“Queria morrer, mas não tinha coragem de me matar”, diz Esmeralda

Com uma vida marcada pela violência nas suas mais perversas formas, a cantora Esmeralda Ortiz relata como os jovens são tratados pelo sistema penitenciário

“Ela dizia que não gostava de mim, que queria ter me abortado antes de eu nascer”, relembra Esmeralda Ortiz da relação com a mãe, Maria Aparecida do Carmo Ortiz. A frase pertence à autobiografia “Esmeralda: Por que não dancei”, lançada em 2000 pela editora Senac. Na obra, a autora recorda os percalços da própria trajetória — da infância à vida adulta, passando pela adolescência.

Nascida em 4 de agosto de 1979 no bairro de Vila Penteado, Zona Norte de São Paulo, a escritora, hoje formada em Jornalismo pela Faculdade Anhembi Morumbi, ganhou este nome como homenagem à avó — uma das poucas pessoas que a defendia das agressões maternas. Alcoólatra, Maria era mãe-sólo de sete filhos, dos quais sobreviveram apenas três: Esmeralda, Claudinei e Giselda. Em um barraco insalubre, todos dividiam o mesmo colchão, que permanecia encharcado de urina, resultado da pouca idade das crianças e do vício da mãe. Não havia chuveiro, geladeira, privada ou televisão — apenas um armário azul, um fogão a lenha, panelas turvas pelo fogo e muitos roedores, resultado da sujeira constante.

“O Robson morreu com três meses, de pneumonia. Tinha também a Gegiane e o Gilberto, eles eram gêmeos […] e morreram quando eram bebês, […] fora minha irmã Salete, que também morreu porque estupraram ela”, relata. Os três eram acordados no meio da noite com pauladas, ou com água quente e óleo despejados sobre seus corpos, ainda adormecidos: “Se minha mãe esperava a gente dormir pra bater, às duas, três, cinco horas da manhã, a gente ia pra casa da minha avó dormir. Não dava para dormir em casa.”

Apesar da ausência do pai, o qual só foi conhecer aos 14 anos de idade, Esmeralda conviveu, por algum tempo, com uma figura masculina em sua casa. Depois de cumprir pena, seu padrasto, Roberto de Assis Mariano, foi o primeiro dos três abusadores em sua vida. “Ele esperava minha mãe dormir e mexia comigo na cama, fez isso até os meus sete anos. […] me ameaçava, falava que, se eu contasse para a minha mãe, ele ia me bater. […] acho que perdi mesmo a virgindade com ele.”

agressividade

(CLAUDIA)

Os episódios eram recorrentes. Certa vez, a autora quase reviveu um episódio semelhante ao que tirou a vida da sua irmã que, aos 11 anos, foi abusada sexualmente por três homens, quando foi à padaria comprar um sonho. “Minha irmã ficou em coma, porque enfiaram vassoura, um monte de coisas dentro dela.” Roberto levou Esmeralda para um campo perto de sua casa, onde acontecia uma partida de futebol. “Ele mandou eu deitar na grama, tirou a roupa e ficou em cima de mim. Eu fiquei parada, sem abrir a boca, tinha medo dele.” Foi quando três sujeitos apareceram: “Os caras viram aquilo e mandaram eu levantar. Pensei que estava perdida na mão deles, mas eles mandaram eu colocar a roupa e sair correndo.”

O padrasto apareceu três dias depois, com a cara inchada. Morreu de tuberculose pouco tempo após o episódio, dando catarradas no chão do barraco enquanto gritava o nome da esposa. Esmeralda viu tudo. Cida, como era conhecida pelos mais próximos a mãe de Esmeralda, obrigava seus filhos a acordarem cedo e a pedirem dinheiro e comida na região central da cidade. A família batia de porta em porta, da Praça Marechal Deodoro, passando pela Consolação, Paulista, Praça da República e Avenida São João. “Quando eu estava maiorzinha, comecei a ter vergonha de pedir esmola. E minha irmã, a que ainda está viva, chorava, porque ela estava ficando mocinha e os outros queriam passar a mão nela”, relata sobre sua rotina até os oito anos, idade em que começou a fugir de casa, mas voltava à noite para tentar dormir.

Na época, os olhos alheios a julgavam como “trombadinha”, e alguns ameaçavam até chamar a polícia quando eram importunados por seus pedidos de ajuda. “Eu achava que as pessoas só me tratavam assim porque eu era negra. As minhas amigas iam para a escola e eu tinha de sair com a minha mãe.” Esmeralda sonhava, fantasiava que outras mulheres eram sua mãe, que lhe davam carinho, atenção, brinquedos, roupas, comida e banho.  Também sentia um afeto materno pela irmã, que sempre a tratou como filha. “Giselda me dava banho, me levava para cama, me contava historinha, me ensinava a cantar.”

“Quando eu estava maiorzinha, comecei a ter vergonha de pedir esmola. E minha irmã chorava, porque ela estava ficando mocinha e os outros queriam passar a mão nela”

Esmeralda Ortiz

Passou a enxergar na Praça da Sé uma liberdade que nunca teve, não tinha hora para ir embora para casa. Às vezes calhava de ir ao Mercadão da Lapa, onde ganhava frutas dos vendedores. Seu irmão, Claudinei, já tinha fugido de casa com o primo, com apenas 6 anos. Em 1988, Esmeralda começou a frequentar uma das unidades do projeto “Circo-Escola Enturmando”, criado em 1987 pela extinta Secretaria do Menor de São Paulo. Os vizinhos e os monitores do programa que proporcionava oficinas artísticas às crianças carentes até 1992, pressionaram Cida a deixá-la estudar. Giselda começou a ir para a escola com apenas 12 anos.

“Eu quero estudar, mas não tenho dinheiro, minha mãe é pobre”, disse certa vez quando suplicava por uma cartilha e um lápis na frente da livraria Saraiva, na Sé, para um senhor que perambulava por lá e atendeu o seu desejo. “Os meninos debochavam porque minha mãe era bêbada. Uma vez eles me viram catando papelão, começaram a contar na escola, e eu comecei a ter vergonha”, disse sobre seus colegas de sala da Escola Chiquinha Rodrigues, na Vila Penteado.

Certa vez, Maria conseguiu um emprego de passadeira de roupas em um hotel próximo a sua casa, mas o largou logo quando esta pegou fogo. “Minha mãe voltou a beber, começou a me bater e eu comecei a cabular aula. Na escola eu me sentia menorzinha, me sentia inferior.”

Da primeira vez

A primeira fuga não foi solitária: Esmeralda foi ao centro da capital paulista ao lado de Priscila, de apenas 5 anos, que também sofria maus-tratos em casa. A dupla faminta foi até o lixão do McDonald’s, procurar por restos de lanche para saciar a fome. Dormiram na Rua São Bento. No dia seguinte encontrou sua irmã, que estava trabalhando na Sabesp, ela a prometeu que caso voltasse para casa, não apanharia. A autora apanhou e voltou para as ruas, desta vez, definitivamente.

“Eu estava feliz durante o dia, brincando na grama, pulando. Achei que tinha chegado a felicidade. Mas à noite eu encarei a realidade. Senti saudade da minha cama, senti saudade da minha mãe, senti saudade de todo mundo, senti medo”, relembra sobre o primeiro dia dormindo nas duras calçadas da região central. Esmeralda abriu os olhos, pela manhã, já rodeada de policiais e de uma mulher loira, que a levaram à Unidade de Recepção do Tatuapé para uma triagem, depois, para à Unidade de Atendimento Provisório (desativada após a reestruturação da Febem), esta seria a primeira vez de 50. No documento, apresentou a razão de sua fuga: “para brincar”.

“Lá na unidade feminina ficavam todos juntos: uma criança de dois anos, […] que a mãe tinha espancado, deixado em casa durantes vários dias sem comer, ficava com uma criança de sete anos que tinha sofrido maus-tratos. Se alguém era preso por vadiagem, […] se era por furto, […] crianças abandonadas pela mãe por causa de doença mental iam para lá. Latrocínio, iam para lá. Assalto à mão armada, tráfico, iam para o mesmo lugar”, descreve. Assim como qualquer lugar, a Fundação Estadual também tinha sua cartilha de normas, pré-estabelecidas entre as meninas que lá estavam. Um dos traços que se assemelhava às prisões femininas é o surgimento de relações homossexuais entre as garotas. A hierarquia social ali se mantinha: as “mães-de-rua”, meninas mais velhas que protegiam as outras, prevaleciam.

Logo Esmeralda encontrou um “mocó” para ficar, um buraco já existente embaixo da ponte pela ação dos roedores, cavado pelos pequenos para conseguirem dormir à noite. Neste lugar, localizado na Avenida 23 de Maio, a movimentação era intensa, por ser um ponto para a comercialização das drogas. A autora passou a andar com a Glaucia e a Vanusa, a última havia ficado por um tempo na Febem. Seu irmão, apelidado de Marcelinho, já fazia parte de um bando respeitado na região. “Os justiceiros metiam bala lá dentro [do mocó]. Naquele tempo, muita gente morreu. E os corpos eram enterrados como indigentes. A gente ou alguém chamava a polícia. Eles iam, pegavam o corpo e enterravam em qualquer cemitério, ou eles mesmos jogavam em algum lugar. Morreram vários amigos meus nessa época. Além de ratos de mocó [pessoas que roubavam], tinha estuprador, cagueta, pilantra. Os caras iam e matavam mesmo, enfiavam a faca, davam tiro, espancavam até morrer”, lembra.

Aos dez anos fumou maconha pela primeira vez, ao lado de seu namoradinho, o Zóio de Gato. “Na minha cabeça ficava um negócio dizendo ‘fuma’ e o outro dizendo ‘não’, ‘vai’. Eu estava com medo, mas fui. E fumei. Não sentia mais medo, mais nada. Me dava prazer fumar maconha.” Logo depois, sua dupla de amigas a apresentou cola. “Na Praça Patriarca, na Rua Direita, tem um monumento, um homem bem grandão. Eu ficava cheirando cola e olhando pra ele. Dali a pouquinho ele vinha correndo atrás de mim. Na hora que ele ia me pegar, passava o efeito da cola. Então eu cheirava mais.”

Em duas semanas na rua, Esmeralda aprendeu: “Já tinha visto alguns morrerem e aprendido que a gente não podia caguetar [dedurar]. Esse era o principal código que eles ensinavam pra nós, e que na rua é melhor estar com menor do que com maior. Os meninos respeitavam as meninas que usavam drogas.”

Foi pega fumando um baseado com a Glaucia, mais três meses de Febem. “Era um banheiro só para muita gente, e vivia entupido. A gente trocava de roupa três vezes por semana. Quem aprontava ali apanhava por qualquer coisa que fosse. Eles mandavam ficar em forma, todo mundo com a mão na cabeça, sentadas e a cabeça no joelho. Então eles passavam com um pedaço de pau, batendo em todo mundo, desde as pequenas até as maiores. Depois eles ficavam em fila dupla, cada um com um cabo de ferro ou pau na mão, e as meninas e mulheres tinham que passar por aquela fila. Eles só não matavam porque não podia matar mesmo. Era a maior humilhação. A gente ficava o dia inteiro sentadas no chão.”

A pequena dividia a ala feminina com outras 250 garotas: “Todo dia eu chorava, com saudades da Sé, das minhas colegas. Comecei a fazer amizades lá dentro. A metade das meninas da Sé, hoje, está morta, a outra metade está na cadeia. […] Ali a gente não estudava, não fazia nada o dia inteiro. Eu ia já projetando o meu mundinho, o que eu ia fazer quando saísse da Febem. Eu ia roubar, eu ia fazer pior do que quando me pagaram.”

Foi nesta detenção que conheceu Pizinha, que segundo a própria foi uma de suas melhores amigas de infância. A escritora havia contado ao juiz sobre o alcoolismo e a violência que sofria, diariamente, por parte da mãe — o que fez Cida perder a guarda da pequena. Então, ela foi transferida para um orfanato. “O objetivo era educar, arrumar o que a Febem tinha estragado. Eu fui pra aquela unidade, mas não gostei e fugi”. Já em liberdade, a escritora passou a fazer parte da turma da Lazinha e do Fofão.” Aprendeu a bater, a se defender e também a roubar. “Eu estava com mais ódio da vida e já estava mais esperta, não era tão bobona. Não estava indo para a rua querendo brincar, estava indo para encarar a rua como ela era”, disse quando completou 11 anos.

Reviver um trauma

Neste mesmo ano, Esmeralda foi estuprada novamente. Um homem baixinho disse a chamou dizendo: “Ó, tem um menino que eu queria chamar, só que eu tenho medo de ir lá. Se você for lá e chamar ele pra mim, eu te dou dez cruzeiros.” Os dois andaram muito, até chegarem na linha do metrô Bresser, às duas da manhã. “Ele me jogou na linha do trem, colocou a faca no meu pescoço. Me agarrou à força, me bateu pra caramba. E abusou de mim. […] Ele ficava transando comigo com a faca no meu pescoço. Não dava pra eu correr dele na trilha do trem, porque não ia ter como pedir socorro, ele me pegaria de novo. Ele ficou ali a noite toda, depois ficou com dó de mim e me mandou ir embora”, declarou. Após este evento, o que era eminente se instaurou: o horror de homem. “Dos 10 até meus 19 anos, escolhi não ter relação com homem nenhum.”

“Eu gostaria de morrer, mas não tinha coragem de me matar. Queria morrer de overdose. Achava que todo mundo que morria de overdose era guerreiro”

Esmeralda Ortiz

Com medo, a escritora passou a andar com a Ivone e seu namorado, o Nego Timba. Ela havia se tornado sua mãe-de-rua, e posteriormente, uma das maiores traficantes do centro, mas na época em que o livro estava sendo escrito, estava presa. “A gente roubava muito. Ela era uma das que mais roubavam e nunca faltava nada.” Depois dos 12, não tinha mais mãe-de-rua. Andava com a Pizinha, apelido de Claudira Clemente, sua amiga, com quem dividia maconha, dinheiro e afeto. Posteriormente, Claudira foi presa no ano de 2000 por furto e liberta cinco anos depois.

Esmeralda passou a dormir no albergue do Projeto Criança de Rua (PCR), que foi desativado em 1994. Também frequentava, durante o dia, o Clube da Turma da Mooca, um espaço com instalações de um clube, que possuía vínculos com a Secretaria do Menor, patrocinado pela Comgás. Entre os anos de 1993 e 1994, passou a atender somente adolescentes, e não mais crianças, como fazia anteriormente.

Registro de um Natal no Clube da Turma do Mooca, 1991.

Registro de um Natal no Clube da Turma do Mooca, 1991. (Alexandro da Silva/Reprodução)

“Quem dormia na rua pegava o ônibus, terminal Carrão, e descia no Brás. Do Brás ia a maior galera, todo mundo com um saquinho de cola, cheirando. A gente pegava o metrô, alguns iam na rabeira, outros na janela ou na escadinha. Às vezes iam uns vinte, dez voltavam, dez caíam, morriam, ficavam grudados nos fios. Porque a gente ia cheirando cola, lá em cima, perto dos fios”, lembra.

A paulistana também tinha raros momentos de felicidade. Nas tardes de sábado, tomava banho no chafariz da Sé para ir dançar com as amigas na boate Dramaticalis, na Vila Cachoeirinha. “Então todo mundo ficava de roupa nova pra ir pro salão no fim de semana. As meninas arrumavam namorados, paqueravam, zoavam, bebiam pra caramba.” Às vezes, a turma também se unia para ir à praia de Santos a pé.

O primeiro contato com o crack, a “droga nova”, aconteceu com sua melhor amiga, a Pizinha, que já estava agindo diferente há algum tempo, segundo a própria Esmeralda. No início, titubeou e repetia sempre quando a ofereciam: “Sai dessa, sai dessa, faz mal!” Aos treze deu seu primeiro “pega de verdade”, quem a ofereceu foi a Sandrão, sua companheira de cela na Febem, em uma de suas inúmeras passagens. Após roubarem alguns pertences, que lhes renderam cerca de 30 reais, compraram a pedra ou “papel”, como também é comumente chamada. A sensação provocada pela droga é descrita como um barulho ensurdecedor na cabeça, um ‘tuim’. “Ela era sapatão, mas a gente nunca chegou a ter uma relação de namoro. Era relação de amizade. Todo mundo passou a me cobrar: ‘É, Esmeralda, você tá fumando pedra, né? Vou falar pro Marcelinho’. Meu irmão estava na rua, e ele estava fumando pedra primeiro que eu.”

A paranóia e a obsessão cresciam constantemente. Esmeralda “fazia o inferno no centro por causa de dez reais”. Cada vez queria mais e mais. Passou a se vestir como homem na rua, como uma medida de proteção, sendo inclusive confundida e levada para as unidades masculinas da Febem. “Eu cortava o cabelo curto, usava calça larga, jaqueta, tentava imitar o jeito. Eu não falava que era mulher.”

Em determinada época, a autora passou a sentir que a droga não a preenchia mais. Não comia, não tomava banho, estava suja e raquítica. “Andava que nem um zumbi. Eu vivia para usar droga, sentia um buraco.” Não frequentava mais o Clube do Mooca, tampouco aceitava ser chamada de mãe-da-rua, porque se sentia um lixo. Alguns diziam que ela era “sangue B”, uma gíria que significa ser valente, topar tudo pelo vício. “Eu gostaria de morrer, mas não tinha coragem de me matar. Eu era a maior covarde, Queria morrer de overdose. Achava que todo mundo que morria de overdose era guerreiro”, desabafa.

Quando estava para completar 15 anos, sua mãe morreu de cirrose. Osvaldo Fernando Ramos, o diretor da unidade da Febem em que estava internada permitiu que ela fosse ao velório. Uma das coisas que Esmeralda mais repetia à psicóloga era que apenas sairia daquela vida caso sua mãe parasse de beber. Num misto de alívio e medo, afirmou: “Minha mãe morreu e eu me senti aliviada. Justificava todo o meu fracasso na pessoa dela, tudo estava depositado nela. Eu pensava: ‘Faço isso porque minha mãe bebe, porque ela me botou na rua’.”

Chegou a ser adotada por Márcia, professora de português na Fundação, mas fugiu. “Ela me tratava super bem, mas eu comecei a me sentir mal, tinha vontade de usar drogas. Eu já não queria trabalhar, tinha preguiça. A mãe dela me dava as tarefas do dia, eu achava que ela estava me pondo para trabalhar muito. Fiquei uma semana, fui pra Santos com ela, mas nada me preenchia.”

“Colocaram a gente numa sala bem pequena, mínima. Entraram vigilantes e funcionários, cada um com um caibro na mão, e ficaram uma hora inteira dando pauladas na gente”

Esmeralda Ortiz

Dentre todas as memórias que a escritora guarda da Febem, a pior de todas foi uma rebelião que presenciou. Junto a Daniela, uma de suas amigas, as meninas se rebelaram contra os maus-tratos e as humilhações que sofriam lá dentro. As reivindicações ecoavam aos gritos das garotas que se equilibravam no telhado: “Bons tratos, liberdade, roupas e cigarro”. Embaixo, os seguranças encapuzados batiam com pedaços de pau, cachorros mordiam as pequenas. Alguns tentavam apagar o fogo que se estendia pelo pátio, outros socorriam as feridas. Um vigilante atirou uma pedra pontuda que estava mirada para atingir o rosto de Daniela, que ficou cega do olho esquerdo, aos berros de dor. Quando a outra parte dos homens alcançou a menina, empurraram-na, quebrando, assim, as pernas. “Uma funcionária ficou com dó, foi amparar a Daniela e acabou apanhando também.”

As feridas foram encaminhadas ao hospital, o restante das internas fez uma exigência: queriam falar com o diretor. Então, os seguranças mandaram que formassem uma fila indiana de cerca de 25 a 30 meninas. “Na hora de descer para a sala do diretor, eles colocaram a gente numa sala bem pequena, mínima. Entraram vigilantes e funcionários, cada um com um caibro na mão, e ficaram uma hora inteira dando pauladas na gente”, recorda. O próprio responsável pela unidade deu o aval para as agressões. As garotas ficavam trancadas por diversos dias. A violência daquele dia chegou aos ouvidos das visitas, que foram até um juiz. Depois do exame de corpo de delito, os funcionários foram suspensos por apenas cinco dias, nenhuma outra medida foi tomada. Esmeralda fugiu na audiência, voltou para as ruas do centro, para “fumar a rocha do ano”.

Você não está sozinha

Esmeralda foi atendida por diversos projetos sociais que desenvolviam trabalhos com crianças que fizeram parte da “geração crack”, da década de 1990, no centro da capital paulista. Viu muitos de seus amigos, familiares e companheiros de infância, definharem pela crueldade do descaso público, pela obsessão das drogas, e pelo próprio sistema punitivista. Este, desde muito cedo, sempre possuiu caráter violento e nunca foi capaz de recuperar e reinserí-los socialmente.

Mas o programa que realmente mudou o rumo da sua vida, ao qual ela dedica um capítulo em sua obra, foi o Travessia, criado há 20 anos, cuja didática alcançou a trajetória de mais de 13 mil menores através do atendimento direto. A expertise é centrada na ação dos educadores, que ministram atividades culturais e procuram meios, seja por jogos de tabuleiro, de carta, desenho, entre outros métodos.

No caso da autora, o “insight” foi a música. Desde muito cedo, a educadora Rose Regusino, apelidada pela própria autora como “Rose da Moto”, buscava contato com a jovem, na maioria das vezes, sem sucesso. “Certo dia, a Rose e eu puxamos o assunto de música com a Esmeralda. Não me lembro exatamente sobre o quê, mas notamos um enorme interesse. E desde muito pequena, ela conhecia vários sambistas de raiz — tanto é que tive que procurar saber mais para poder dar continuidade à conversa. Então, a gente teve a ideia de trazer um gravador para que registrássemos ela cantando. Ela ficou muito animada, e nós gravamos a melodia”, rememora Kátia Bastos, que atua como coordenadora da área da gestão de pessoas da Fundação Travessia. Aos 51 anos, é uma das funcionárias com mais tempo de casa. Atuou na década de 90 como educadora, ao lado de Rose.

“Às vezes ela vinha com alguns educadores, o Eduardo, a Fernanda, e eu sempre falava um monte pra eles. Eu desacatava. Na verdade, eu não acreditava neles. Achava que eles eram ‘um sete um’, aqueles que prometem e não fazem. A gente falava ‘um sete um’ pras coisas que eram ‘xaveco’, mentira. […] Eu dizia: ‘Se você não vai me dar comida, não vai me dar coberta, pode sair fora, não estou a fim de vocês falarem de projeto não, porque vocês não estão com nada”, conta.

E de fato, os integrantes do Travessia não ofereciam nada que a paulistana queria. A proposta era colocar em prática projetos educativos, que num primeiro momento, trouxesse uma familiarização necessária para que fossem pensadas outras possibilidades de vida, que não aquela da rua. “Eu conheci a Esmeralda quando ela tinha 16 anos, logo no começo do projeto, em 1996. Ela nunca parava para conversar com a gente e dormia em um mocó debaixo do viaduto. Na rua, sempre passava pela gente na nóia, com vontade de usar alguma coisa. Quando a chamávamos, sempre éramos tratados com rispidez”, conta Kátia.

Certa vez, após seu irmão Claudinei pressioná-la para conversar com os integrantes do programa, Esmeralda topou dar uma palavrinha rápida com Kátia: “Ela me perguntou se eu queria sair da rua. Eu falei: ‘Vou sair da rua, sim, mas se você arrumar um lugar pra eu dormir, um lugar pra eu fazer tratamento e um lugar pra eu morar.’” Depois desse dia, nada mais foi o mesmo na vida da autora.

A paulistana passou, então, a demonstrar sinais de depressão — o crack já não era o suficiente. Seu porto seguro sempre foi a música: “O pessoal foi até na rua atrás de mim, querendo as minhas letras. Só que eu não vendia, eu pensava assim: ‘Eu vou sair da rua, e quando eu sair da rua…’.” Na sua última passagem pela Febem, um alerta vindo do juiz: “Tal dia vou te mandar embora daqui pra fora. Pra onde você vai, eu não sei”. Fiquei com medo. Eu não ia ter mais a Febem pra puxar o meu saco, ia ser cadeião mesmo. Eu estava ficando maior de idade e via que tinha perdido minha adolescência e minha infância, tinha perdido tudo, não tinha aproveitado nada. Eu pensei: ‘Vamos ver qual é a desse Travessia.’” E passou a responder as cartas mandadas por Rose, as visitas dos educadores passaram a ser frequentes, sempre acompanhados de um advogado. Foi então que no dia 29 de Julho, os integrantes do projeto foram buscá-la.

“O legal do Travessia foi que eles trabalhavam a minha autoestima. Quando estava meio pifada, eles falavam: ‘Vai, vamos, estamos juntos, você vai conseguir.’ Eles não me deixavam só em momento algum. No outro dia eles já me levaram para o Projeto Quixote. Eles estavam fazendo tudo como eles falaram, estavam fazendo da melhor maneira.”. O Projeto Quixote foi criado pela Escola Paulista de Medicina para atender crianças de rua, com foco na saúde dos pequenos dependentes de substâncias ilícitas. Lá, ela recebeu apoio psicológico de Rafik, seu terapeuta até hoje. “A Esmeralda não precisava simplesmente de um abrigo. Precisava acreditar nela, vencer todas as dificuldades, se cuidar. Era uma questão que envolvia a saúde, em todos os aspectos”, declarou a educadora em entrevista concedida para o livro.

Membro do projeto, a educadora Kátia relembra: “Nós nos deparamos com um grande problema quando a Esmeralda estava para completar 18 anos. Porque uma pessoa com a trajetória de vida que ela teve, sempre muito difícil, ainda precisava de mais um tempo para sair dessa realmente fortalecida. Então, acordamos com a coordenadora do Travessia, naquela época, um tempo a mais para que ela continuasse com a gente. Então, passamos a conceder uma bolsa, além de firmar uma parceria com uma pensão, conversamos com o dono, o Seu Osvaldo, ele sabia quem era ela, a conhecia, conhecia sua irmã.”

Kátia continua narrando. “Nós precisamos ensinar a ela coisas muito básicas, como fazer compras no mercado, administrar o próprio dinheiro. Íamos nós três, eu, ela e a Rose, pelas gôndolas explicando o que era cada produto, para que servia, qual era a quantidade ideal”. Para ela, este caso, em especial, mostrou a força do trabalho em rede e da ligação parceiros, que geralmente são outros projetos de ONGs ou instituições. “O sucesso vem em muito menos tempo se unimos as nossas forças. Todos podem comemorar pelo sucesso dela, mas é claro que ela ainda é a maior responsável por isso. A força dela é algo realmente inexplicável.”

Nesta época, a autora conheceu Gisele, uma funcionária do Quixote que era responsável pelo setor familiar das crianças e adolescentes. Ao seu lado, percorria a pé a Vila Mariana em busca de emprego. “De porta em porta, parando pra perguntar pros caras do posto de gasolina se eles tinham serviço pra arrumar, que eu era do Projeto Quixote. A Gisele começou a ter um papel muito importante na minha vida, porque tudo era mudança, era responsabilidade. Aquilo tudo mexeu comigo. O pessoal do Travessia estava com medo, mas dizendo: ‘Vamos lá, você vai conseguir’. Isso fazia eu não tropeçar, fazia eu sempre conseguir ficar no caminho certo. Eu tinha apoio de um lado e incentivo do outro.”

Esmeralda descobriu seu gosto pelo meio jornalístico quando passou a produzir voluntariamente matérias apresentadas na TV PUC, pela organização sem fins lucrativos Novolhar. Começou a trabalhar num escritório localizado na Rua Frei Caneca ajudando na produção de pequenos brindes distribuídos pelo Museu Memória do Bixiga, ganhando R$130 mensais. Neste período, também concluiu um curso de guia turístico. “O dinheiro não dava, mas eu não ficava depressiva. Sempre firme. E eu já estava ‘limpa’ há quase um ano. Estava desencanada das drogas. E estava apaixonada por um pagodeiro.”, declara.

“A Esmeralda decidiu trabalhar muito em relação à cultura negra. Foi pesquisar a história do negro, o candomblé, fez capoeira, foi ver o Kabengele Munanga, o antropólogo. E a Esmeralda foi se emocionando. Foi um processo inteiro de resgate da identidade étnica, pessoal. Outro dia ela disse: ‘Quero casar com um negro para ter filhos negros. Porque quero fazer esse negro fazer faculdade, quero que meus filhos façam faculdade, pra ter mais negro na faculdade”, disse o jornalista Paulo Santiago, responsável pelo projeto televisivo do qual a autora fez parte. Paulo atua desde 1992 com a produção audiovisual para jovens em situação de vulnerabilidade social.

“Escrever pagode e poesia pra mim era liberdade de expressão. A música rompia uma solidão”

Esmeralda Ortiz

Hoje, além de jornalista, Esmeralda é cantora. Lançou o disco Guerreira pelo selo Sesc, em 2015, que conta com algumas canções compostas na época em que vivia nas ruas. Perdoou seu passado para poder se perdoar por tudo que fez e sofreu. Deu à luz a Kadu Abayomi Ortiz da Silva; hoje, o pequeno tem 11 anos. Tem um namorado e uma casa para morar. Participou de vários programas de auditório, entre eles o Hora do Faro, para contar sua história. Ministra palestras em escolas públicas e particulares sobre os obstáculos que venceu na vida. Terminou de escrever seus futuros livros As Incríveis Histórias do Tio Barbudo, que conta a história de José, um senhor que nasceu na cidade de Mirassol e morou, desde a década de 60, próximo à porta de uma igreja. e juntava todas as moedinhas que ganhava para levar as crianças a museus, teatros e cinemas.

O outro, A Árvore e o Vento, uma obra ficcional sobre uma sementinha da paz, que viajou do Brasil a Papua-Nova Guiné. “Escrever pagode e poesia pra mim era liberdade de expressão de sentimentos, porque eu não conseguia falar pra ninguém o que eu sentia. Eu queria me comunicar através da melodia e a música rompia uma solidão. Acho que antes eu tinha medo de falar e mostrar as minhas poesias porque tinha vergonha, talvez sentimento de inferioridade.”, conta a compositora.

Porque não dançou

O Censo da População de Rua da Cidade de São Paulo, do ano de 2015, divulgou que, no ano passado, 15.905 pessoas viviam pelas ruas da capital paulista. Apesar da faixa etária mais recorrente ser representada de 31 a 49 anos, 505 crianças e adolescentes ainda se encontravam nesta situação de vulnerabilidade social. Segundo a pesquisa “O Que Dizem as Crianças?“, realizada pelo Instituto Igarapé, em parceria com a organização sem fins lucrativos Visão Mundial, e divulgada neste ano, 6 em cada 10 crianças relatam ter sofrido algum tipo de violência física em casa. O levantamento foi feito a partir do depoimento de 1,4 mil jovens, com a faixa etária de 8 a 17 anos, que habitam regiões pobres de 12 cidades brasileiras com o mais baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O estudo também revelou que, especificamente na cidade de São Paulo, 95% das meninas consideram a violência sexual caracterizada como o pior tipo.

Infelizmente, milhares de crianças enfrentam uma realidade semelhante a de Esmeralda. Os dados citados reforçam que praticamente nada mudou nas últimas décadas. Para a autora o período que viveu nas ruas foi como uma guerra: “Se você está no meio da guerra e todo mundo morre, mas você não, você não tenta encontrar uma explicação. A única explicação que você tem para isso é o quê? Será Deus? Deus sempre esteve presente na minha vida, eu acredito nele. Apesar de não frequentar religião nenhuma, eu sempre tive fé em Deus. Mas fui procurar forças dentro de mim e também encontrei pessoas que puderam me dar um apoio. Sozinha eu não conseguiria. O maior motivo foi a minha força de vontade.”

Em recente pesquisa realizada através de 200 entrevistas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro, diferente do que a maioria das pessoas pensam, o crack, droga derivada da cocaína, não é o motivo da exclusão social — mas sim, uma consequência da vulnerabilidade social da população em situação de rua. “Quando a pessoa usa crack, perde o afeto. Tem menino que mata mãe, mata o pai, e não está nem aí. […] Tive que trabalhar essa coisa de ter sentimentos, porque não tinha sentimentos quando saí da rua, nem por mim. Eu não gostava de mim, não gostava das pessoas. […] Agora eu entendo que, quando não tinha afeto, não tomava mais banho, não me alimentava, era por causa da baixa estima. Eu não me gostava, mas agora eu me amo.”, comenta a jornalista sobre os efeitos da droga.

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A respeito da exclusão e da inserção social, a escritora revela: “O tratamento que eu recebia do pessoal do Quixote e do Travessia me atraía, era diferente da Febem. Eles paravam, conversavam, perguntavam sobre o que eu gostava de fazer, me incentivavam naquilo que eu gostava. Eles começaram a me levar a lugares diferentes, a museus, e me ensinaram a pensar sobre cidadania. […] A sociedade no geral exclui as pessoas, é muito cheia de preconceitos. Eu já vi isso quando era criança e escutava: ‘Não encosta nela porque ela é trombadinha’. Ou quando atravessavam a rua, com medo de mim porque eu era trombadinha. Além disso, tinha o preconceito racial. Porque eu sou negra, mulher e pobre. Eu sofri muito com essa discriminação.”

A autora, que acredita ter encontrado no ato de escrever uma maneira de organizar e entender o que aconteceu na própria vida, prefere não sonhar tão alto, sonha “na medida do possível, vendo o que dá para ser realizado”, relembra sua maior carência, a materna: “Quando estava na rua eu nem pensava em namorar, o que eu queria mesmo era ter uma mãe. Eu tinha um sonho: ver um dia minha mãe chegando em casa, com um saquinho de leite, pão e mortadela. Era o meu maior sonho, mas isso nunca aconteceu. Eu ficava olhando, achava muito bonita aquela cena, eu achava aquilo fantástico, por mais que fosse uma coisa simples.”

No ano de 2006, a Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem) passou a ser chamada de Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Fundação CASA), após uma série de denúncias contra a integridade física e moral dos adolescentes internos terem sido encaminhadas à Organização dos Estados Americanos (OEA). Além do novo nome, a instituição passou a adotar novas orientações na gestão, que se subdividiu em quatro gerências pedagógicas: o atendimento da área escolar formal; educação profissional; educação física e esportes; e arte e cultura.

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