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Carta de moradores do Morumbi tentou barrar o lazer de Paraisópolis

Para moradores de Paraisópolis, a inauguração do parque na região será uma oportunidade de bem-estar mas uma carta quase impediu um dos acessos

Por Ana Carolina Pinheiro - Atualizado em 5 out 2020, 10h56 - Publicado em 5 out 2020, 10h30

“Toda pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres”, garante o 24º artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Na prática, sabe-se que a realidade não é bem assim e a condição socioeconômica ainda é uma barreira a esse direito.

Com mais de 100 mil habitantes, a comunidade de Paraisópolis, a segunda maior de São Paulo, pode ser comparada a uma cidade, que atingiu autonomia em aspectos importantes como geração de emprego e comércio. A União de Moradores é a grande responsável pela manutenção dessa engrenagem, que foi ainda mais exigida durante a pandemia.

Além de suprir as lacunas vitais de boa parte dos moradores, a associação ganhou mais uma demanda nos últimos meses: garantir que o acesso ao lazer não fosse cerceado.

O Parque Municipal de Paraisópolis, que tem abertura prevista para este mês de outubro, quase perdeu um de seus acessos por conta de um pedido da Associação dos Amigos do Jardim Vitória Régia, que representa moradores do Morumbi, bairro nobre da cidade, na parte elitizada.

Entregue ao secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo de Castro, a carta ainda pedia a proibição de piquenique, entrada de bicicletas, pessoas com animais e “pessoas cujas atitudes agridam a moral e os costumes dos usuários do Parque”. Por fim, a proposta de construção de um muro de três metros de altura para cercar o local. A justificativa da associação era de inibir o barulho.

Para Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, a carta, que não foi considerada pelo Governo de São Paulo, vai na contramão das necessidades coletivas e da posição de boa parte dos moradores. “O momento deveria ser de união, mas sabemos agora que os pedidos não representam a maioria dos moradores”.

A socióloga e coordenadora do curso de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Sandra Mattar, aponta que “os processos de urbanização na sociedade contemporânea contribuem com as diferenças sociais, provocadas pelo desenvolvimento capitalista”. Para a socióloga, os empecilhos e restrições de acesso aos espaços públicos e democráticos ocasionam conflitos e violência urbana.

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Nascida e criada em Paraisópolis, Milena Rodrigues, 24 anos, enxerga o parque como uma democratização do lazer para os moradores. “Se a gente pegar um fim de semana para ir à praia, falta o iogurte para a criança durante semana. Com o parque do lado de casa, as pessoas não gastam com transporte e alimento, porque dá para almoçar em casa, por exemplo”, conta a pesquisadora de desenvolvimento infantil, que foi demitida no início da pandemia e tem um filho de 7 anos.

O projeto social Mãos de Maria, que entrega marmita para os moradores que não têm o que comer, tornou-se o emprego dela na pandemia. “Temos ajuda em relação a curso e emprego, mas lazer é algo que falta. Os poucos lugares estão muito cheios”, diz Milena, que sente falta de fazer atividade física e ficar em lugares arborizados. “A saúde mental fica abalada”

Outro problema que ela identifica é a distração de idosos e crianças. Por conta da pandemia, boa parte do tempo, para quem tem essa opção, é dentro de casa, mas nem sempre é fácil mantê-los sem atividade. “A natureza é fundamental, principalmente para crianças e idosos. Explicar para o meu filho que não tem um lugar ao ar livre para manter o distanciamento é difícil. E lazer é saúde”, comenta.

Ana Priscilla Christiano, mestre em psicologia na área de Infância e realidade brasileira e professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), ressalta que os cuidados sanitários não devem ser esquecidos em nenhuma hipótese, mas que o isolamento varia de acordo com a realidade de cada cidadão.

“Não podemos perder de vista que as crianças da periferia muitas vezes continuam sendo expostas aos riscos, visto que seus pais e familiares, que coabitam a casa com ela, muitas vezes não deixaram de trabalhar e circular pela cidade”, aponta.

Além disso, a doutora também alerta que o ambiente doméstico nem sempre é harmonioso. Com todas as situações que foram desencadeadas pela pandemia, como preocupações financeiras, permanência das pessoas em casa por mais tempo, preocupação com os idosos da família, dentre tantos outros fatores, os conflitos acabaram se tornando mais presentes e frequentes”, ressalta.

Logo, segundo Ana, espaços de lazer podem auxiliar na sua saúde mental, visto que ali elas podem interagir com outras crianças, podem brincar, correr, soltar o corpo e assim distanciar-se um pouco das tensões presentes em suas casas.

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