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‘A arte salvou a minha vida inúmeras vezes’, diz Marcella Maia

Corajosa, a artista fala abertamente sobre ter sido vítima de tráfico sexual e sobre as dores e conquistas da militância trans

Por Gabriela Teixeira (colaboradora) Atualizado em 22 set 2020, 18h03 - Publicado em 22 set 2020, 19h00

Uma guerreira. É assim que a mineira Marcella Maia se descreve e, acredite, não se trata de pretensão vazia. De Lisboa, onde está atualmente, sua voz cruza o oceano e fala a CLAUDIA sobre a infância entre Juiz de Fora e Brasília, de sua descoberta enquanto mulher trans, das pedras que encontrou no caminho que trilhou para ser quem hoje é: atriz, modelo, cantora, escritora, roteirista. O currículo é vasto e o leque artístico é multifacetado, fazendo jus a sua alma de camaleoa.

O fascínio pelas artes a acompanha desde criança. Por histórias contadas pela mãe, Marcella sabe que já aos três anos gostava de imitar os passos do Michael Jackson na frente da televisão. Mais tarde, entrou no coral da igreja evangélica e fez teatro. Parte dessa paixão era também refúgio e força para lidar com as turbulências de uma infância marcada pela violência doméstica.

Rodolfo Magalhães/Divulgação

“Ver minha mãe apanhando e crescer em um lar difícil influenciou bastante as minhas relações e vida, mas também me fez muito forte”, relata. “Eu sempre me imaginei longe, porque vim da lama. A única coisa que eu tinha para me agarrar eram meus sonhos, então nunca deixei de sonhar. Havia uma voz lá no fundo dizendo ‘Você não nasceu só para sofrer, você vai conseguir realizar seus sonhos’. Essa voz me motivava, me dava forças para levantar e correr atrás todos os dias”.

Aos quatro anos, após sua mãe fugir de casa e da violência, Marcella foi morar com a família do pai. Na nova morada, enfrentou durante três anos uma rotina de abusos, interrompida somente quando a mãe retornou para buscá-la e levá-la a Brasília. “Foi quando a vida começou outra vez, voltou a ter sentido”, diz.

Chegando na capital, as cobranças maternas eram grandes, induzindo Marcella a sempre tentar ser a melhor em tudo que fazia. À pressão somavam-se projeções e expectativas que não correspondiam às suas. Já naquela época, a verdadeira Marcella Maia dava os primeiros passos para fora do casulo.

Rodolfo Magalhães/Divulgação

A metamorfose, entretanto, levou tempo para se concretizar. Às escondidas, ela passou a frequentar o meio LGBT+. “Quando somos reprimidas em casa, quando os pais em vez de educar, surram seus filhos por falta de informação e diálogo, é na rua que vamos procurar respostas”, explica.

Na adolescência, Marcella começou a fazer shows em terminais de ônibus, performando músicas de divas pop que a inspiravam. Depois, montada como drag, se apresentava em baladas LGBT+. Naquela altura, já não morava mais com a mãe, mas ainda sentia as tentativas de uma conversão imposta e, dentro de si, aumentava a confusão sobre seu corpo e sua identidade – duas existências conflitantes. Era o começo de sua transição.

Foi quando conheceu uma pessoa que lhe vendeu o que parecia ser um sonho: trabalhar como drag fora do Brasil, em uma terra cheia de possibilidades, onde poderia existir como bem quisesse. Com apenas 18 anos e sem saber falar inglês, Marcella topou a proposta e embarcou para Londres.

Bastou pisar nas terras da Rainha, porém, para descobrir que o sonho na verdade era pesadelo e que havia sido aliciada por uma rede de tráfico humano. Por três meses, ela viveu o inferno da prostituição forçada, até conseguir recuperar sua liberdade e poder retornar ao Brasil. Uma vez de volta, começou a trabalhar para uma agência de moda e decidiu correr atrás de sua redesignação sexual. Aos 20 anos, Marcella Maia (re)nascia.

Rodolfo Magalhães/Divulgação

Voz de resistência

Até dois anos atrás, Marcella dificilmente se abriria sobre seu passado como fez durante nossa conversa, preferindo manter os fantasmas que a assombravam apenas para si. A libertação veio somente quando decidiu escrever a autobiografia Translúcida, transante, transparente. “Agora, cada vez que falo sobre isso, me sinto mais forte. E acredito que outras mulheres também se identificam, porque é algo que acontece muito no meio LGBT+”. As turbulências no núcleo familiar também ficaram para trás e hoje ela garante ter uma relação saudável com os irmãos e a mãe. “Temos nossas diferenças, mas entre tapas e beijos a gente se ama”, afirma.

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Por outro lado, fazer as pazes com a terra natal ainda é um processo em andamento. Com uma carreira de modelo mais pautada no mercado internacional, Marcella conheceu diversos países, trabalhou nas principais capitais da moda e montou um currículo incrível. Foi lá fora também que passou no teste que lhe garantiu uma participação no filme Mulher-Maravilha (2017). “Foram quatro dias incríveis, todos os dias eu saía chorando de emoção. Aprendi muito e ali decidi continuar fazendo cursos de atuação”. 

Rodolfo Magalhães/Divulgação

Logo após a ponta no filme, porém, Marcella passou por um breake down, fruto da necessidade de falar para o mundo sobre suas urgências. Ela conta que sentia já ter provado para si mesma que conseguiria ter o que quisesse sem que seu gênero fosse questionado, mas nunca sem realmente levantar a bandeira de sua existência enquanto mulher trans.

Percebeu então que era a hora de começar se posicionar politicamente e publicamente. “E não é que isso tenha me trazido mais trabalhos, ao contrário, as pessoas ficaram mais acuadas. Mas eu sabia desse preço e quis pagar, porque isso me trouxe possibilidade de sucesso comigo mesma. E a possibilidade de falar a minha história, de motivar e inspirar outros corpos trans”.

A repercussão no Brasil de sua participação no longa da DC inicialmente a fez pensar que as coisas poderiam ser diferentes quando voltasse, mas não foi bem assim que aconteceu. Apesar de ter participado do espetáculo Roda Vida, do Chico Buarque, da peça Brian ou Brenda? e da série da HBO Todxs nós, Marcella também disse vários “nãos” para papéis bastante estereotipados que não seguiam a linha de trabalho em que acredita. Também se frustrou com a estrutura da cena artística – as vaidade típicas do meio e as projeções que faziam sobre seu corpo. “Fiquei cansada. É o que acontece quando o corpo trans entra na estrutura, mesmo no lugar mais desconstruído: ele se quebra”.

Rodolfo Magalhães/Divulgação

Durante os últimos cinco anos em que morou em São Paulo, ela adoeceu, desenvolvendo algumas disforias que tornavam difícil até o ato de sair de casa. Apesar de amar o Brasil, a artista sentia uma resistência e hostilidade a tudo que fazia, o que a motivou a regressar à Europa. “Mesmo que a passabilidade me permitisse transitar em vários ambientes, a partir do momento que levantei a bandeira, a luta era constante. E ninguém quer lutar todo dia. Aqui fora, eu consigo criar tranquilamente, sem medo de ser morta. No Brasil, eu criava na base da pressão”.

Ela assegura que o afastamento da atuação é apenas temporário, um reflexo de sua vida gypsy, que não consegue lidar com a mesmice do cotidiano por muito tempo e procura sempre reinventar-se em outras artes. “Estou sempre transicionando. A transição de sair da comodidade, da zona de conforto, é o que faço de melhor. E a arte salvou minha vida inúmeras vezes. Quando pensei que não iria aguentar, ela veio com muito amor e me mostrou que eu posso colocar essa dor na minha música, na minha escrita”.

Rodolfo Magalhães/Divulgação

E assim Marcella fez. Determinada a ser dona do próprio show, ela se jogou na música, lançando seu primeiro single, Pra Dá Dolce Bacana, em agosto – e já prevê um segundo para outubro. A inspiração para as canções são suas próprias experiências.

“Não existe profundidade maior que a vivência que trago. Pra Dá Dolce Bacana veio da vontade de dizer todas essas coisas para a sociedade. E de saber que muitas manas também precisam dizer isso, mas não conseguem. Quero que elas entendam que a gente não deve ficar grata com as migalhas que nos são dadas. Mas também quero que elas dancem, balancem a raba, batam cabelo, se joguem”, ri.

Apesar de geograficamente longe, Marcella quer estar próxima da comunidade LGBT+ brasileira, declarando que morrerá lutando para que sua voz exista, que seu trabalho seja visto e alcance as camadas que dele precisam. “Porque eu entendo esses corpos que foram silenciados como o meu. E quero deixar uma força para toda a minoria que passa por provações, que é silenciada diariamente. Para que essas pessoas saibam que não estão sozinhas e possam acreditar em si mesmas, não permitindo que o sistema as quebre. Possam ser fortes, ser luz.”

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