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O perigo mora ao lado. Saiba como se proteger das microagressões

O impacto desses atos violentos naturalizados, que de micro não têm nada, pode ser amenizado se colocarmos em prática mecanismos de autocuidado

Por Ana Carolina Pinheiro Atualizado em 19 nov 2020, 17h43 - Publicado em 22 nov 2020, 10h00

Para percorrer o caminho de Bangu até o centro do Rio de Janeiro, a advogada Vanessa Nascimento, 27 anos, chega a levar três horas de transporte público. Em março, ela teve um descanso do trajeto que realizava de segunda a sexta-feira fazia quatro anos, já que emendou as férias com o home office forçado pela quarentena. “Fico agoniada e sofro só de pensar em voltar para o escritório”, confessa.

Em casa, a carioca encontrou o refúgio perfeito para cortar os fios alisados e assumir os crespos longe dos olhares de julgamento, mas ainda assim a libertação não veio por completo. “Não queria que o pessoal do escritório me visse. Eu me escondia, não ligava a câmera e falava que ela estava quebrada durante reuniões por vídeo”, diz ela, que convive com piadas e comentários preconceituosos desde a infância por morar no subúrbio e ser negra.

Essas exposições diárias e danosas às quais Vanessa é submetida são exemplos das chamadas microagressões, violências tratadas erroneamente como leves. O termo foi usado pela primeira vez pelo psiquiatra Chester Pierce, em 1970, para definir mecanismos de ataque de grupos opressores, principalmente aos negros.

Complementando o estadunidense, em 2010 o professor Derald Sue apontou que microagressões são “ofensas verbais, comportamentais e ambientais comuns, sejam intencionais ou não, que comunicam desrespeito e insultos hostis, depreciativos ou negativos contra pessoas negras”.

Sobre o prefixo micro, Márcia Lima, professora do Departamento de Sociologia da USP e coordenadora do Afro Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o define como mais uma forma de banalização da violência. “Esse fenômeno marca profundamente os indivíduos-alvo das agressões justamente pela sua repetição”, afirma.

Nuances da violação

A aparente sutileza das microagressões dificulta seu reconhecimento, o que explica o clássico questionamento que costuma acompanhá-las: “Será que estou exagerando?”. Foi o que Beatriz*, 27 anos, se perguntou quando entrou no prédio de uma amiga em Moema, bairro elitizado de São Paulo, e o porteiro lhe pediu que seguisse pela entrada do elevador de serviço, recomendação que não foi feita à amiga branca. “Eu me culpo e acho que estou arranjando problema até que alguém valide que aquilo aconteceu mesmo”, conta a profissional de marketing.

A socióloga Márcia lembra que as microagressões referentes ao racismo no Brasil aparecem de múltiplas formas. “São situações de discriminação ligadas ao consumo ou à aparência física. A ideia do negro ‘fora do seu lugar’, por exemplo, demonstra o não reconhecimento dele em um determinado espaço. Há também o estereótipo racial oposto, em que só é possível um único lugar para ele, como a recorrente relação que associa a mulher negra à profissão de doméstica”, considera.

“As microagressões mostram diariamente que minha existência incomoda”

Vanessa Nascimento, advogada

 

Outras representações sociais e categorias também são atacadas por essas violações. Os olhos puxados e o estigma da perfeição, relacionado aos orientais, tornaram-se alvo dos ataques cotidianos sofridos pela atriz e tiktoker Cláudia Okuno, 26 anos. “Se eu fosse brincar de Star Wars, não podia ser a princesa Leia, porque ela não era japonesa. Já questionaram se eu enxergava igual a todo mundo. Era chamada de ‘japa falsa’ por pegar recuperação na escola e desconhecidos na rua já me perguntaram se a minha vagina é horizontal, um comentário absurdo. Sempre fui ensinada por familiares, amigos e professores a silenciar diante dessas humilhações, pois eram só brincadeira, segundo eles”, conta.

O acolhimento das emoções se dá na ampliação do saber, como explica a psicóloga Rafaela Alves, doutoranda em psicologia social com foco no racismo institucional da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). “Nós vivemos um contexto nacional que perpassa questões de gênero, classe, raça e orientação sexual. Sendo assim, é crucial proteger-se com autorrespeito e lembrar que essas situações são programações sociais baseadas em discriminações”, diz a psicóloga.

A culpa sentida pela vítima é mais um resultado da exposição a ofensas contínuas. Para se libertar desse sentimento, Vanessa evita comparações. “Tenho oportunidades de estudo e de trabalho bem distantes da realidade de muitos brasileiros, principalmente negros. Vivo, porém, um processo em que procuro entender que não é normal se sentir vigiada em uma loja ou analisada a todo momento dentro de um restaurante onde sou a única negra. Não é uma competição de quem sofre mais, todos são vítimas”, comenta a advogada.

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As nuances da opressão étnica também já fizeram Cláudia questionar suas feridas. “Como não morro pela cor da minha pele, por muitos anos pensei que não deveria reclamar e que meus incômodos não eram dignos de atenção e tempo. Agora, adulta, tenho plena ciência de que meus sentimentos também são válidos e não devem ser escondidos. Tem que haver espaço e respeito para todos. Esse estrago foi tão enraizado que vejo impactos na minha autoestima até hoje”, revela.

Segundo um estudo feito em 2017 por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará e de Brasília, a autoestima e a saúde mental são as áreas mais afetadas na vida de mulheres negras expostas a microagressões. Em uma escala de 0 a 5 para medir a frequência com que elas são atingidas por esse tipo de violência, a média de resposta das participantes foi de 3,14 pontos.

Marcela Scheid/CLAUDIA

Driblar a opressão

“Nossa, seu cabelo tá solto, né? O crespo é moda agora?”, ouviu Beatriz muitas vezes da sua diretora. Na terapia, ela verbalizou, enfim, os impactos do silenciamento no ambiente universitário e, atualmente, no trabalho. “Não se trata de elogio, é como se fosse algo exótico. Para evitar ser direta, ela já reuniu toda a equipe e instruiu que os cabelos volumosos fossem presos”, conta a profissional, que também sente alívio por estar em home office e não enfrentar mais esses constrangimentos diários.

Ainda assim, teme ser promovida, pois então teria contato direto com a gestora. “Reações das vítimas, cada vez mais constantes, podem chamar a atenção para a existência das opressões sociais”, acredita Márcia. “O assédio moral até pouco tempo era uma microagressão sem consequências maiores para o ofensor e com enormes repercussões para quem a sofria”, relembra. A socióloga ressalta que, quanto mais falarmos do tema, menos pessoas serão silenciadas. “Para muitos, o silêncio e a invisibilidade de certos grupos eram bem confortáveis.”

Não existe uma forma única e definitiva para erradicar o preconceito que causa as microagressões. Entretanto, há um mecanismo para diminuir as violências cotidianas e amenizar os impactos. Depois de ter a corrida no aplicativo encerrada no meio de uma via expressa, com a desculpa do motorista de que o carro tinha quebrado, Vanessa mudou sua relação com o transporte. “Um amigo do meu pai foi me buscar. Quando olhamos para trás, o carro, que estava esperando o guincho, foi embora em um passe de mágica”, comenta.

A advogada deixou de usar aplicativos de transporte sozinha. Se precisa, dorme na casa de amigos. “Tenho o plano de morar perto do trabalho.” Cláudia encontrou nas redes sociais um canal para não se calar. “Comecei a falar sobre agressões cotidianas e racismo na internet. Acho que não vou viver pra ver a mudança, mas espero empoderar pessoas para que se sintam seguras.” Ambas descobriram seus recursos durante a terapia, assim como Beatriz. “Se não fosse o acompanhamento psicológico, não estaria aqui falando sobre isso”, diz ela.

A violência vai se atualizando – incluindo novas referências e crueldades –, e as atitudes alheias fogem ao nosso controle. “O aconselhável é buscar respostas para compreender traumas causados pela invisibilidade. Procure o apoio de amigos, familiares e, principalmente, de profissionais para romper essa resistência e conseguir passar por lugares e situações hostis de forma saudável, causando o menor comprometimento possível”, pontua Rafaela.

Para Márcia, o processo de defesa das microagressões inclui o reconhecimento da identidade. “Romper com o ciclo é perceber que você construiu sua aceitação não só individualmente mas também socialmente, ou seja, é mudar a forma como a sociedade enxerga as pessoas. Isso não se dá sem atritos. Transformações, em geral, são processos conflituosos”, conclui.

*Nome trocado a pedido da entrevistada

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