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Conceição Evaristo: “há que ser cínico para negar o racismo no Brasil”

Escritora revisita sua obra-prima 'Olhos D'água', coletânea de contos vencedora do Prêmio Jabuti, agora editada em formato de audiolivro

Por Joana Oliveira Atualizado em 15 mar 2022, 11h55 - Publicado em 13 mar 2022, 07h56

A primeira “lição de negritude” que a escritora Conceição Evaristo recebeu foi do seu tio Oswaldo Catarino Evaristo, um expedicionário que fazia parte do Movimento Negro de Belo Horizonte, em 1950. Foi sob a influência dele que cresceu e foi ele quem lhe abriu portas para, posteriormente, conhecer a obra de nomes como Adão Ventura, um dos primeiros poetas negros do país, e Abdias do Nascimento. “Nos anos quarenta e sessenta, Abdias já falava do projeto de nação brasileira pautado no genocídio da população negra, falava da práxis quilombola, graças à qual sobrevivemos ainda hoje”, comenta ela ao telefone em entrevista a CLAUDIA. A autora, de 75 anos, tampouco deixa de mencionar as contemporâneas ativistas e intelectuais Lélia González e Beatriz Nascimento. É a todos eles, de certa forma, que sua obra-prima, Olhos D’água, reverencia. Vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura em 2015, a coletânea de contos que retrata a violência urbana contra a população negra e a realidade das mulheres da periferia tornou-se um marco da literatura brasileira pós-moderna e acaba de ser editada em formato de audiolivro pela Tocalivros, com narração da atriz e ativista Ludmila Lis, em comemoração ao Black History Month (ou Mês da História Negra), celebrado internacionalmente entre fevereiro e março.

Esse é seu primeiro contato com o formato de audiolivro? O que acha dele?

É a primeira vez que uma obra minha é editada em audiobook e estou achando isso muito bonito. Acredito que esse formato amplia o público ao qual o livro chega. Pessoas cegas e pessoas não alfabetizadas terão acesso a ele também.

Passados mais de seis anos da publicação de Olhos D’água, de que forma o livro ainda reflete as mazelas do país?

São 15 contos que trazem a realidade brasileira, a vivência de pessoas em situação de rua, de crianças em moradias precárias, de mulheres vítimas de violência, e esse processo histórico não muda de uma hora para outra. Sem sombra de dúvida, a recepção do livro hoje é maior, num mundo em que a força dos movimentos sociais, tanto dos movimentos negros quanto dos movimentos de pessoas de sexualidade e expressão de gêneros divergentes, pavimentou o caminho para mais debate e reconhecimento dessa realidade desigual.

Em outubro do ano passado, o livro foi censurado numa escola particular de Salvador e a professora que o indicou foi afastada. O argumento dos alunos e de seus familiares é de que os contos teriam acionado “gatilhos” e gerado sofrimento. O que esse comportamento diz sobre a nossa sociedade?

Até agora evitei falar desse caso. Não me pronunciei naquele momento porque fazer isso significaria me defender e eu não tinha nada do que me defender ou me desculpar. Mas, engraçado, você fazendo essa pergunta me lembrou de um episódio que eu tinha esquecido há muito tempo. Nos anos 1960, na véspera do golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil, eu terminava a quarta série ginasial e fiz uma redação que foi publicada num jornal de Belo Horizonte. O texto chamou a atenção das diretoras de um colégio católico de elite da cidade, um colégio de freiras, e elas me convidaram para estudar lá. Eu estava atrasada, tinha 17 anos e minhas colegas tinham 14, mas eu fui. Era a única menina negra da sala e as outras alunas foram muito receptivas, curiosas com a garota que chegava da favela. Passados uns meses, alguns pais começaram a reclamar que eu contava sofrimentos da vida na pobreza e que suas filhas estavam muito impressionadas, quase assustadas. As freiras convocaram uma roda de conversa e eu disse a esses pais: “Vocês estão incomodados porque suas filhas estão ouvindo falar sobre sofrimento, mas tem muitas meninas na favela até mais jovens que elas que simplesmente sofrem.” Essas coisas acontecem porque as pessoas realmente têm uma incapacidade de se colocar no lugar do outro.

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Vê algum avanço nesse sentido no país?

Vejo um avanço forjado pelas nossas próprias ações. Nada do que as comunidades negra e indígena têm conquistado vêm das mãos do poder político ou da classe média e hegemônica. Tampouco do pensamento acadêmico ou das universidades, que tendem a folclorizar as culturas negras, com discursos a partir de fora, desprezando aqueles que vêm de dentro. Mas bradamos com tanta veemência que são obrigados a nos escutar e hoje conseguimos pautar tanto a grande mídia quanto a mídia independente. E, para dizer que não há racismo no Brasil, a pessoa tem que ser muito cínica ou muito alienada”.

No caso de Moïse [Kabagambe, imigrante congolês que foi espancado até a morte no Rio de Janeiro), por exemplo, as pessoas esbravejaram, choraram, protestaram, mas tenho medo de que essa seja uma comoção passageira. Assinaram manifestos, postaram nas redes, mas até que ponto uma pessoa branca que se emocionou profundamente com esse caso vai abrir mão de seus privilégios na prática? Ela vai aceitar disputar na vida com uma pessoa negra de igual para igual? Na hora da competição, ela se arma com seus privilégios.

E, apesar disso, acredita que o avanço, a igualdade algum dia virá?

Eu tenho que acreditar na utopia de que essa sociedade será justa. Preciso buscar, dentro dos meus limites, essa possibilidade, senão a gente desiste da vida.

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