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Covid-19: as sequelas emocionais e neurológicas da doença

Mesmo após a recuperação, pessoas que foram contaminadas pelo Covid-19 vêm sofrendo com sentimentos negativos persistentes

Por Kalel Adolfo Atualizado em 14 mar 2022, 11h14 - Publicado em 15 mar 2022, 08h58

Quem já teve coronavírus provavelmente precisou conviver com algumas sequelas físicas da doença, como cansaço exacerbado, dores no corpo, enxaqueca e falta de ar. Estes “efeitos colaterais” podem durar por semanas ou até meses após o contágio, gerando bastante angústia em quem sofre com eles. Porém, pouco se discute sobre as sequelas emocionais deste vírus.

Mesmo em casos leves, testar positivo para o Covid-19 pode ser bastante traumático: sentimos medo de morrer, passar a doença para outras pessoas e perder entes queridos. Apenas esses pensamentos são capazes de gerar impactos negativos em nossa saúde mental.

E a situação não para por aí: um estudo recente divulgado pelo New York Times revelou que a contaminação por SARS-CoV-2 pode provocar a diminuição de zonas cerebrais responsáveis por inúmeras funções, incluindo as emoções. Portanto, a pergunta que fica é: como isso impacta o dia a dia de quem pegou a doença? Os nossos sentimentos podem ser afetados a longo prazo após contraí-la?

Para entender isso, Claudia conversou com Alessandra Kovac — psicóloga freudiana —, Taíssa Ferrari Marinho — neurologista e neurofisiologista clínica — e os neurocirurgiões Ricardo Santos de Oliveira e Marcelo Campos Moraes Amato. Confira a seguir:

O peso emocional da contaminação por coronavírus

Antes de discutir sobre as possíveis sequelas emocionais e neurológicas do coronavírus, é necessário reiterar que apenas a contaminação pela doença é capaz de se transformar num evento traumático. “O coronavírus chegou de forma inesperada, desconhecida e perigosa. Apenas estes traços são o suficiente para afetar o emocional de qualquer pessoa. Testar positivo significa que essa ameaça se tornou real a um nível pessoal. Por isso, os pacientes sentem preocupação, insegurança, ansiedade e tristeza de forma bastante intensas”, explica a psicóloga Alessandra Kovac.

Em casos de indivíduos que já convivem com a ansiedade ou depressão, os impactos de contrair a doença podem ser ainda maiores. Segundo Alessandra, é extremamente desafiador estar sensibilizado por esses distúrbios emocionais e, ao mesmo tempo, precisar lidar com interferências do mundo externo. Em outras palavras, manter o equilíbrio diante de um mundo em caos pode ser ainda mais difícil para quem luta contra quadros depressivos ou ansiosos.

Me recuperei e continuo sentindo emoções negativas. E agora?

Alessandra relembra que a tristeza e a irritação são reações emocionais comuns a maioria das situações conflitivas ou traumáticas que vivenciamos. Portanto, mesmo após se recuperar da Covid-19, é normal que você leve um tempo para se restabelecer emocionalmente. Aliás, isso não significa necessariamente que estamos sequelados: “Na maioria das vezes, o incômodo vai diminuindo conforme a pessoa vai retomando a sua rotina.”

De acordo com a especialista, as temidas “sequelas psíquicas” são mais frequentes em pacientes que vivenciaram quadros graves e passaram até mesmo por hospitalização. Nestes casos, a doença pode se transformar num verdadeiro trauma: “Não é incomum que alguns desenvolvam ansiedade ou depressão após a recuperação. Mas é sempre bom lembrar que todos os tipos de traumas possuem tratamento e cura.”

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”O ser humano quase sempre se desespera quando a situação foge do controle. Para diminuir esse medo, é importante confiar na ciência. Ela vem buscando, a cada dia, entender e tratar as sequelas da melhor forma possível”, indica Kovac.

Impactos instantâneos do coronavírus no cérebro

“No início da pandemia, acreditávamos que esta era uma doença exclusiva do sistema respiratório. Porém, alguns sintomas como tontura, dores de cabeça e a perda do paladar e olfato foram provando que o vírus também acometia o sistema nervoso”, explicam os neurocirurgiões Ricardo Santos de Oliveira e Marcelo Campos Moraes Amato.

“Estes foram apenas os sinais iniciais. Hoje, é crescente o número de infecções que afetam tanto o sistema nervoso central — causando encefalopatias e acidentes vasculares — quanto o sistema nervoso periférico, provocando disfunções do paladar e olfato e até mesmo a Síndrome de Guillain-Barré”, afirma a dupla de neurocirurgiões.

Covid-19 pode comprometer o cérebro a longo prazo?

Além dos impactos instantâneos, há a possibilidade de sequelas posteriores: “Alguns pacientes acabam sofrendo com eventos vasculares no sistema nervoso central, como isquemia e trombose venosa. Dependendo da região cerebral em que acontecem, essas complicações podem causar danos irreversíveis”, alerta a neurologista Taíssa Ferrari. “Dificuldades para movimentar partes do corpo, alterações na fala, falhas de memória e concentração reduzida também podem estar entre os efeitos colaterais do Covid-19”, elucida.

“Além dessas sequelas neurológicas, também venho percebendo um aumento significativo nos transtornos de humor após o início da pandemia. Ainda não sabemos exatamente se isso está acontecendo por interferência direta do vírus no sistema nervoso central ou indiretamente por todo o cenário que a pandemia provoca. Mas para mim, é claro: um número muito maior de pessoas está relatando queixas relacionadas a depressão e ansiedade nos consultórios de neurologia”, conclui a especialista.

Proteção contra o Covid-19 continua importante

Vale lembrar que não queremos promover o pânico acerca da contaminação por coronavírus. Porém, é necessário conhecer todos os impactos da doença para entender a importância de continuar se protegendo. Use máscaras, utilize álcool gel, evite aglomerações e o mais importante: vacine-se.

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