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Blog do Prêmio CLAUDIA: “Viajo a trabalho sem meus filhos e isso não me torna uma mãe pior”

Por Giuliana Bergamo (colaboradora) Atualizado em 27 out 2016, 19h08 - Publicado em 18 jul 2016, 18h13

“Você viaja a trabalho? Nossa! E você deixa seus filhos sozinhos?” É esta linda frase – ou algumas versões dela – que eu costumo escutar quando, durante as viagens para conhecer as candidatas ao Prêmio CLAUDIA, conto que sou mãe de duas crianças: a Valentina, que tem 5 anos, e o Antônio, que acaba de completar 3 anos. Não é fácil ouvir coisas assim. Se eu me distrair, pulo no balde de culpa que carrego comigo para casos de emergência. Para não correr esse risco, treinei uma resposta. É a mais verdadeira de todas. E também a que me dá mais forças para seguir firme sendo uma mulher mais ou menos independente, uma mãe mais ou menos responsável, e uma profissional que dá mais ou menos conta do recado. Digo: “Sozinhos? De jeito nenhum! Eles têm pai também.”
Sim, eu sou uma mulher afortunada. Mas, ironia das ironias, sou afortunada por ter justamente o que deveria ser o mínimo na vida de qualquer mulher. Na vida de qualquer pessoa, aliás. Vivo um relacionamento justo. Ou, pelo menos, eu e meu marido batalhamos para que seja assim. Temos dois filhos que amamos. E que planejamos juntos! E sobre os quais, portanto, temos a mesma responsabilidade. Por que raios, então, o fato de eu ter que sair de casa para trabalhar significa que meus filhos estão sozinhos? Alguém me responde? 
Eu não pretendo, com este post, dar bronquinha em ninguém. Reconheço que a curiosidade (ou a pena, ou o julgamento, ou seja lá o que for) por trás desta pergunta é um problema de todos nós. É um problema da sociedade ainda tão atrapalhadinha em que vivemos. É um mito e, como tal, precisa ser rebatido diariamente até que o fato de que uma criança é criada pelas duas pessoas que escolheram ser pai e mãe (ou mãe e mãe, ou pai e pai, ou qualquer outra versão de família) dela torne-se o senso comum. E não o contrário. Sendo assim, resolvi expor a minha experiência. Afinal, foi graças à generosidade de muitas finalistas do Prêmio CLAUDIA que eu consegui ter certeza de que estou fazendo a coisa certa. Em nossas entrevistas ou conversas informais, elas abriram para mim todas as dificuldades que encontraram para combinar dedicação a um trabalho e maternidade. Acredito, portanto, que precisamos dividir nossas experiências para torná-las cada vez mais banais, comuns e, portanto, aceitas. 

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As crianças não sentem saudades?
Claro que sentem. E eu morro de saudade também. Mas saudade faz parte da vida, não faz? Quando, se não na infância, um indivíduo deve ter contato com a saudade? Na minha opinião, vivemos uma fase de muito respeito e cuidado com as crianças, o que é uma vantagem, sim. Mas estamos a um passo de romantizar tanto esta fase da vida que corremos o risco de criar pessoas emocionalmente despreparadas, que chegam à idade adulta totalmente blindadas contra as dificuldades da vida e, quando se deparam com elas (porque é inevitável, deixa eu contar a você), não sabem o que fazer. Daí para frente, os riscos são incalculáveis. 
Por outro lado, eu não acredito que a saudade deva ser enfiada goela abaixo. Por isso, tomo alguns cuidados. Sempre que possível organizo meus roteiros para que eu possa passar não mais do que três noites fora. De onde estou, ligo, mando áudios de whatsapp, fotos e afins. E volto com memórias de viagem. Antes eram presentinhos, mas percebi que meus filhos estavam quase torcendo para que eu viajasse só de olho no que ganhariam com isso. Então, resolvi mudar a estratégia e volto com histórias, desenhos, e fotos. Assim, eles se sentem menos distantes do que eu vivi sem eles. 

Seu marido não reclama?
Se eu disser que ele diz “amém” quando eu viro as costas com minha malinha, eu estarei mentindo. Claro que ele se importa. Claro que é muito mais fácil quando eu estou presente para dividir as tarefas. Claro que ele sente saudade. Claro que, vez ou outra, ele se sente sobrecarregado. Eu também sinto tudo isso aí quando ele está fora. A questão é que foi tudo planejado antes, entende? Por mais que esses escorregões aconteçam, quando a cabeça está fria e tudo volta ao seu lugar, nós dois sabemos que, sim, estamos fazendo o melhor que podemos por nós e pela nossa família. 

Ah… Mas você tem babá, né? Se não seria impossível.
Sim, contamos com os serviços de uma babá que passa algumas horas por semana com as crianças. E esta não é a única ajuda. Também temos parentes. Os avós, embora trabalhem, não medem esforços para ajudar. Sobretudo AS avós. A questão é que ninguém que nos ajuda é explorado por isso. Nem, em nenhum momento, praticamos isso que chamam (eu também chamo) de “terceirização dos filhos”. Como me disse a cineasta Anna Muylaert, finalista da categoria CULTURA: “Criar filhos sem auxílio é impossível.” Eu e meu marido montamos uma estrutura que atende a necessidade da nossa família. E eu torço para que cada família monte a sua, da maneira que julgar melhor.   

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Você não tem medo de que, daqui a alguns anos, seus filhos cobrem você por ter ficado longe?
Tenho. E não tenho. Eu, sinceramente, não sei o que vai acontecer daqui a alguns anos. Se não pelas viagens, meus filhos certamente me cobrarão por algo. Não é isso o que filhos crescidos fazem com os pais? Seja lá como for, ter um trabalho que inclui viagens foi uma escolha minha. Antes de aceitar a proposta, eu avaliei as condições. Cheguei à conclusão de que, para mim, como pessoa, mulher e profissional, seria vantajoso. Eu realmente acredito que os filhos ficam melhores com uma mãe um pouco mais ausente, porém feliz e satisfeita quando está presente, do que uma que esteja por perto o tempo todo e chateada por não estar realizada. É maravilhoso ser mãe e eu gosto muito de ficar com meus filhos. Mas eu não sou só isso. E seria infeliz se vivesse só cuidando deles. 
Espero que, se desejarem ter filhos, o Antônio e a Valentina não passem pelos mesmos problemas da minha geração. Espero que, para eles, seja óbvio que, em um casamento, os parceiros dividem as tarefas igualmente. Espero, sobretudo, que a Valentina tenha certeza de que ser mãe não é uma obrigação e nem o fim dos seus planos de carreira ou de indivíduo. Se eles me cobrarem pela ausência, é mais ou menos isso que responderei. 

E se acontecer algo com eles quando você estiver fora?
Vai ser um drama! Eu vou chorar cântaros. Eu vou me enfiar bem fundo naquele balde de culpa que mencionei no início do texto – neste ponto, ele já terá virado um açude inteiro – e ficarei lá embaixo, esperando morrer afogada. Eu vou querer correr para o aeroporto e pegar o primeiro avião. E, no voo, desejarei cair e me matar. Mas, aí, passado o suplício da notícia, eu vou respirar fundo e lembrar que eles têm um pai maravilhoso e que, certamente, estará tomando as medidas mais sensatas. Vou lembrar também que eles têm duas avós adoráveis e disponíveis e dois avôs. Dependendo do que tiver acontecido, vou agradecer por poder contar com uma pediatra competente e sempre a postos e por ter um plano de saúde com bons hospitais. Aí eu continuarei nervosa e triste, mas cuidarei dos trâmites para que eu volte para casa o mais rápido possível caso seja necessário. Se minha presença não for imprescindível, eu segurarei firme até o fim do trabalho e, então, beijarei muito meus rebentos na volta. 

E se você tiver que perder alguma festinha ou data importante?
Perder aniversários está fora de cogitação. Eu também faço o que posso para não perder nada importante, como reuniões ou comemorações escolares. Mas isso aconteceu, sim, este ano. Perdi a festa junina das crianças. Infelizmente, por mais que eu tenha tentado, não consegui administrar o calendário e acabei perdendo. Fiquei muuuuuito triste. E acho que o meu caçula sentiu também. Mas, para amenizar minha ausência, dei um jeito de estar um pouco presente. Antes de viajar, fui com cada um deles comprar individualmente o figurino da festa. Deixei tudo organizado e, no grande dia, me comuniquei com todo mundo para saber como esta sendo. 

Mas você não faz, mesmo, questão de estar presente?
Eu não tenho dúvida de que uma mãe é importante na vida de uma criança, sobretudo na primeira infância. Só não acredito que ela seja imprescindível. Nem, muito menos, necessária 100% do tempo. Para falar a verdade, essa pergunta mexe com o narcisismo materno. Afinal, para aceitar sair de cena, temos que nos convencer de que, sim, há mais gente capacitada para fazer aquilo que, até há pouco, nos disseram que era “instinto materno”, “coisa de mãe”. Fora gestar, parir e amamentar, todo o resto um bom pai pode fazer. É preciso assumir isso para ser uma mãe – e uma mulher – mais livre e leve. Mas não é fácil. 

Em tempo, preciso fazer uma agradecimento nominal às finalistas-mães que, neste e no ano passado, abriram para mim suas histórias e me serviram de inspiração para seguir trabalhando. Um beijo e um abraço apertado virtual para Anna Muylaert, Mari Corrêa, Brigitte Louchez, Mônica Azzariti, Neide Santos Silva, Cris Junqueira, Carla Sarni, Heloisa de Oliveira, Paula Johns, Mariangela Hungria, Maria Isabel Achatz. Maria Goretti dos Sales Maciel, Raquell Guimarães, Ana Lúcia Fontes, Berna Reale, Renara Meirelles, Dora Martins, Raquel Domingues, Marinalva Dantas, Tia Dag, Sula Sevillis, Lisandra Mazutti, Anadeli Braz e Flavia Dias. Sem vocês, teria sido muito mais difícil não pular no balde de culpa!

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