CLIQUE E RECEBA EM CASA A PARTIR DE R$ 12,90/MÊS

Aline Barbosa mostra delícias e tretas da maternidade solo no Instagram

Gaúcha de 32 anos revela as dores e delícias de educar sozinha quatro crianças, enquanto enfrenta a culpa que acompanha todas as mães, machismo e racismo

Por Joana Oliveira Atualizado em 26 Maio 2022, 16h11 - Publicado em 29 Maio 2022, 08h05

No início, ela queria mostrar nas redes sociais apenas as partes “bonitas e fofinhas” da gestação e da maternidade. Mas logo os “perrengues de mãe” se impuseram e Aline Barbosa, professora e criadora de conteúdo de 32 anos, não conseguiu esconder os desafios de educar os quatro filhos, Laura, Vicente, Joaquim e Antônia, sozinha. Hoje, além das fotos amorosas com as crias, ela compartilha com seus mais de 18 mil seguidores no @mãecrespa a falta de tempo para almoçar em paz sem que um dos pequenos demande sua atenção e até a vontade de “sair para comprar pão e não voltar mais”. “Além de toda a responsabilidade, a maternidade traz consigo uma certa solidão”, confessa Aline a CLAUDIA. 

No mês que celebra as mães, ela foi a escolhida para estrear a série documental M de Mulher Brasileira, criada pela Marisa, onde conta sua história. “Eu nunca sonhei em ser mãe, a maternidade simplesmente aconteceu na minha vida”, diz a gaúcha de Porto Alegre, relembrando a gravidez da primeira filha, aos 19, quando ainda morava com os pais. Com o apoio deles e da irmã, concluiu a faculdade. “Eles fizeram de tudo para que eu não desistisse dos meus sonhos, mas me sentia muito julgada por outros familiares e pessoas próprias. Eu mesma acreditava que família era só com pai, mãe, não enxergava a mim e minha filha como uma família”, conta.

Quando se casou e teve o segundo filho, Aline descobriu que esse sonho da “família tradicional” nem sempre tinha um final feliz. “Minha casa era um ambiente tóxico para os meus filhos, com muitas brigas. Depois da separação, eles nitidamente se tornaram crianças mais felizes. Vejo que foi um ato de coragem sair desse relacionamento“, afirma, dois anos e meio depois do divórcio.

Mesmo antes de terminar o casamento, ela já sentia o peso da maternidade solo: enquanto o marido passava o dia fora, trabalhando, ela, que largou o trabalho numa escola para cuidar melhor da saúde do segundo filho, vivia para atender às demandas da prole. “Eu me sentia muito sozinha, entrei em depressão, não queria sair de casa de forma alguma”, revela no curta-documentário da Marisa.

Se já estava acostumada com a carga de trabalho doméstico e de cuidados, Aline não estava preparada para a responsabilidade financeira que teve que assumir após a separação. “É por conta dessa dependência que muitas mulheres, infelizmente, ficam em relacionamentos que lhes fazem mal. Durante meses, eu e meus filhos tínhamos apenas as refeições principais. As crianças não podiam ter sequer um lanche”, lembra.

Continua após a publicidade

Graças ao trabalho como criadora de conteúdo —além do próprio perfil, ela é embaixadora de uma marca de café—, levou a família adiante e, recentemente, realizou um grande sonho dos filhos: levou-os para conhecer o mar. Os registros em fotos e vídeos dessa viagem lembram que todo o sacrifício e amor valem a pena, mas nada é fácil. Em 2021, Aline chegou a ter síndrome de burnout (engana-se quem pensa que a doença só acomete mulheres que trabalham fora de casa) e buscou ajuda na terapia. “Minha terapeuta me fez enxergar e entender que existe uma mulher antes da mãe de quatro filhos”, diz ela, que começou a olhar mais para si mesma e tirar um tempo para o autocuidado e bem estar. Mesmo fazendo malabarismos para driblar a culpa, essa companhia constante de quem vive a maternidade. 

“Eu me culpava principalmente por eles não terem convivência com o pai, até entender que essa foi uma escolha dele. Aí comecei a buscar um tempo só para mim e hoje até consigo sentar para tomar um café na rua antes de voltar do mercado para casa”, ri.

Junto com a culpa, muitas vezes vem também a vergonha. Foi o que Aline sentiu quando, ainda casada, descobriu que estava grávida da caçula, Antônia. Ela pensava em como diria para as pessoas que teria uma quarta filha, principalmente sabendo que, no Brasil, mulheres negras, como ela, são a maioria das mães solo (61%, segundo o IBGE). “Eu já ouvi: ‘Aline é o retrato da sociedade brasileira, uma mulher preta cheia de filhos’. Recai sobre nós a culpa de uma suposta falta de planejamento familiar“, lamenta.

Enquanto outras produtoras de conteúdo ou influencers brancas com tantos filhos quanto ela são elogiadas, Aline ainda recebe comentários como esse no Instagram. “Por isso decidi fazer esse trabalho. Não me sentia representada nas redes, só via mães brancas com imagem de família perfeita”, diz. Para ela, lidar com esse racismo e a pressão social é a maior dificuldade da maternidade solo. “Nas seleções de emprego, eu passava por todas as etapas e, quando chegava na entrevista, era dispensada quando dizia que tinha três filhos. ‘Se seus filhos adoecerem, com quem eles vão ficar?’, questionavam. Tenho certeza que nenhum homem jamais teve que responder essa pergunta.”

Aline namora há seis meses (o primeiro relacionamento desde o seu divórcio) e conta que o companheiro também enfrenta julgamentos sociais por estar com ela. “Ou é chamado de ‘guerreiro’ por estar ao meu lado, como se estivesse fazendo algum ato de caridade, ou é considerado trouxa. ‘Como você é louco de estar com uma mulher com quatro filhos?’ dizem para ele.” Essas são algumas das situações que ela também debate no seu perfil. “Recebo muitas mensagens e tenho muita troca inclusive com mulheres que sequer são mães. E assim vamos aprendendo e crescendo juntas“.

Aline celebra que, recentemente, uma seguidora escreveu para contar-lhe que, inspirada por ela, teve coragem de largar o marido abusivo e se mudar com os filhos para outro estado. Para ela, não há dinheiro ou fama no mundo que pague essa alegria.

Continua após a publicidade

Publicidade