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São Paulo ganha livraria focada em autoras e público LGBTQIA+

Pulsa, livraria itinerante que pretende virar selo editorial, será aberta em bar no centro da capital paulista

Por Joana Oliveira Atualizado em 29 mar 2022, 12h28 - Publicado em 19 mar 2022, 08h36

Tudo começou de maneira despretensiosa, como conta Caroline Fernandes. Depois de anos trabalhando no mercado editorial, ela ficou desanimada ao perceber a escassez de livros escritos por pessoas LGBTQIA+ ou com histórias centradas nessa comunidade. “Foi já adulta que li uma obra sobre relações entre mulheres, a coletânea de contos Amora, de Natalia Borges Polesso, e isso apenas em 2017″, lembra ela, uma mulher lésbica. Esse cenário deixou-a “desanimada”, mas foi o incentivo necessário para que ela e Fer Krajuska se unissem para criar a Pulsa, uma livraria onde serão vendidos exclusivamente títulos escritos por autores e autoras queer. As vendas online já começaram e o espaço físico será inaugurado no dia 8 de abril, no bar DAS, na Santa Cecília, centro de São Paulo, um point de mulheres lésbicas e bissexuais. Antes, funcionava no local uma sex shop.

“Estávamos pensando em alugar uma banca de revistas para a Pulsa, mas era tudo muito caro e burocrático. Agora, queremos ser uma livraria itinerante, que possa ir de bar em bar”, conta Caroline. Por enquanto, o catálogo conta com 26 obras de escritoras e escritores como Bell Hooks, Paul B. Preciado, Audre Lorde, Angélica Freitas, entre outres. “Eu e Fer, que é uma pessoa não binária, sempre conversamos muito sobre nossas experiências e a dificuldade de encontrar referências na literatura e na poesia de histórias que falassem sobre a gente. Essas narrativas existem, mas não chegam até nós. Nesse sentido, a Pulsa é também um empreendimento político”, acrescenta Caroline. Também estarão à venda gravuras eróticas da artista visual maisumamariana e cianótipos de nudes da artista Débora Machado (os Cyanudes).

Ela e Fer não escondem que pretendem focar o acervo em obras escritas por e para lésbicas e transexuais, grupos historicamente mais invisibilizados na comunidade LGBTQIA+ (há 13 anos, o Brasil lidera o ranking global de assassinato de pessoas trans e travestis, de acordo com o relatório Transgender Europe). Por isso, são destaques do catálogo títulos como Perigosas sapatas, coletânea de quadrinhos da norte-americana Alison Bechdel, Transfeminismo, de Letícia Nascimento ou Garota, Mulher, Outras, de Bernardine Evaristo, que utiliza linguagem de gênero neutro.

“A literatura feita por pessoas trans ainda é rara, mas foi uma grata surpresa descobrirmos que existe uma produção independente prolífica”, comenta Caroline. Uma de suas grandes ambições, além de levar a Pulsa para feiras literárias e outras cidades, é que a marca torne-se também uma editora para esses escritores. “Tentamos fazer uma curadoria de autores e autoras pretas, também queremos descentralizar do eixo Sudeste. A região Norte, por exemplo, tem uma literatura riquíssima que ainda fica muito isolada”, acrescenta, mencionando Flor de Gume, da paraense Monique Malcher, vencedora do Prêmio Jabuti de Contos no ano passado.

Caroline não tem receio de empreender em um mercado de nicho. “A literatura feita por LGBTs acaba chegando em outros públicos. Minha própria mãe perguntou porque abrir uma livraria com esse foco e se interessou pelas obras quando eu disse que só li um livro com narrativa lésbica depois de adulta. A literatura não é panfletária, mas acredito na potência das nossas histórias”, conclui.

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