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“Às mães e pais de homossexuais e transexuais”

A pedido de CLAUDIA, o deputado baiano Jean Wyllys, eleito pela revista The Economist uma das 50 maiores personalidades na defesa da diversidade no mundo, escreve uma carta às famílias sugerindo que o acolhimento tome o lugar da rejeição na relação com os filhos

Por Redação CLAUDIA - Atualizado em 28 out 2016, 15h40 - Publicado em 18 dez 2015, 11h29

“Senhoras e senhores,

Ao fim deste texto, pretendo dar-lhes uma humilde contribuição para ajudá-los a remover a erva daninha que dificulta o crescimento do amor em suas famílias; a construir uma vida melhor para seus filhos e filhas e a entregar pessoas mais fortes para este nosso mundo. Antes, porém, preciso dar um breve testemunho. Sou um homem gay, de 41 anos, bem-sucedido (jornalista premiado, escritor com quatro livros publicados, roteirista, apresentador de um programa de TV, ativista dos direitos humanos e ‘estou’ deputado federal no segundo mandato), apesar de ter nascido na pobreza material e vivido um conjunto de violências físicas e simbólicas – a homofobia –, que recai sobre mim desde que me entendo por gente. Na primeira vez em que ouvi o insulto ‘viado’, eu tinha apenas 6 anos. Vocês conseguem imaginar o que isso significa? E qual o impacto para a saúde mental ouvir – de adultos, depois de outros garotos – essa ofensa quando, aos 6 anos, não se tem nenhuma noção do que seja orientação sexual? Podem mensurar o sofrimento de uma criança humilhada por fazer algo que deveria ser respeitado em qualquer situação e que está no cruzamento das fronteiras de gênero erguidas pela sociedade (isso é de menino, aquilo de menina)?

Muitas dessas violências eram praticadas por pessoas que conviviam comigo. O que mais me fez sofrer foi o sentimento de ser menos ou nada amado por minha mãe e, principalmente, meu pai por causa do meu “jeitinho”, da minha ‘diferença’. Supunha que os envergonhava. Talvez por isso tenha multiplicado os esforços para agradar a eles desde então. Eu me fazia necessário para ser amado. Fiquei ao lado de meu pai até seus últimos minutos de vida. Garanti um tratamento digno para o câncer que o vitimou. E minha mãe é minha rainha. Cuido dela nos mínimos detalhes, dou o que tenho de melhor em mim. Apesar da homofobia que carregavam – e que os levou a me preterir –, não desisti deles. Com o tempo, erradiquei, à base de bons argumentos, a intolerância e recuperei o amor que se perdia entre nós. Felizmente, meu pai viveu o suficiente para perceber que estava errado, no pensamento anti-homossexual, e me pediu perdão do seu jeito. Minha mãe se converteu em quase ativista, é “uma mãe pela diversidade” e se orgulha dos filhos gays (tenho um irmão gay e quatro irmãos hétero). Se tivesse desistido dos meus pais, nossa sorte teria sido outra: uma má sorte. Quantas relações de amor a homofobia destruiu e ainda destrói? Incontáveis! Quantos filhos foram expulsos por ser homossexuais? Quantos fugiram de casa (do bairro, da cidade) para sobreviver e gozar a liberdade de ser quem são, longe da violência dos que deveriam protegê-los? Quantos se viram empurrados para os destinos imperfeitos que a homofobia associa à homossexualidade? E quantos desistiram de viver por não suportar a perseguição?

Caros pais e mães de filhas e filhos homossexuais e/ou transexuais: pensem nessas questões antes de tomar qualquer atitude em relação àqueles que vocês puseram no mundo e que só desejam amor e compreensão da família. Eles dependem de vocês para ter uma vida autônoma. Eu sei (e compreendo!) que esperam escolhas semelhantes às suas. Isso é uma fantasia. Basta que se comparem aos próprios pais. Vocês se parecem com eles e cumpriram as expectativas que tinham? Ora, pai e mãe, que merecem ser chamados assim, amam os filhos como são. E não porque correspondem aos desejos, às fantasias narcisistas e egoístas do casal.

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A primeira atitude que devem tomar é não reprimir a liberdade e a criatividade infantis. Diante de qualquer suspeita de que sua criança seja homossexual ou transexual, o melhor – antes de buscar informações em fontes confiáveis, que quase nunca são pastores e padres – é ouvir atentamente, e sem julgar, o que ela tem a dizer sobre si mesma. Lembrem-se de que não são apenas os seus projetos de felicidade que estão em pauta. São as expectativas de seus filhos e suas filhas, que não pediram para nascer, que contam. Eles têm o direito de expressar os afetos de modo diferente. A desculpa de que vocês não os aceitam gays porque não querem vê-los sofrer é esfarrapada e contraditória. Rejeição e repressão dão início ao sofrimento que supostamente a família deseja evitar. Saibam que eles estariam mais imunes às inevitáveis maldades do mundo se contassem com o amor de vocês. De resto, por mais que tentem evitar a homossexualidade ou a transexualidade, elas acabarão se impondo se seu filho ou sua filha não morrerem antes. Pensem. Isso vai ajudá-los a retirar a erva daninha – o preconceito – que se alastra em casa.

Cordialmente e com respeito,

Jean Wyllys

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