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Thelma campeã no BBB20 é a vitória de milhares de mulheres negras

Médica anestesiologista em quatro hospitais, passista de escola de samba e com o apoio de Viola Davis, Thelma é símbolo de representatividade

Por Colaborou: Gabriela Maraccini - Atualizado em 28 abr 2020, 11h33 - Publicado em 28 abr 2020, 11h31

O Brasil consagrou Thelma Assis como a campeã do Big Brother Brasil 20, na noite da última segunda-feira (27). Em uma edição histórica, com recorde de votação, pontos altíssimos de audiência, que conseguiu se manter firme mesmo durante uma pandemia e com apenas dois participantes negros, a vitória de “Thelminha” é de extrema importância e mais um ato histórico deste BBB.

Aos 35 anos, Thelma tornou-se símbolo de representatividade para milhares de mulheres negras ao redor do Brasil. Antes de se tornar ganhadora do prêmio de um milhão e meio de reais, ela é médica anestesiologista e trabalha em quatro hospitais de São Paulo. Por hobby, ela ainda faz parte da bateria e da comissão de frente da Mocidade Alegre, escola de samba paulista.

Apesar de ser a única inscrita a chegar na final – o BBB20 foi dividido entre participantes convidados, grupo denominado como “camarote”, e os inscritos, grupo “pipoca” – e ter concorrido com dois nomes de peso, Manu Gavassi e Rafa Kalimann, que juntas somam 25,9 milhões de seguidores no Instagram, Thelma uniu o apoio de muitas pessoas, incluindo nomes conhecidos como Taís Araújo, Preta Gil e até mesmo a atriz americana Viola Davis.

Thelma é a campeã do reality Globo/Reprodução/Divulgação

“‘Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.'”, escreveu Taís em seu Twitter, citando frase memorável da filósofa e ativista negra Angela Davis. O tweet foi curtido e compartilhado pela Viola Davis, o que demonstrou a grandeza de Thelma no BBB, ultrapassando as fronteiras brasileiras e chegando a nível internacional. Lembrando que Viola, além de atriz, é também ativista pela defesa da mulher e população negra nos Estados Unidos.

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Preta Gil compartilhou nas redes a sua reação ao saber que Thelma era campeã. “A vitória de @thelminha_assis é uma esperança para nós!”, escreveu ela. Durante o bate-papo com a ganhadora na Rede BBB, a cantora ainda anunciou Thelma é a nova agenciada de sua empresa, parceria que foi feita há um mês com o marido da médica. “Basicamente, eu sou sua empresária. Somos mais que amigas, somos friends”, contou.

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Bruno Gagliasso também publicou uma foto bastante representativa em seu Instagram, com seus filhos Chissomo, a Titi, e Bless em frente à televisão com a imagem do momento em que Thelma soube que era campeã. “Como é importante essa vitória! Como ela é mais que a sua vitória! Estou falando de identidade, de representatividade, de exemplo”, escreveu ele. Veja a publicação completa abaixo:

https://www.instagram.com/p/B_gmBqLnBM8/

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Adoção, luta para estudar medicina e racismo estrutural

Para entender a importância da vitória de Thelma, é preciso conhecer também um pouquinho de sua história antes de entrar na casa mais vigiada do Brasil.

Criada na periferia de São Paulo, Thelma foi adotada com apenas três dias de vida pela funcionária pública aposentada Yara Assis, hoje com 70 anos, e pelo gráfico Carlos Alberto de Assis. O casal havia perdido um bebê.

O sonho de ser médica surgiu quando ela ainda era criança e passava pelo tratamento de uma bronquite. Apesar das dificuldades, seus pais lutaram para que ela conseguisse se formar no Ensino Médio em uma escola particular. Thelma conseguiu, então, uma bolsa de 50% para estudar em um cursinho pré-vestibular.

Tendo estudado balé quando jovem, ela pagava a mensalidade do cursinho dando aulas de balé e distribuindo panfletos. O esforço fez valer a pena e após três anos de estudos, ela foi aprovada no vestibular de medicina com bolsa 100% e passou a receber R$ 300 de auxílio do governo.

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Paulo Belote/ TV Globo/Divulgação

Na universidade, passou outras dificuldades. Sem conseguir comprar os livros do curso, ela passava dia e noite na biblioteca para conseguir estudar. E, mesmo assim, ela se formou em medicina.

Em seu canal no YouTube, Thelma mostra a sua rotina de trabalho nos quatro hospitais e um pouco também da vida na Mocidade Alegre. Em um dos vídeos, que foi muito repercutido nas redes, a médica relata casos de racismo que enfrentou na vida acadêmica e ao longo de sua carreira.

“Em uma aula da faculdade eu tive que ouvir, imagine eu numa sala com 10 pessoas, eu tive que ouvir um professor conceituado, que escreveu livro, um professor de ginecologia e obstetrícia que na opinião dele os negros deveriam se dedicar ao esporte, porque a nossa musculatura é muito melhor, que a nossa força de explosão é muito melhor, e que a parte intelectual e cientista, que significa a parte de inteligência, deveria ficar com os brancos”, conta ela no vídeo.

“Eu sou médica e me especializei em anestesia. Dentro de uma equipe, o hospital trabalha com equipes multidisciplinares. Dentro da equipe tem enfermeiros, técnicos de enfermagem, auxiliares de enfermagem, cirurgiões, anestesistas, instrumentadores. Se você pegar dez mulheres sendo nove brancas e eu, que sou negra, e colocar dentro de uma sala de cirurgia no hospital, e perguntar quem é a médica anestesista, ninguém – e eu falo isso com propriedade -, ninguém, nem mesmo o paciente, vai dizer que a médica anestesista sou eu”, desabafa.

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A vitória de Thelma, em uma edição que levantou bandeiras contra o machismo e racismo, com participantes que denominaram-na como “planta” (ou seja, alguém que não tem participação marcante no programa) e que não a apontavam como possível campeã, é a vitória de milhares de mulheres negras no Brasil. É a vitória pela representatividade. É mais uma história de superação.

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