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As contradições de uma elite jovem em “Os Coadjuvantes”, de Clara Drummond

Com uma voz narrativa original, a escritora foge dos estereótipos de uma personagem feminina para criar um livro tão complexo quanto a sua protagonista

Por Paula Jacob Atualizado em 12 abr 2022, 19h26 - Publicado em 14 abr 2022, 08h08

Queria propor um desafio: comece a ler Os Coadjuvantes, de Clara Drummond, (Companhia das Letras, R$ 55) e tente não devorar em questão de horas. Juro que é difícil. Com uma voz narrativa original e bastante atual, a autora brasileira fala de comportamento, sexualidade e política sem você nem perceber. Ou melhor: você percebe sim, nas entrelinhas, como se fosse uma amiga te contando as histórias mais íntimas da vida cotidiana ao passo que costura acontecimentos sociais que explicam muito sobre a classe média-alta do Brasil.

Veja, Vivian é curadora de arte, tem seus 30 anos, vem de uma família cheia de bens mas que, atualmente, não possui tanto dinheiro quanto no passado – mas ainda estamos falando de gente privilegiada no Rio de Janeiro. Sabe transitar entre o tradicional e o descolado, mesmo que falhe um pouco em ambos os espaços. No primeiro, vira a filha depravada, no segundo, uma falsa progressista. “Não me sinto confortável no ambiente que me foi designado ao nascer. Só de pensar em casamento e filhos tenho ânsia de vômito. Biologia não é destino”, diz a mesma no ótimo capítulo de introdução.

Irônica, sarcástica e um pouco sádica (talvez muito), essa protagonista nada se compara com as musas femininas que, de repente, a literatura contemporânea se deu trabalho de forçar criar. Livros e mais livros sobre mulheres fortes, independentes, donas de si, que, ok, são super necessários. Mas, depois do décimo, fica um pouco cansativo pensar em performar tudo isso a todo momento. Aqui, não. Vivian é meio aquela sua amiga, vizinha, até mesmo você. Dá um certo alívio entender que somos todos um pouco complexos demais para caber num 4:5 do Instagram, nos poucos sabidos caracteres do Twitter. Tem passado, tem mãe, tem igreja, tem família, tem boys errados – e garotas também. Álcool, drogas, discursos bonitos demais para serem colocados em prática. Enfim, a hipocrisia de uma geração. 

Livro os coadjuvantes
Livro “Os Coadjuvantes”. Divulgação/Divulgação

Talento para reconhecer isso não falta em Clara Drummond. Todo escritor precisa de um ótimo dom de observação, e ela me parece bem perspicaz nessa visão da elite brasileira que não quer abrir mão de ~certos confortos~, mas se esconde sob bonés com frases politizadas. “Chegando lá, logo vi um segurança na porta, meu nome não estava na lista, porém sabia que não seria barrada, mesmo com roupas casuais, vestido preto, simples, de linho, com sandálias rasteiras, brincos pequenos, sou branca, tenho cara de rica, não preciso de passaporte, os códigos são genéticos”, pontua Vivian em outro capítulo.

Viramos confidentes do histórico de saúde mental, cerceado por uma presença materna sufocante e controladora, dentro dos ideais da feminilidade clássica, é claro. E também da criação castradora de prazer que vira uma catarse na vida adulta: “Eu pedia perdão, fazia pequenos acordos, vinte minutos de pensamentos sexuais e em troca eu rezaria o terço”. São signos sociais muito bem montados (e usados) para se safar de determinadas responsabilidades. Não que Vivian queira se livrar disso – o porquê da personagem ser tão boa. Porém, ao encararmos de frente um retrato tão específico, fica a pergunta: o que temos de Vivian e não queremos admitir? Deixo o final do livro como um grande e belíssimo capítulo para fazer você refletir.

A seguir, um papo honesto com Clara Drummond:

Como foi o processo de escrita de Os Coadjuvantes?

Eu comecei a escrever um livro assim que lancei meu segundo livro, em 2016, mas estava ficando muito ruim [risos], muito condescendente. Não consegui manter uma distância, acho que precisava exorcizar algo que vivia na época. A voz era diferente… E aí um dia, em 2018, comecei outra história, com outra voz narrativa, com a Vivian. Senti algo forte logo na primeira página. Essa personagem era mais interessante, mais escrota, perversa, com mais contradições. Abandonei o outro livro, pegando emprestado dele algumas partes sobre a depressão, para humanizar a personagem. Na época, ainda, a eleição de [Jair] Bolsonaro deixou evidente as tensões de classe. Por isso, escolhi colocar a história da Darlene como contraponto [a personagem em questão é uma mulher que vendia bebidas na esquina próxima ao apartamento de Vivian]

As contradições da Vivian são ótimas, você comentou de humanizar ela, dessa história com a Darlene. É perceptível que, no fim das contas, é sempre sobre ela própria, para alimentar o ego. Como foi trabalhar as ambiguidades da protagonista? Porque ela não é ruim, de fazer mal para alguém, mas também não é uma pessoa que você aspira ser.

Fazer uma personagem mais perversa é mais divertido. Eu detesto moralismo, ele é muito nocivo e contraproducente porque é uma bondade superficial, quase performática. Nós, seres humanos, somos meio escrotos. Ninguém nunca gostou de se pensar como uma pessoa não tão legal. Mas como hoje em dia a maneira que nos vemos é a mesma que nos expressamos, isso fica mais evidente. Não sei se antes as pessoas tinham um diálogo interno maior, que não havia essa necessidade de se expressar o tempo inteiro… 

Fora que é mais benéfico ter personagens que têm um lado ruim, porque não tem como ser uma boa pessoa se você não conhece as suas sombras. As piores facadas que levei na vida foram de moralistas. Sabe quando falam que tal pessoa é “legal”, é “simpática”? Essas são as características mais superficiais que você pode listar de alguém. Explorar as sombras, tanto na literatura quanto na vida pessoal, nos torna melhores. O trauma é uma coisa “neutra”, pode te tornar melhor ou pior. Contudo, não é porque a personagem é uma mulher que ela vai ser eticamente superior.

Dentro desse contexto social da família, existe o moralismo da mãe. Ela não quer gastar dinheiro com o amigo do porteiro para arrumar a máquina de lavar, mas não pensa duas vezes ao encomendar os canapés para o jantar do governador. São várias passagens que mostram essa coisa bem brasileira, senti uma sátira, um crítica, um retrato de várias coisas que acontecem em contextos privilegiados. Colocar essa mãe sempre moralizando a Vivian, para ser uma “mocinha” aceita na alta sociedade, foi uma coisa natural?

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Eu queria que a mãe fosse uma espécie de espelho invertido da Vivian. Ali no final, com a história dela querer salvar a Darlene e transformar isso num final que, na verdade, traria benefícios para ela, Vivian, apenas, mostra esse delírio narcísico da protagonista, de querer ser a white savior da Darlene – apesar da personagem não ser racializada no livro. O drive da Vivian é muito individualista. Da mesma forma que é das pessoas ao redor dela. Claro, são outras referências e outra estética, mas o objetivo continua sendo neoliberal. Não é coletivo, nunca foi. O que a Vivian busca em relação a Darlene é exorcizar a culpa dela. A mãe, então, entra na história como se fosse o neoliberalismo old school, uma ideia mais antiga do que é esse individualismo e essa vida guiada por ter sucesso dentro de uma esfera determinada. No caso da mãe, uma esfera familiar e materialista mais clássica, de jantares, apartamentos, viagens. Na Vivian, são outros valores.

Clara Drummond os coadjuvantes
Autora brasileira Clara Drummond coloca em pauta as contradições da elite jovem brasileira em novo livro Zé Ortigão/Divulgação

É boa essa questão política no livro, aliás, as pontuações dos amigos negros e gays, como se desse a ela uma espécie de carteirinha para ser diferente da mãe. E isso é bastante atual, específico do tempo-espaço do Brasil hoje. Como fazer essa narrativa de um jeito identificável, sem ser panfletário? 

Foi difícil para mim, desde as edições em casa e, depois, com meu editor na Companhia das Letras. Em uma das versões, uso algo como “fulano é muito PSDB”. Tomei bastante cuidado para não ficar datado ou panfletário. Tive que dar uma boa filtrada para ficar sutil – e que bom que está, fiquei preocupada com isso. Na época, lia muito sobre política, então fazia parte do meu cotidiano.

A escolha da escrita em primeira pessoa foi consciente?

É mais fácil para mim trabalhar dessa forma. É uma coisa meio mágica, sempre vem. Ao menos a primeira página [risos]. Daí você precisa trabalhar para manter ela [a voz narrativa]. O que deu errado no livro anterior, que estava ruim. Escrevi um conto recentemente em terceira pessoa, mas percebi que o narrador fica colado na pessoa. Acredito que tenho mais facilidade para escrever questões interiores do que exteriores. Trabalho melhor para dentro do que para fora.

Além da política, a sexualidade é algo que vai e volta na vida de Vivian. Na infância, uma coisa cerceada pela religião e culpa. Na vida adulta, uma coisa catártica. Você tem algum conhecimento de psicanálise que te ajudou a explicitar essa libido dela de uma forma tão amarrada?

Durante a escrita do livro, comecei a ler bastante sobre gênero. Por interesse próprio. Também leio psicanálise, de maneira bem leiga – Freud tem uma escrita ótima, né? Mas não queria pesar a mão nisso. Tem um texto do Ricardo Piglia, sobre psicanálise e literatura, em que ele fala que a literatura é mais útil para a psicanálise que o contrário. Por mais que eu leia e me interesse, a sexualidade foi algo mais intuitivo na história. Toda vez que escrevia de forma racional, ficava insegura. Tem uma passagem que escrevo “a sexualidade é um pouco como nosso inconsciente”. Tirei da minha cabeça, nem sei se é verdade [risos]. [A sexualidade] é tão misteriosa, não sabemos de onde vem e nem se algum dia vamos entender realmente o que é, principalmente a feminina. O quanto o nosso desejo é nosso ou é formado pela sociedade patriarcal? O quão político ou feminista pode ser um sexo consensual entre quatro paredes? A gente nunca vai saber responder, porque não sabemos de onde vem todas as nuances. É uma tarefa tão difícil quanto tentar entender o nosso inconsciente.

É boa essa história do sexo ser político ou feminista… Pensando nas passagens com cenas eróticas do livro – que são zero gratuitas, diga-se –, a Vivian querendo ou não flerta com um sexo mais violento, há uma catarse nas cenas. O quanto, para a personagem, esse momento do sexo seria o único lugar onde ela consegue ser protagonista, finalmente? Considerando o contexto familiar e socioeconômico. 

Tive essa preocupação ao longo da escrita do livro, ainda mais no último capítulo, que é mais ambicioso – fico feliz que você tenha gostado. Não queria nada muito no espectro da ação e reação. Teve uma época que fiquei obcecada por Mad Men, devo ter visto umas três vezes seguidas. Uma questão que me deixou levemente irritada, apesar de achar a série perfeita, é o tratamento da sexualidade do Don Draper. Ela segue uma lógica freudiana um pouco matemática demais. O sexo violento casa perfeitamente com o momento de vida dele. Mas a sexualidade é mais misteriosa do que isso, ela não é tão espelhada na vida real. Por isso tive receio de parecer esquemático. 

Quando envolve um grau de sexo mais violento, existe uma certa teatralidade, é paradoxal. Alguns tipos de sexo podem ser extremamente teatrais e serem vinculados com o que há de mais misterioso no nosso inconsciente. E não falo em termos performáticos, tipo de filme pornô, isso é outra coisa. Digo no sentido de representação consciente de papéis mesmo. Como o sexo pode ser teatral e simultaneamente vinculado a um desejo inconsciente que não sabemos de onde vem? Quis dar uma pincelada disso na Vivian. Essa leitura que você fez não era algo que tinha pensado. É interessante a maneira como você colocou. A questão da submissão no sexo é catártica justamente pelo controle da situação. No fim, você tem muito mais poder. Já que na vida cotidiana temos que lidar com sistemas de dominação que não estamos consentindo, mas temos que enfrentar mesmo assim, lidar com eles em um ambiente controlado é mais saudável.

Além disso, gosto da personagem feminina que narra um sexo sem ser um estereótipo do que se espera de um sexo na visão de uma mulher. Não cai nas obviedades, mas também não banaliza.

A primeira cena de sexo estava muito mais violenta nos primeiros rascunhos. Gosto quando ela dá uma suavizada, transa daquele jeito mas conversa na cama. Queria explorar essa história de uma conexão corporal que pode ser bastante respeitosa e ter certa profundidade, sem necessariamente acabar num romantismo. Não precisa seguir um roteiro, namorar, casar, ter filhos… O que não impede de ter um carinho ali. E isso é uma discussão bastante presente hoje.

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