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Filme “Doutor Gama” conta história apagada de um abolicionista brasileiro

Longa, que estreou este mês nos cinemas, traz a história do poeta, jornalista, advogado e ativista Luiz Gama

Por Sarah Catherine Seles (colaboradora) Atualizado em 26 ago 2021, 11h15 - Publicado em 26 ago 2021, 13h00

O filme Doutor Gama percorre a história de Luiz Gonzaga Pinto da Gama, personagem essencial no movimento abolicionista brasileiro. O longa-metragem brasileiro, que estreou no início de agosto e segue em exibição nos cinemas, busca dar visibilidade a vida do poeta, jornalista, advogado e ativista.

“No início me veio à mente: ‘mas ninguém tinha feito um filme sobre ele?’. Tem diversos filmes sobre Tiradentes, até sobre independência ou morte, e nenhum sobre Gama. Então ele surge dessa vontade de conectar as pessoas em uma ponte com a pesquisa histórica de sua vida”, conta Jeferson De, diretor da obra.

Apesar de ter nascido livre, aos 10 anos Gama foi vendido como escravo pelo próprio pai português como pagamento de dívidas de jogo. Mais velho e com a ajuda de um estudante de Direito, ele se alfabetizou. O interesse pelas letras fez com que ele continuasse estudando. Gama, então, conquistou sua liberdade e se tornou um advogado respeitado, conhecido ainda como um importante abolicionista.

César Mello
O ator César Mello interpreta Luiz Gama em sua fase adulta Pedro Iglesias Amaral/Doutor Gama/Reprodução

História de Luiz Gama

Luiz Gama é interpretado por Pedro Guilherme, Angelo Fernandes e César Mello em três fases diferentes da vida. “Seria impossível fazer Gama e não explorar a contribuição intelectual deste homem negro que simboliza a junção de muitos homens negros brasileiros. Eu gosto muito dele no cinema porque ele reconstrói, de alguma forma, o que nós nos acostumamos a ver nos últimos anos no audiovisual. Porque, de cara, não dá para descrevê-lo com um único adjetivo”, afirma César.

Samira Carvalho e Zezé Motta em gravações de Doutor Gama
Samira Carvalho e Zezé Motta durante as gravações de Doutor Gama Doutor Gama/Reprodução

Para o ator, o apagamento histórico que o ativista sofreu é visível em diversas esferas da sociedade. “Luiz Gama é um advogado, mas também é jornalista e poeta – eu sou formado em letras e nunca ouvi falar do poeta Luiz Gama na minha universidade, o que também é um problema. Ele foi o primeiro a escrever sobre a mulher preta. Como poeta, ele tem uma importância que também foi apagada. Quando se entende esse homem, que está na tela do cinema, se entende que ele capitaliza para si essa imagem múltipla do homem negro”, explica.

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“O Luiz Gama tem que ser contado com nossa participação, mulheres e homens negros. Só vai haver reconhecimento quando pudermos contar nossa própria história”, afirma o diretor do filme. Para ele é importante que as pessoas negras sejam sujeitas de suas próprias narrativas e não objetos.

Jeferson De, diretor de Doutor Gama
Jeferson De, diretor de Doutor Gama Pedro Iglesias Amaral/Doutor Gama/Reprodução

A atriz brasiliense Mariana Nunes, que vive a esposa do abolicionista, fala também sobre os estereótipos comumente colocados sobre personagens negros, “para quebrar isso é preciso pessoas negras pensando por trás”. Para ela, Doutor Gama é um exemplo disso: “O filme traz a história de escravidão e liberdade, mas com personagens múltiplos que carregam sua própria subjetividade. A história de Gama é contada de forma muito pulsante no filme, acho que é algo importante, ela aponta para um recomeço bom”.

Gravações

A produção adaptou o set de gravação em Paraty (RJ), para recriar a cidade da época. Calor, roupas pesadas e pé no chão quente foram alguns dos desafios enfrentados pelos atores durante as filmagens. Em entrevista coletiva, o elenco conta que essa caracterização fidedigna fez com que tudo se tornasse mais real. 

Angleo Fernandes e Teka Romualdo em cena do filme
Angelo Fernandes e Teka Romualdo durante cena do filme Doutor Gama/Reprodução

Ao relembrar uma das cenas do filme, Angelo Fernandes comenta sobre o peso da escravidão presente atualmente na sociedade:

“Quando estava fazendo a cena do sapato, o Jeferson me dizia para não sair orgulhoso, porque a escravidão acabou, mas o Gama sai sem nada, sem saber o que fazer. Após a cena, eu comecei a chorar, eu sabia o motivo mas não o por quê de chorar. E isso se deu porque as coisas que aconteceram no passado reverberam até hoje, quando se tem um Evaldo metralhado na Zona Norte do Rio de Janeiro, quando se tem um João Pedro que é fuzilado em São Gonçalo, dentro de sua casa. Então isso nos atinge até hoje.”

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