após dia. Cada uma delas me trouxe uma inspiração, exemplos que levo para a vida e novos aprendizados e reflexões. A magia de ter conhecido cada uma das 15 mulheres do nosso grupo nesta caminhada é inesquecível e muito profunda. Cada mulher tinha o seu motivo para estar lá e foi um presente ouvir todas e ser ouvida por elas. 

Fiz confissões e ouvi confissões. A troca de energia foi reconfortante e o apoio moral para a conclusão de cada trecho, junto com o cuidado que tínhamos umas com as outras, foi essencial. Isso porque, ao longo do caminho, houve momentos em que nossas feridas psicológicas eram abertas e nos sentíamos machucadas ou fragilizadas emocionalmente. O laço que se cria para a vida é inabalável. São verdadeiras conexões de alma. 

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Por outro lado, em outros momentos, me vi em uma jornada espiritual, tentando me reconectar comigo mesma ao focar no meu próprio caminho – seja ouvindo músicas ou podcasts, seja focando nos meus pensamentos. E, de tempos em tempos, objetos históricos me lembravam que, assim como eu, há mais de mil anos as pessoas fazem esse percurso para se reconectar com o seu interior e com seus propósitos de vida. É um encontro consigo mesmo. Não me lembro onde li a seguinte frase, que me faz todo o sentido hoje: “No trajeto, o corpo cansa, a cabeça amansa e o coração se acalma”. 

Uma jornada pessoal-coletiva

Apesar de cada peregrino experimentar uma viagem extremamente única e, em diversos momentos, introspectiva, a solidão é um sentimento que não faz parte do caminho de Compostela. E isso, para mim, vai além do fato de andarmos juntos e em sintonia. Todos que se cruzam desejam “buen camino” (ou bom caminho), que significa um desejo de sorte tanto para a jornada de Santiago quanto para a da vida. São apenas duas palavras, mas elas carregam um enorme significado, repleto de sentimentos, e que só quem está há dias caminhando entende. São esses sentimentos que dão forças para seguir em frente quando o cansaço bate, te enchendo de pertencimento. Ninguém está sozinho no caminho. 

Além disso, a solidariedade é marcante. Em diversas vezes, enquanto estávamos entre duas cidades grandes, passamos por trechos em que não havia nenhuma loja ou mercado por perto. Mas, sempre que eu menos esperava, me deparava com uma barraquinha de pessoas que, muitas vezes, largaram empregos e decidiram mudar de vida. Um deles, por exemplo, era um espanhol e ex-empresário que deixou seu trabalho para montar uma tenda e oferecer sucos, frutas e água para os peregrinos. Em troca, as pessoas davam uma contribuição financeira simbólica antes de seguir viagem. 

Simbologias que acompanham os peregrinos

Cada um tem a sua jornada, assim como cada um tem sua vida e é responsável por cada escolha feita. O caminho é cheio de metáforas. Vale prestar atenção em como lidamos com as dificuldades que aparecem durante o trajeto, pois acredito que a reação aos problemas na “vida real” é muito similar. 

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Apesar de não ter conhecido ninguém no caminho que reclamava, acredito que, tanto na vida quanto na jornada de Compostela, sempre existem pessoas que apenas reclamam e procuram desculpas – seja porque está chovendo, porque os pés doem ou mesmo porque o percurso do dia é chato. Por outro lado, existem aqueles que se superam todos os dias e enxergam oportunidades a cada passo dado, mesmo quando as pernas pedem um descanso. Nesses casos, cada sorriso compartilhado é capaz de mudar um dia em que se acordou de mau humor, de modo que os sentimentos desnecessários vão sendo deixados para trás.

Também acredito que exista um terceiro e um quarto grupo: o dos que estudam o trajeto em todos os seus detalhes e os que apenas vão para onde o caminho puder levá-los. Mas, independentemente de qual categoria os peregrinos se encaixam, cada um tem o seu caminho e sua história de vida. 

Também pude comprovar que a maior força que move as pessoas não está nas pernas, mas na mente e no coração. Quando comecei o caminho, na cidade de León, minha amiga disse para pegar uma pedra que simbolizaria tudo o que eu gostaria de deixar para trás ao longo da jornada, representando os pesos desnecessários que carregamos em nossas vidas. No terceiro dia, a gente chegaria à Cruz de Ferro, local em que depositaria a pedra. Me emocionei muito nos dois primeiros dias antes de chegar até lá e largar de vez o que eu queria abandonar. Foi uma etapa muito simbólica e marcante. A sensação libertadora de me desfazer da pedra e, em seguida, entrar em uma floresta cheia de flores e borboletas, pareceu algo surreal. É simbólico – eu sei – mas a energia das pessoas e do local dá a sensação de estar dentro de uma realidade paralela.

seta santiago de compostela
Setas amarelas começaram a ser pintadas em 1980. (Fernando Trabanco Fotografía/Getty Images)

O caminho da Compostela também é marcado por outras simbologias, como a das setas amarelas. Estas, que se transformaram em um ícone do trajeto, começaram a ser pintadas na década de 1980 —quando o Caminho de Santiago ainda era um grande desconhecido e quase não havia estudos sobre essa tradição— pelos dois grandes promotores da peregrinação: Elías Valiña, padre de O Cebreiro (primeira localidade galega do Caminho Francês); e Andrés Muñoz, presidente da Associação de Amigos do Caminho de Navarra, que dedicou boa parte da vida à melhoria e à conservação do Caminho Francês e da Via da Prata. Desse modo, é impossível se perder ao longo do trajeto, já que as setas amarelas estão presentes em todo tipo de bifurcação. 

 

Também tradicional, a espada de Santiago é outro marco da história da Compostela. Usado por guardas que protegiam os peregrinos em momentos em que era perigoso fazer o caminho por conta de roubos e assaltos, atualmente esse símbolo é utilizado até mesmo na torta de Santiago, um dos doces mais famosos da cidade. 

Por fim, todo mundo que faz o caminho carrega uma concha pendurada em sua mochila que possui várias linhas que se juntam, figura que simboliza os mais diversos jeitos de chegar a Santiago. Antigamente, era costume que os peregrinos continuassem mais um trecho de Santiago até Finisterra, na costa, e pegassem conchas da praia para provar que fizeram o trajeto completo.

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conchas santiago de compostela
Antigamente, era costume que os peregrinos continuassem até Finisterra, na costa, e pegassem conchas da praia para provar que fizeram o trajeto completo. (© Santiago Urquijo/Getty Images)

Cada dia andando é um novo desafio e uma das grandes lições que o caminho ensina é viver um por vez, no presente. E, assim, podemos aproveitar o caminho em toda a sua complexidade – cada passo, cada paisagem e cada sensação. Quem anda mais, quem vai mais rápido ou quem chega primeiro não são fatores importantes. Afinal, o caminho não é uma corrida, e o mais importante é a nossa jornada interior.

Por mais que eu tenha sido puxada para a realidade assim que pisei em solo brasileiro, todas as reflexões que eu tive ao longo do caminho me mudaram e, de alguma maneira, me deixaram mais completa. A experiência de andar pelo caminho deixa marcas profundas. Minha amiga me disse que, uma vez peregrino, se é peregrino para sempre, porque ao finalizar o trajeto, os aprendizados devem ser aplicados no caminho de nossas vidas! Com certeza farei esta jornada mais algumas vezes em minha vida! Dedico esse texto às novas 15 irmãs que o caminho me deu.

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