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Ritual de prazer: olhe com naturalidade para a masturbação feminina

Longe da funcionalidade biológica e mecânica, a masturbação pode (e deve) ser um momento só seu de autoamor que transcendem a obrigação de um orgasmo

Por Paula Jacob Atualizado em 8 abr 2022, 19h37 - Publicado em 8 abr 2022, 08h39

Saber onde está o clitóris é conhecimento. Saber onde está o seu próprio clitóris é poder.”Nada mais sábio que as palavras da educadora sexual Dr. Emily Nagoski, PhD, ditas na série documental da Netflix Os Princípios do Prazer – aliás, dê o play. A maioria de nós, pessoas com vulva, não teve o incentivo necessário para olhar com naturalidade a própria anatomia e investir na masturbação feminina e convertê-la em um ritual de prazer.

“Fecha a perna”, “Senta direito, você está de vestido” e “Não encosta aí” são algumas das frases clássicas que permeiam a educação das meninas desde cedo. O resultado disso é uma cadeia de tabus que impede a autoaceitação do corpo, do prazer e da sexualidade.

Talvez, então, tenha chegado a hora de reescrevermos essa história. Um jeito bom de começar? Transformando o seu momento de masturbação em um ritual de autoamor, sem medo de testar, tendo você a idade que tiver. “Contemplar o próprio corpo como um espaço de prazer e infinitas possibilidades é uma das bases de fortalecimento da autoestima. Desfrutar a vida começa no físico, que precisa de rotina”, explica Victoria de Castro, educadora menstrual do @digavulva.

Para a sexóloga e psicóloga Carla Cecarello, a masturbação é “uma grande possibilidade das pessoas entenderem o que gostam ou não, como gostam; estimularem as fantasias sexuais; e, claro, conhecerem o corpo através das sensações despertadas”.

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“Contemplar o próprio corpo como um espaço de prazer e infinitas possibilidades é uma das bases de fortalecimento da autoestima”, explica Victória de Castro. |Ilustrações: Sabrina Gevaerd/CLAUDIA

A masturbação nos ajuda a desenvolver a autonomia e o protagonismo do nosso corpo. Essa é a hora de apropriação do eu

Caroline Amanda, educadora menstrual

Dispa-se

Antes de chegarmos lá, é preciso entender o contexto. “O nosso corpo é socialmente organizado para a reprodução, ou seja, o que interessa é a penetração. Quando transgredimos o patriarcado machista, registramos no nosso corpo uma experiência sinestésica para além das dores do parto ou da TPM”, aponta a também educadora menstrual Caroline Amanda, aka @yonidaspretas.

A crença de que o prazer feminino deveria girar em torno da vagina é uma construção histórica, baseada na sexualidade masculina. A referência parte do outro e, por isso, somos acostumadas a querer um manual que nos explique o que fazer com nosso próprio corpo”, emenda Victoria.

A opressão social é tamanha que nem o nome usualmente visto nos livros está correto. “Vagina” refere-se apenas ao canal vaginal, enquanto “vulva” engloba toda a complexidade do genital (lábios, clitóris, uretra etc).

Vale fazer aquele exercício de pegar um espelho e conhecer as particularidades da sua, tipo a Charlotte em Sex and the City. Afinal, cada vulva é única: o que vai funcionar para você pode não funcionar para a sua amiga, e vice-versa.

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A masturbação é uma possibilidade de autoconhecimento do próprio corpo: saber o que gosta ou não, como gosta ou não, quando gosta ou não. |Ilustrações: Sabrina Gevaerd/CLAUDIA
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Sinta-se

Esclarecido isso, para o seu ritual de masturbação você vai precisar de: tempo, paciência, calma e empatia. “A prática só será gostosa se você for capaz de se concentrar em si. Nada vai acontecer da noite para o dia, é uma evolução. Busque um ambiente tranquilo e se organize para que o momento seja só seu”, diz Carla.

Uma vez confortável, não tenha medo ou vergonha de ficar nua e de se tocar sem a intenção de gozar. Passe os dedos vagarosamente pelo corpo e desperte a pele que te cobre: pernas, barriga, braços, seios… “É um momento de acolhimento. Os desejos e as fantasias que aparecerem fazem parte de quem você é. Não se sinta culpada. Ao nos libertarmos das amarras sociais, entramos em contato com nós mesmas. Todas as revelações são preciosas”, indica Caroline, que desenvolveu o conceito de sexualidade criativa e intuitiva pensando nesse olhar envolvente e acessível dentro da realidade de cada uma.

“Se tiver 10 minutos, use um óleo de coco para fazer massagem. Caso tenha 30, acenda um incenso, coloque uma música. Permita-se a entrega à experiência e investigue seu corpo.” Ter esse olhar carinhoso sobre si não só auxilia na hora de testar texturas e cantinhos para além da vulva como também tira a mecanicidade da masturbação.

“Estar focada no presente te faz superar a ideia do sexo como alívio. Quem se masturba pensando na tensão [do dia de trabalho, da vida familiar etc], não está atenta a si e, sim, àquilo que precisa aliviar”, pontua Caroline. A sexóloga Carla Cecarello ainda alerta para o uso de vibradores: eles são ótimos aliados, mas é importante começar com as mãos. “É preciso se relacionar com o toque, nenhum dedo ou sexo oral da parceria é capaz de mimetizar a vibração dos toys.”

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“Estar focada no presente te faz superar a ideia do sexo como alívio”, diz Caroline Amanda. |Ilustrações: Sabrina Gevaerd/CLAUDIA

Reconheça-se

O maior benefício da masturbação não é gozar, necessariamente. Claro, chegar ao orgasmo é uma delícia, mas transcender a ideia dele pode ser ainda mais libertador. “Hoje, o clitóris ganha maior visibilidade e incentivo para ser explorado, mas a abordagem segue focada nos genitais. Já pensou se a nuca, os seios ou os pés são zonas extremamente sensíveis do seu corpo?”, aponta Victoria de Castro.

Somado aos benefícios biológicos, que incluem a liberação de endorfinas e ocitocinas, sensação de relaxamento e leveza, a masturbação sem a visão utilitarista fortalece a autoestima e coloca o bem-estar sexual na roda do autocuidado. Sem contar a possibilidade de ressignificar traumas. “A maior parte das mulheres vive ou viveu experiências de abuso (psicológico, verbal, físico), e isso somatiza no corpo. Embora seja fundamental o acompanhamento psicológico, [a masturbação] nos ajuda a desenvolver a autonomia e o protagonismo do nosso corpo. Essa é a hora de apropriação do eu, de forma integrativa”, defende Caroline Amanda.

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Compartilhe as descobertas sensoriais com os parceires, mostre como você prefere que seu corpo seja tocado. |Ilustrações: Sabrina Gevaerd/CLAUDIA

Passado todo esse processo de autoconhecimento do corpo, é tempo de compartilhar as descobertas com os futuros relacionamentos, sejam eles de uma noite ou de uma vida inteira – viu como o seu centro de prazer é todinho seu antes de ser de outrem? E você pode fazer isso verbalmente, com diálogos francos, como indica Carla, ou de forma sensorial, como sugere Caroline. “Algumas conversas não acontecem abertamente na mesa de jantar. Por isso, crie possibilidades de expressão, como selecionar filmes que suscitam o debate. Se a pessoa tem um mínimo de atenção, sabe que você está sinalizando outros caminhos a serem percorridos.” Bora celebrar seu corpo?

 

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