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“O câncer não é o fim e, para mim, em muitas coisas foi o começo”

Mônica Albuquerque, 49, é head de alianças e convive com o câncer desde 2015, sempre levando o bom humor em sua rotina

Por Sarah Catherine Seles (colaboradora) 26 out 2021, 10h38

“O meu primeiro diagnóstico foi em 2015 e foi uma surpresa. Eu descobri no chuveiro, como grande parte das mulheres que fazem o autoexame. Durante o banho, senti um caroço abaixo da minha axila e como eu tinha feito depilação naquela semana, pensei que não devia ser nada além de um machucado. Comentei com meu marido, que é meu anjo da guarda, e ele achou esquisito.

Um dia depois esse caroço continuou embaixo da minha axila e meu marido achou melhor irmos ao hospital, porque era estranho um caroço daquele tamanho na axila. Nós fomos e eu estava super tranquila, crente que ia fazer ultrassonografia e não ia dar nada. 

A médica fez o ultrassom e acabou descendo para o seio, onde encontrou outro caroço. Ela disse para entrar em contato com minha ginecologista logo em seguida. Três dias depois recebi o resultado da biópsia dizendo que era câncer de mama. Foi um choque, eu realmente não imaginava.

Lembro da sensação… Quando você descobre que está com câncer todos os fantasmas vêm à tona, tudo que você já assistiu nos filmes, crenças de família. Ainda hoje existe esse rótulo no câncer, de que é sinônimo de morte, quando a gente sabe que não é. Na época eu fiquei muito mal, me deu um frio no estômago, uma coisa ruim.

Fui encaminhada para o oncologista, o Dr. Daniel Gimenez, que é um médico incrível. Ele descobriu que era um tipo de câncer que não era nem o ‘melhor’ nem o ‘pior’. Não que exista ‘melhor’ no câncer, mas aquele que é descoberto no começo, que está bem pequeno, tem quase 100% de chance de cura se tratado. É por isso que é importante fazer os exames, porque quanto mais cedo você descobrir, mais chance você tem de cura.

Mônica Albuquerque
“Eu quero ser um exemplo, para que as pessoas vejam em mim que a vida não termina porque você tem uma doença” Arquivo Pessoal/Reprodução

O meu estava no nível dois para três, já não era um câncer que teria uma cura rápida. O Dr. Daniel definiu que o tratamento seria, inicialmente, com 8 quimioterapias, 4 da série branca e 4 da série vermelha, e mais 34 radioterapias. Foi bem forte para ‘tentar matar a formiguinha com uma bomba atômica’, como disse meu médico.

Comecei o tratamento e já fiquei careca, extremamente inchada pelo excesso de cortisona. Além de você estar com a doença e não saber o que vai acontecer, ainda tem essa série de coisas que te deixam com a autoestima horrorosa. Mas de repente foi nascendo uma força muito grande. Eu já estava trabalhando na minha empresa atual, botei minha cabeça no trabalho e foi isso que me deu mais força, porque sabia que minha cabeça precisava ser mais forte do que essa doença.

Fiz todo tratamento e em janeiro de 2016 entrei em remissão da doença, que é quando você não está curada, mas o câncer está sob controle. Em 2020, quando eu pensava que estava curada, estava novamente tomando banho e senti dois caroços grandes na minha região supraclavicular. Nessa época eu estava malhando, puxando peso e pensei que era só um machucado por puxar peso. 

E novamente meu anjo da guarda, o meu marido, falou que era melhor ir ao hospital, já que a história era similar. Dessa vez fomos pro hospital na mesma hora e não deu outra, o resultado da biópsia apontou que era câncer de novo. Mas, para a minha surpresa, ele voltou agora com metástase. O tumor não está só na região da clavícula, mas voltou também com um grande foco na axila e, a partir daí, fui descobrindo vários outros tumores.

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Apesar dos tratamentos, o tumor continuou a crescer e estava avançando para outras partes do corpo. Então o médico passou 18 quimioterapias para impedir o avanço do câncer. Na 14º sessão de quimio, fiz outro exame de acompanhamento e tive mais um avanço da doença, que alcançou o pulmão e está na região da costela também. Agora eu entrei no 4º protocolo, com quimioterapia vermelha, a mais forte, para tentar controlar a doença.

Mônica Albuquerque
Mônica Albuquerque convive com o câncer desde 2015 Arquivo Pessoal/Reprodução

Eu nunca pensei que teria um câncer metastático e hoje eu ajudo várias mulheres com conselhos e apoio sobre o assunto. No caminho a gente perde algumas pessoas para o câncer, né? Eu sempre ouço e leio histórias sobre pessoas que morreram e às vezes eu me pergunto se eu também vou ser uma história triste. Muitas mulheres começaram como eu comecei, será que estou indo pelo mesmo caminho?

Aí eu paro e tento ver além, que estou viva, trabalhando com sucesso, tenho um marido que me ama, tenho o apoio da minha família, passei bem pela pandemia… E quando perguntam como estou, eu digo que tirando o câncer, estou ótima. Mas, não vou dizer que não fico triste, as vezes fico muito pra baixo, tem hora que paro e só choro.

A dificuldade de uma pessoa que tem câncer é olhar para o futuro, fazer planos a longo prazo. Você não consegue porque você não sabe se vai estar aqui e então você começa a fazer planos a médio e curto prazo, mas que são muito gostosos, as coisas que sempre quis fazer.

Comecei a dar mais valor às pequenas coisas, em tudo a gente vai encontrando coisas boas. Na própria desgraça você encontra coisas legais, gente legal, pessoas fantásticas, novas experiências. Procurei falar mais ‘não’ do que ‘sim’, então hoje falo ‘dane-se’ com mais facilidade. Não fico tentando agradar ninguém, procuro fazer a coisa mais correta possível e cada vez mais deixar as pessoas que eu amo participarem da minha vida, assim como tenho facilidade em afastar as pessoas que eu não quero.

Vivo muito intensamente, curto meu trabalho. Apesar do bom ânimo, eu passo mal com a quimioterapia, tenho muita dor, os tumores doem, às vezes tenho paralisia em um braço. Eu teria tudo para parar de trabalhar, mas o que eu ganharia com isso? Absolutamente nada, eu preciso ser útil. Eu amo trabalhar, a empresa que eu trabalho me apoia demais e tenho um empregador que sempre se preocupa comigo. 

Apesar de ter descoberto novas sensações e sabores, eu nunca romantizei o câncer, não vou romantizar algo que não tem romantismo nenhum. Eu quero ser um exemplo, para que as pessoas vejam em mim que a vida não termina porque você tem uma doença. Eu quero que o câncer seja para mim uma doença crônica, como diabetes ou um problema no coração. O câncer não é o fim e, para mim, em muitas coisas foi o começo. Hoje estou aqui lutando, sem deixar de ter medo dos próximos exames.

E eu tenho consciência que a doença que eu tenho não tem cura e por isso quero viver muitos e muitos anos tratando ela. Se eu conseguir tratar ela por mais 20 anos eu estou no benefício, porque vamos combinar que viver é bom demais. É muito bom acordar de manhã, estar de bom humor, de mau humor as vezes e, por isso, não vou perder um minuto, eu vou curtir, porque eu posso morrer de outra coisa também.”

Mônica Albuquerque, 49, é head de alianças e convive com o câncer desde 2015, sempre levando o bom humor em sua rotina.

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