A tristeza do entardecer

Estamos em um país sem noção, o que piora o peso do isolamento

Cai a noite e eu começo a dar defeito. Essa quarentena tem causado danos aparentemente inocentes, mas lá no fundo acho que terão consequências maiores.

Uma lágrima escorre. Uma lembrança atazana. Eu piro. Simples assim. Mas faço a egípcia em casa para não contaminar as filhas e o marido que – ou são grandes atores disfarçando seus gargalos de melancolia – ou convivem com menos alarde com esse vazio imenso.

Eu me pego olhando quadros, fotos, o ambiente da sala. Flashes de outrora brotam na minha mente e lembro quando tudo era normal. Era mesmo? Já não sei mais o que vivi, o que vivo e viverei. Embaralho o tempo e embaço a vista com memórias. Foi em 89? Meu pai ainda estava vivo? Eu era casada? O cabelo ruivo? E assim, nesta dúvida imensa do meu existir, assisti a live com Mandetta. Isso sim que era ministro. O songo-mongo não me passa nenhuma confiança. Agora a notícia da reabertura das academias e cabelereiros. Who cares? Um mundo de cadáveres e eu vou me preocupar com bíceps ou escova de caviar? Estamos em um país sem noção, o que piora o peso do isolamento. 

Caminhamos para o terceiro mês entre Netflix e Rescue. Assisto a tantos roteiros que misturo Michelle Obama com Wagner Moura. Ouço minisséries em espanhol, russo e inglês. Agora encasquetei com uma francesa maravilhosa. Posso dizer que, mesmo criando uma rotina de doméstica, leitura, cuidados pessoais, passeios com o cão no quarteirão, tá puxado. Mas como dizem, vai passar… tem que passar né! 

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