Clique e assine com até 75% de desconto

“Só queremos direitos básicos”, diz jovem LGBT sobre protestos na Polônia

Com um presidente homofóbico e cidades classificadas como "zonas livres de LGBT", a Polônia vive tempos de ebulição do movimento após prisão de ativista

Por Gabriela Maraccini (colaboradora) Atualizado em 21 set 2020, 10h16 - Publicado em 27 ago 2020, 12h00

“Nós não estamos demandando nada demais, apenas direitos humanos básicos. Nós queremos nos casar ou, pelo menos, ter a possibilidade de conseguir um relacionamento estável legalizado. Muitos ainda demandam a possibilidade de adoção, mas, infelizmente, ainda parece ser algo muito corajoso de ser pedido”, relata Marta Tomasik, jovem polonesa, bissexual e ativista LGBT, à respeito dos protestos que estão tomando conta da Polônia nas últimas semanas.

Com um governo ultraconservador no poder, a Polônia é um país perigoso para a comunidade LGBT. “Há muita brutalidade e violência, normalmente causadas por pequenas razões, como duas pessoas do mesmo sexo andando de mãos dadas ou alguém usando uma bolsa com um arco-íris desenhado”, conta Marta a CLAUDIA.

O governo do partido conservador Lei e Justiça (PiS) tem tomado várias ações para limitar os direitos dos homossexuais, como a proibição de adoção e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para somar, o presidente Andrzej Duda, durante sua campanha para reeleição, prometeu proibir o ensino de “questões de gênero” nas escolas e afirmou em discursos que os homossexuais eram “inimigos piores do que os comunistas” e que “estão tentando nos convencer de que eles são gente” o que legitima ainda mais a violência e a discriminação contra a comunidade LGBT no país.

Manifestantes em protesto pró-LGBT+ em Cracóvia, na Polônia. Foto: Beata Zawrzel/NurPhoto/Getty Images

No início do mês, a condenação a dois meses de prisão da ativista transexual Margot foi o estopim para uma série de manifestações em Varsóvia e na Cracóvia. Os protestos, já apelidados de “Stonewall da Polônia” em referência à Revolta de Stonewall, de 1969 , reivindicam os direitos básicos citados por Marta, mas também vão além. A mídia pública do país é controlada pelo estado e cobre os protestos como “ataques agressivos dos homossexuais” ou “vandalismo homossexual”.

“Nós queremos que o nosso governo pare a propaganda contra nós da comunidade LGBT. Nós somos usados como uma distração para cobrir os reais problemas que os poloneses enfrentam”, opina Helena*, em conversa com CLAUDIA. Também polonesa e bissexual, ela participou ativamente do protesto do dia 8 de agosto, em Varsóvia. “Enquanto eles nos pintam como os vilões, o governador consegue dormir bem sabendo que os cidadãos não estão focando no quanto estão arruinando o nosso país lentamente. Nós não somos uma ameaça, nós não queremos arruinar as ‘famílias tradicionais'”, completa.

Além disso, os manifestantes visam chamar a atenção da União Europeia e do mundo para a LGBTfobia institucionalizada no país. Um exemplo do problema são as mais de 100 cidades polonesas que já prometeram, segundo ativistas, “desencorajar a tolerância” e evitar o repasse de recursos públicos a entidades de combate à homofobia ou que lutam pela igualdade de direitos. Além disso, seis desses municípios já se declararam “zonas livres de LGBT” – ou seja, municípios onde há, abertamente, discriminação a pessoas homossexuais, bissexuais e transsexuais.

Outro exemplo, é a violência sofrida pelo casal Jakub e Dawid, que são ativistas pelos direitos LGBT. Recentemente, a fachada do apartamento onde vivem foi marcada com os dizeres “Jebać LGBT”, que significa “F*dam-se os LGBT”.

Fachada do apartamento de casal gay pichada com frase ofensiva. Foto: Facebook/Reprodução

Protestos, violência policial e medo

Depois da prisão de Margot acusada por pendurar bandeiras com as cores do arco-íris em estátuas religiosas, ter furado os pneus de uma van com slogans homofóbicos, além de ter pintado o veículo e colocado faixas coloridas sobre ele , muitos outros protestantes foram presos em seguida, o que foi contestado nos novos protestos.

“Nós demandamos o fim da brutalidade não justificada da polícia contra membros da comunidade LGBT”, aponta Helena. “Logo depois da prisão de Margot, várias pessoas que participavam de um protesto foram presas. Elas não foram tratadas delicadamente, embora não tenham cometido nenhum crime perigoso. O modo como a polícia resolveu a situação foi vergonhoso e preconceituoso”, opina.

A violência a que Helena se refere foi denunciada nas redes sociais no início do mês. Um vídeo publicado no Twitter mostra manifestantes sendo perseguidos. Veja abaixo:

No entanto, conforme relata Helena, o protesto do qual participou foi pacífico, de maneira geral. “Ele se consistiu por discursos feitos por representantes do movimento queer e organizações antifascistas. Entre eles, nós fizemos pequenas pausas para dançar, como sempre fazemos”, conta.

Continua após a publicidade

“O discurso mais impactante foi feito por uma aliada heterossexual, a professora Magdalena Pecul-Kudelska, da Universidade de Varsóvia. Ela alertou outras minorias polonesas sobre o perigo de serem usadas como distração no próximo governo. Pediu a eles que apoiassem a comunidade queer e apelou para que a a gente continue lutando pelos nossos direitos. Outra manifestante falou sobre a importância de nos mantermos unidos nesses tempos difíceis. Ela pediu para que nos déssemos as mãos para sentirmos a conexão que compartilhamos. Foi um momento mágico”, emociona-se Helena.

Mesmo assim, ela conta que sentiu medo durante os protestos. Enquanto se manifestava, a jovem ouviu pessoas falando através de um megafone que “gays vão para o inferno”. Ela diz também que haviam grupos de conservadores reunidos próximos ao local onde os protestos estavam ocorrendo e que os manifestantes foram aconselhados a não irem para a direção em que os opositores estavam, para não gerar conflitos.

Mas o receio de Helena era outro. “Eu senti muito medo. Não do protesto em si, mas dos policiais que estavam lá. Eu não conseguia parar de pensar se eu seria presa apenas por estar protestando pacificamente”.

Nacionalismo religioso e conservadorismo na Polônia

Recentemente, outra situação que chamou atenção foi a manifestação em comemoração aos 76 anos da Revolta de Varsóvia. Comemorada em 1º de agosto, a data relembra a luta armada que libertou a capital polonesa do controle nazista, durante a Segunda Guerra Mundial. Nesta celebração houve uma passeata e militantes de direita levavam cartazes com os dizeres “fim do totalitarismo” se referindo às demandas LGBT como uma ditadura totatitária , “família normal, Polônia forte” e “movimento nacional”.

Manifestantes de direita estendem faixa com os dizeres “Fim do Totalitarismo”, com símbolos contra o comunismo, contra o nazismo e, por fim, contra a comunidade LGBT, colocando as três “ideologias” no mesmo patamar. Foto: Omar Marques/Getty Images

Para entender como e por que o nacionalismo e conservadorismo andam entrelaçados na Polônia, é preciso entender a história do país. Para isso, CLAUDIA conversou com Osvaldo Coggiola, professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP). 

Ele explica que o nacionalismo na Polônia teve início no século 18, após o país perder sua independência política nas mãos dos impérios da Prússia, Áustria e Rússia, dividindo o território polonês. “Depois de ter sido um reino independente durante muito tempo e de ter adquirido uma literatura nacional, de ter sido um país majoritariamente católico, a Polônia desenvolveu um forte sentimento nacionalista e só recuperou sua independência no final da Primeira Guerra Mundial, em 1918”, explica.

No entanto, com o início da Segunda Guerra Mundial, o país novamente perdeu sua independência, com o Pacto Molotov-Ribbentrop, feito entre Josef Stalin, líder da União Soviética, e Adolf Hitler, líder da Alemanha nazista. Tratou-se de um pacto de não-agressão que acarretou na divisão da Polônia em duas: de um lado, comandada pelos soviéticos, e de outro, pelos nazistas. Mais tarde, houve o descumprimento do pacto pelo exército alemão, que instaurou na Polônia a ocupação nazista e fez do país um dos principais locais antissemitistas do mundo, com a construção do campo de concentração Auschwitz, por exemplo. “Esses elementos se combinam e aumentaram o sentimento nacionalista no país”, declara Coggiola.

Posteriormente à guerra, com a derrota alemã, a Polônia passou a fazer parte do bloco soviético e, mais tarde, sofreu um golpe militar de esquerda. Sendo assim, o país foi governado pelo sistema comunista até a queda do Muro de Berlim, em 1989. Com uma grave crise econômica que não foi solucionada pela esquerda, uma onda direitista tomou conta do país.

No entanto, a ascensão da direita radical, representada pelo PiS e pelo atual presidente Duda, e o discurso de ódio contra a população LGBT se devem a outros fatores: populismo e nacionalismo religioso.

Manifestantes contra os direitos LGBT durante comemoração dos 76 anos da Revolta de Varsóvia, na Polônia
Manifestantes contra os direitos LGBT durante comemoração dos 76 anos da Revolta de Varsóvia, na Polônia. Foto: Omar Marques/Getty Images

“Um dos aspectos distintivos da direita radical é o populismo, que é uma visão que divide a sociedade em dois grupos distintos e homogêneos: um povo puro contra uma elite corrompida e progressista”, explica David Magalhães, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenador do Observatório da Extrema Direita.

Quando fala em “elite progressista”, ele não se refere às elites econômicas, e, sim, à classe artística, à mídia tradicional e à classe acadêmica, grupos que, em um governo de direita, são considerados inimigos do povo. Inclusive, vemos algo muito parecido no Brasil, à medida que o presidente Jair Bolsonaro ataca a imprensa e a elite acadêmica em seus discursos. Além disso, o governo que antecedeu o PiS, que entrou no poder em 2015, era de centro-direita, mais liberal, e se envolveu em esquemas de corrupção – o que aumentou a popularidade da direita radical.

Somado à isso, existe ainda um forte nacionalismo religioso no país. “A identidade nacional está vinculada a um passado religioso. O catolicismo é um elemento da identidade nacional polonesa. Então, essa obsessão pela família tradicional, repúdio ao movimento feminista e LGBT, é uma característica do nacionalismo religioso cristão”, explica.

Isso esclarece um pouco por que, durante as manifestações pelos 76 anos da Revolta de Varsóvia, militantes associaram as demandas LGBT a um regime totalitarista. “Eles se colocam contra o que foi uma experiência comunista, após a Segunda Guerra Mundial, e também contra a presença nazista durante a guerra”, explica Magalhães. “Mas também, por conta do populismo que divide a sociedade em dois grupos antagônicos, de um lado há um povo que tem a identidade do nacionalismo católico, que são patriotas e conservadores, e do outro a elite progressista, que são as ONGs, as feministas, a comunidade LGBT e as organizações sociais”, finaliza.

Essa divisão é sentida, inclusive, no dia a dia. Marta conta que, por sorte, tem uma família tolerante e que a acolhe como LGBT. Mas o mesmo não acontece com pessoas próximas. “Eu tenho amigos que decidiram sair da cidade natal para estudar porque nunca vão poder se assumir na frente de suas famílias. Um dos meus amigos mais próximos viveu ‘no armário’ por cinco anos e depois que ele se assumiu à sua mãe, ela disse que não poderia amar um filho gay da mesma forma que amaria um heterossexual”, relata.

Para finalizar, Helena declara: “Pode ser bastante solitário ouvir, diariamente nas notícias, que todas essas pessoas acham que você é alguém anormal e que você deveria sair do país. E isso é algo que eu não quero. Eu amo esse país, a nossa cultura e história. Talvez ao comparecer nos protestos, onde há muitas pessoas, nós possamos, coletivamente, mostrar que, sim, nós somos humanos. Nós somos iguais a qualquer outra pessoa. Não somos esse monstro que a direita radical pinta. Eu tenho esperança de que mais e mais pessoas vão começar a nos ouvir.”

*Helena pediu para não ter seu sobrenome divulgado, a fim de preservar sua identidade. 

  • O que falta para termos mais mulheres eleitas na política

    Continua após a publicidade
    Publicidade