Gordofobia médica: como o preconceito na saúde afeta pacientes gordas

A discriminação é antiga, mas só agora ganhou visibilidade; leia relatos de agressões, que podem se desdobrar em traumas a serem superados

“Eu não aguentava de tanta dor. O médico me atendeu na cadeira mesmo e nem tocou em mim. Só disse que não poderia fazer a cirurgia porque era arriscado operar alguém enorme de gorda”, relata a carioca Thayná Bustamante, 23 anos. Ela sofria havia meses com pedras na vesícula, mas tinha chegado a um ponto insuportável. “Ele me mandou fazer hidroginástica porque o lugar de hipopótamo era na água”, lembra. A estudante de sistemas de informação teve que consultar três profissionais até conseguir passar pelo procedimento necessário.

Há um termo para descrever o que Thayná sofreu: gordofobia médica. E ela é apenas uma das inúmeras vítimas que têm vindo a público ultimamente para discutir o preconceito em um momento de extrema vulnerabilidade. “A abordagem é entendida como um tratamento desrespeitoso aos pacientes obesos no âmbito da assistência à saúde”, explica Edoardo Vattimo, do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

Gordofobia médica ganhou popularidade após a comunicadora e empresária paulista Flávia Durante, 41 anos, criar, em julho de 2018, a hashtag #gordofobiamédica, que viralizou rapidamente no Twitter. Para ela, o ato é a inibição dos direitos das pessoas gordas ao cuidado profissional. A motivação para iniciar o movimento veio de uma matéria que estava escrevendo para sua coluna no portal UOL.

 (Milena Paulina/CLAUDIA)

Assim que começou a trabalhar com o tema, Flávia recebeu mais de 80 relatos de mulheres gordas que tinham vivenciado discriminação em consultórios. Entre os casos, estava a história da publicitária Andréa Gouvea. A paulistana de 31 anos residente em Manaus acumulava alguns episódios marcantes.

“Sou gorda desde criança. Aos 10 anos, um médico me disse que eu não casaria por causa disso. Perto dos 21 anos, uma endocrinologista avisou que eu morreria em decorrência do meu peso. Saí chorando”, recorda.

Mais recentemente, há cinco anos, a agressão partiu de um dermatologista. Dessa vez, ela resolveu não sofrer sozinha e compartilhou o caso na internet. “Fui tirar uma pinta, e ele disse que removeria por questão de saúde, já que eu claramente não ligava para estética. Ainda falou para eu me cuidar, pois, pelo meu corpo, via-se que eu não era saudável.”

Na época, Andréa praticava dois esportes – futebol americano e jiu-jítsu – e mantinha uma alimentação balanceada. Para o médico, porém, a saúde dela se resumia ao peso. “Fui julgada como doente por ser gorda.”

Saúde tem tamanho?

Em 2013, a American Medical Association, maior organização médica dos Estados Unidos, declarou a obesidade como uma doença. A patologia foi inserida, no mesmo ano, no Código Internacional de Doenças (CID), e o tema levantou debates entre ativistas, médicos e acadêmicos. O que determina a obesidade não é o peso que aparece na balança, e sim o índice de massa corporal (IMC) aliado a exames ainda mais precisos, como a bioimpedância e a calorimetria, que calculam a massa de gordura.

Segundo a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, coordenadora do Núcleo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e uma das autoras do livro “Obesidade – Coleção Como Cuidar” da editora Benvirá, pessoas com IMC maior do que 30 podem ter maior propensão a diabetes, hipertensão arterial, infarto, trombose, câncer, acidente vascular cerebral e apneia do sono, entre outros problemas.

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“Entretanto, a existência do risco não quer dizer que todo obeso adoecerá. É possível que seja um paciente ativo, com peso estável e exames normais”, aponta.

É o caso da estudante de psicologia Tamara Solano Macedo, 26 anos, frequentadora assídua de uma academia de musculação. Para ela, o peso não é um problema. Mas, para o dermatologista que a atendeu, sim. Aos 22 anos, preocupada com uma mancha na axila, a paulistana marcou uma consulta e ouviu do médico que não deveria engravidar devido ao seu peso. “Ele também me recomendou fazer cirurgia bariátrica sem nem olhar meus exames, só para me assustar mesmo”, ressalta. “Eu acredito que o papel dos especialistas é zelar pela saúde, e não nos levar a adoecer.”

 (Milena Paulina/CLAUDIA)

Autoestima prejudicada

Os exames de pré-natal da primeira gestação da cabeleireira carioca Renata Maldonado, 27 anos, apontaram que os índices dos hormônios da tiroide estavam alterados. O obstetra, então, indicou-lhe um endocrinologista. No consultório, o médico me mediu, pesou e fez anotações em um bloquinho antes de dar o diagnóstico: “Você é enorme de gorda, nunca deveria ter engravidado. É relaxada. Vou prescrever oito unidades de insulina diariamente para evitar que você fique diabética, porque provavelmente isso vai acontecer. Depois que emagrecer, tratamos da tiroide. Assim que você tiver o seu filho, vou encaminhá-la para a cirurgia bariátrica”.

Ainda acrescentou que Renata deveria ter vergonha por ter engravidado estando tão gorda. “Disse que eu perderia o bebê.” Aos quatro meses de gestação, ela se isolou em casa. “Evitava ir a lugares públicos. Não achava bonito estar grávida e gorda e me incomodava com a maneira como as pessoas me olhavam”, afirma.

Edoardo Vattimo, do Cremesp, explica que esse tipo de conduta é condenado pelo artigo 23 do Código de Ética Médica. De acordo com ele, é vedado ao especialista tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto. Quando violado esse item, a vítima pode desenvolver receio de se consultar, mesmo em situações de emergência.

A atitude de Renata, por exemplo, de se isolar em casa, é comum entre as vítimas de gordofobia médica. Conforme esclarece a psicóloga paulistana Maria de Lourdes Trassi Teixeira, uma das autoras do livro “Psicologias: Uma Introdução ao Estudo de Psicologia” da editora Saraiva Uni , as consequências podem ser quadros depressivos, agressividade, infelicidade, vergonha e baixa autoestima.

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A publicitária Andréa se recusa a ir ao médico até hoje. “Já ouvi frases gordofóbicas do alergista, ginecologista e muitos outros especialistas. É preciso ficar pulando de um profissional para o outro até encontrar um que não olhe para você como uma bomba-relógio de doenças”, desabafa.

Thayná ressalta que os equipamentos e aparelhos para a realização de exames não são feitos para pessoas gordas, fomentando o estereótipo do paciente ideal. “Fica claro que não foram feitos para nos receber.” Para Renata, a maior dificuldade é encontrar laboratórios que façam exames de imagem, como ultrassonografia, em mulheres acima de 100 quilos.

Os Size friendly

Um novo perfil de profissionais está surgindo nesse cenário, o dos que não se limitam a enxergar os pacientes estritamente pelo peso. Eles se denominam size friendly (amigos do tamanho, em tradução livre). Pouco conhecidos no Brasil, seguem a filosofia Health at Every Size (saúde para todos os tamanhos). Têm como missão cuidar dos pacientes com respeito, levando em consideração uma gama de indícios que vão além dos ponteiros da balança para alcançar diagnósticos e sugerir tratamentos.

O nutricionista Ricardo Durante se identifica com a proposta. Em seu consultório, em Cuiabá, ele se propõe a ajudar as pessoas a criar uma boa relação com a comida para, assim, serem saudáveis. Mas não fala nem sugere perda de peso injustificada. “O preconceito com pacientes gordos é falta de empatia. Profissionais da saúde deveriam acolher essas pessoas, e não julgá-las e tratá-las com ojeriza.”

 (Milena Paulina/CLAUDIA)

Como proceder

Renata, Andréa, Tamara e Thayná escolheram não denunciar os médicos gordofóbicos, mas poderiam ter registrado a queixa. José Fernando Maia Vinagre, corregedor-geral do Conselho Federal de Medicina (CFM) e representante dos médicos de Mato Grosso na autarquia, orienta quem tenha uma queixa contra um profissional durante exercício a fazer uma denúncia formal no Conselho Regional de Medicina do estado onde o problema ocorreu.

“Com base nessa manifestação, os representantes tomarão as providências cabíveis. Isso pode levar à abertura de uma sindicância que, se comprovar possível irregularidade, resultará em processo ético-profissional”, explica. “Nessa etapa, o caso é julgado pelo plenário do CRM, assegurando-se o direito à ampla defesa para ambas as partes. Ao final, no caso de condenação, o médico fica suscetível à penalidade definida em lei, que vai desde uma advertência à cassação do registro profissional”, conclui.

Questionado sobre os casos de discriminação de médicos aos pacientes gordos divulgados pela imprensa, Edoardo Vattimo disse que o tema ainda não foi pauta das reuniões. José Fernando também não tem conhecimento de nenhuma solicitação ou pedido para que uma análise específica seja realizada.

Sobre as fotos desta matéria

Os retratos que ilustram esta matéria são da fotógrafa Milena Paulina, do projeto “eu, gorda”. Ela explica aqui seu processo de criação.

“Eu sempre soube que queria construir algo para outras mulheres”, diz Milena. A paulistana de 24 anos teve uma relação complicada com o próprio corpo, com a aceitação dele. Em 2016, quando passou a fotografar a série, entendeu que o preconceito contra o corpo gordo às vezes começa cedo, em casa, quando ainda somos meninas.

Com seu trabalho, pretendia aumentar a representatividade dessas mulheres. Milena não via, na arte, nenhuma história como a sua ser contada. As imagens estampavam apenas padrões de beleza raros e difíceis de ser alcançados. Suas fotos propõem uma mudança. Inspiram a se redescobrir, a se enxergar com mais amor e acolhimento.

Antes de fotografar alguém, Milena conversa com a pessoa e reflete. Depois, escreve textos compartilhando a experiência e publica-os com as imagens em seu Instagram (@olhardepaulina). Em dois anos, mais de 250 mulheres já posaram para suas lentes.

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