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A história da mulher que teve 4 filhos de uma vez sozinha

Luciane Carvalho, 39 anos, sempre sonhou em ter filhos, se planejou, fez inseminação artificial e tomou um susto quando o resultado revelou quádruplos

Por Depoimento a: Fernanda Bassette | Fotos: Marcos Nagelstein - Atualizado em 18 fev 2020, 08h44 - Publicado em 13 Maio 2019, 15h16

“Desde muito jovem, eu tinha o sonho de ser mãe, mas, diante de alguns relacionamentos que não deram certo, estabeleci 39 anos como a idade-limite para engravidar. Se até lá eu não encontrasse um parceiro definitivo, partiria para a produção independente para realizar meu maior desejo.

Afinal, depois dessa idade vai ficando cada vez mais arriscado para a mulher gerar filhos. Até chegar a essa decisão, passei por várias frustrações amorosas, que me fizeram pensar melhor na minha vida. Não foi uma decisão tomada do dia para a noite. Levei anos amadurecendo a ideia e me preparando financeiramente para isso.

Eu venho de uma família muito unida, com mãe, pai, irmã e um irmão gêmeo – sim, eu tenho um irmão gêmeo. Há dois anos, descobrimos que meu pai estava com uma doença grave, que depois se transformou em leucemia, e recebemos a notícia de que precisaria de um transplante de medula óssea.

Decidi então antecipar o projeto de ser mãe solo para que ele pudesse acompanhar o processo e conhecesse o neto – até então, não imaginava uma gravidez múltipla.

Procurei um especialista em reprodução assistida e optamos pela inseminação artificial. Eu receberia uma medicação para superestimular a ovulação e, no período fértil, seria injetado diretamente no meu útero o esperma que eu havia escolhido no banco de sêmen.

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Contei ao médico que tinha um irmão gêmeo e, preocupada com isso, questionei sobre a probabilidade de eu ter uma gravidez gemelar. Ele me tranquilizou dizendo que era de apenas 6%. Produzi cinco folículos – dois foram considerados pequenos e de má qualidade. O ginecologista afirmou que provavelmente os dois menores não vingariam e que dificilmente seriam trigêmeos. Acreditei.

No dia da inseminação, fui sozinha. Depois do procedimento, que foi muito rápido, começou a me cair a ficha de que o negócio já estava feito e não dava mais para voltar atrás. Mas como lidar com a ansiedade de esperar os 15 dias pelo resultado positivo? E o medo de virem gêmeos?

O tempo foi passando e, no 11º dia, não aguentei e fiz um exame de urina com teste de farmácia. Na hora não apareceu nada e comecei a chorar. Mas, minutos depois, surgiu um segundo risco bem clarinho e, aí, enlouqueci. Liguei para o ginecologista, e ele pediu um exame de sangue quantitativo. Quando saiu o resultado positivo, decidi fazer uma surpresa para meus pais, que até então moravam na praia.

Coloquei um par de sapatinhos dentro de uma caixinha e escrevi uma cartinha para eles como se fosse o neto conversando e contando a novidade. Eles ficaram felizes da vida. A primeira pergunta do meu pai foi: ‘Filha, e se vierem gêmeos’? Eu disse que seriam bem-vindos de qualquer maneira, mas me lembrei do cálculo que o médico havia feito, de 6% de chances. Na minha cabeça, eu nunca teria uma gravidez múltipla.

Com 21 dias de gestação, fui fazer o primeiro ultrassom. E, para minha surpresa, havia três bebês. Saí da clínica em choque, chorando muito. Não estava preparada para ser mãe de três. Mas fui me acostumando com a ideia. No segundo ultrassom, meus pais me acompanharam.

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Durante o exame, o médico fez o anúncio: ‘Luciane, não são três bebês, são quatro’. Ali meu mundo desabou. Ficamos desconcertados. Eu não estava preparada para ser mãe de três, imagine de quatro! Apavorada, deixei o consultório aos prantos, com a cabeça estourando. Disse a meus pais que gostaria de ficar sozinha em casa e que não queria falar no assunto naquele momento. Eles respeitaram.

Passei dois dias isolada, pensando no que estava acontecendo. Não conseguia organizar as ideias. Comecei a questionar: ‘Como vou transportar quatro crianças? Pagar escola? Adaptar a minha casa para recebê-las?’ Sabe quando tantos anos de preparo e planejamento vão por água abaixo? Foi assim que me senti. De mulher solteira e independente a mãe de quádruplos.

Depois de me recuperar do baque emocional, decidi ir para a casa dos meus pais em busca de apoio e de segurança. E foi lá que tudo realmente mudou. Eles me abraçaram e me trouxeram soluções. ‘Se for preciso, a gente vende a casa da praia, o carro; se necessário, mudamos para mais perto de você.’ Foi nesse momento, com esse acolhimento, que eu abri espaço para minha gestação evoluir. Só então passei a curtir a gravidez de fato.

Por se tratar de uma situação incomum, procurei uma médica especializada e segui à risca todas as recomendações. Com 22 semanas, em uma consulta de rotina, soube que já estava com um dedo de dilatação e fui obrigada a me internar para ficar em repouso absoluto. Meu pai, mesmo doente, cuidava muito de mim.

Marcos Nagelstein/CLAUDIA

A meta da obstetra era segurar o parto até a 34ª semana, mas não conseguimos. Antonela, Nicolas, Sofia e Valentina nasceram com 33 semanas e, apesar do peso bom – cada um deles entre 1,3 quilo e 1,9 quilo –, eles tiveram de ficar um tempo na UTI neonatal.

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Toda a euforia do nascimento, porém, se transformou em dor em poucos dias. Os bebês chegaram em 29 de agosto e meu pai morreu 11 dias depois. Vivi um misto de sensações e tive que fazer muita terapia para trabalhar meu emocional.

O momento da alta hospitalar é um capítulo à parte. Como fiquei dois meses internada, tive de coordenar a reforma da minha casa à distância. Saí do hospital antes das crianças – uma amiga me levou embora. Apesar de tudo o que já tinha passado, foi apenas no percurso que a ficha realmente caiu.

Fui observando a paisagem e pensando que eu fazia aquele caminho sozinha, solteira, voltando do trabalho. Dali para a frente, o faria como mãe de quatro filhos. Chorei muito outra vez, a cabeça deu um bug.

Sem meu pai, minha mãe veio morar comigo e até dorme na mesma cama que eu – ela é minha segurança, minha fortaleza. Também contratei uma babá para nos auxiliar. Os bebês ficaram na UTI entre 20 e 30 dias e receberam alta em momentos distintos.

Quando entrei em casa com a Valentina, a última a sair do hospital, a sensação de felicidade tomou conta de tudo. Parecia que meu coração explodiria. Finalmente estava com meus filhos tão sonhados.

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Os três primeiros meses foram os mais difíceis. As situações ainda eram muito novas e a gente estava aprendendo a lidar. Os bebês até que eram bem tranquilos, mas o tempo todo queriam mamar. Eu dava o peito para dois deles enquanto os outros dois tomavam mamadeira. Depois revezava.

Ainda precisava fazer arrotar, trocar a fralda e colocar para dormir outra vez. Por dia, consumia pelo menos uma lata de leite e, no mínimo, 24 fraldas descartáveis – 720 no mês! A minha sorte é que o governo fornece as latas de leite e eu tinha ganhado muitas fraldas no chá de bebê.

Ser mãe de quatro exige disciplina e rotina. Então nossa vida é bem regrada. As crianças ficam na escola em período integral. É no trabalho, das 14 às 20 horas, que descanso a cabeça. Mas, nos fins de semana, sou eu quem assume os cuidados. Meus filhos acordam por volta das 6 horas da manhã. Levo a mamadeira e os mantenho deitados por mais um tempo.

As camas são montessorianas, ficam no chão. Assim, consigo deitar junto e dar uma cochilada. Por volta das 8h30, vou para a sala brincar. Às 9h30, dou uma fruta, e a vovó vem me ajudar. Nesse momento, me dedico às páginas que criei no Instagram – @4vidasnaminhavida, que tem 111 mil seguidores – e no YouTube – Quatro Vidas na Minha Vida, com 141 mil. Nelas, conto um pouco do nosso dia a dia, divido experiências, recebo palavras de amor.

Às 11h30, servimos o almoço. Duas crianças ficam no cadeirão e as outras duas na mesinha. Elas comem sozinhas; imagine a bagunça… Depois disso, tiramos o soninho da tarde. Faço os quatro dormirem juntos; senão desregula demais. Por volta das 15 horas, voltamos a brincar, passeamos no parque ou na praça. É sempre uma aventura.

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Lá pelas 17h30, começo a servir o jantar para emendar com o banho. Se tudo correr bem, às 20 horas estão todos dormindo. E assim vamos vivendo um dia de cada vez. Atualmente, meus filhos estão na fase de imitar o irmão. Um chora porque quer colo, o outro chora também. E o outro também. Se um chora porque quer brincar, o outro começa logo em seguida. É cômico.

Além disso, claro, ficam doentes juntos, sempre numa escadinha. Um atrás do outro. Apesar de todas as dificuldades e perrengues pelos quais passamos, não me arrependo de nada do que fiz. Faria tudo exatamente igual. As coisas aconteceram da forma como tinham que ser. É perfeito assim. Sou a mãe mais feliz do mundo.”

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