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Isolamento social prejudica mais as produções científicas das mulheres

Segundo estudo do grupo Parent in Science, as cientistas são as que menos conseguem trabalhar dentro de casa

Por Ana Carolina Pinheiro - Atualizado em 21 Maio 2020, 14h14 - Publicado em 21 Maio 2020, 10h30

Acorda, troca o filho, dá café da manhã, faz atividade da escola, prepara o almoço, estende roupa, bota para dormir. Em meio à rotina ocupada completamente pelo filho e as coisas da casa, D. L. recebeu uma mensagem como de costume do seu orientador sobre as atividades e demandas a serem entregues. “Expliquei que hoje minha condição era essa e precisava dar atenção ao meu filho, porque é a minha prioridade. Sempre que ele me chama, é pra ele que vou correr. E não só porque o pai não pode, mas sim porque eu quero estar ali”, respondeu a mestre e aluna de doutorado da Universidade Estadual Paulista (UNESP), que trabalhando de madrugada conseguiu finalizar o trabalho no prazo.

Assim como D. L., outras cientistas também viram suas produções diminuírem drasticamente por conta da pandemia do novo coronavírus. Essa afirmação foi dada no estudo do grupo Parent in Science, divulgado pelo Estadão. O levantamento obteve a participação de 6 mil entrevistados que fazem pós-graduação, pós-doutorado ou são docentes, os quais responderam perguntas sobre como o isolamento social tem impactado em suas produções acadêmicas.

Das pesquisadoras da pós-graduação, apenas 10% ainda realizam suas pesquisas normalmente. Já, no pós-doutorado, essa atividade para as entrevistadas que são mães é ainda mais inviável, já que, segundo o estudo, 5% dão continuidade às suas pesquisas. Para os docentes homens, que não têm filhos, 20% não conseguiram finalizar os artigos durante o distanciamento, menos da metade das mulheres com filhos, que correspondem a 51,38%.

Ana Karine Furtado de Carvalho, pesquisadora de Pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP) em Lorena, já estava sem receber a bolsa do pós-doutorado antes de março por conta do contingenciamento de verbas praticado pelo Governo Federal. Para não perder o vínculo com a faculdade, Ana faz o pós-doc voluntário, ou seja, não recebe nenhum salário pela sua produção acadêmica. “Por enquanto, a parte prática da pesquisa está parada, porque não tenho como me locomover para a Universidade. E o que faço agora é usar os dados dos trabalhos que colhi até fevereiro, porque tinha pesquisado bastante coisa. Então, entre as aulas que dou como professora e os afazeres domésticos, ainda consegui publicar quatro artigos científicos. Mas isso é porque não sou casada e não tenho filhos”, conta a cientista, que ainda faz compra online para os pais que moram em Fortaleza, sua cidade natal.

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As condições favoráveis para produzir ficaram trancadas no laboratório que D. L. desenvolve suas pesquisas na UNESP. “Antes, ficava 8 horas por dia dentro do laboratório, que tinha tudo condicionado para eu produzir. Dentro dele nada me atrapalhava. Hoje, trabalho quatro horas por dia três vezes na semana. Então, sim, meu rendimento realmente caiu”, afirma a profissional. Mesmo com o intuito do casal de dividir as tarefas, ela ainda sente um peso maior. “Meu marido consegue me auxiliar pouco, porque ele precisa trabalhar no mínimo o horário comercial. Não tenho para mim e, consequentemente, para o meu trabalho. Mas o que conseguimos fazer é que de noite ele cuida do nosso filho e da casa”, conta D. L., que vire e mexe precisa dar uma pausa para atender o pedido do filho pela sua companhia para dormir. “Depois que ele dorme, já volto para o trabalho”, explica.

Em março de 2019, a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) divulgou que o Brasil é o país íbero-americano com a maior porcentagem de artigos científicos assinados por mulheres. Para a professora Ana, tendo em vista a sua área e experiência, o sexismo do mercado de trabalho pode ser uma das explicações. “Sempre estudei em departamentos e faculdades de engenharia, consequentemente lugares ocupados majoritariamente por homens. Com essa visão de exclusão e poucas oportunidades nas empresas, a área da pesquisa científica se torna um campo de esperança. Porém, na prática, sabemos que até lá o machismo se faz presente”, comenta a doutoranda, que já chegou a escutar coordenadores instruindo que mulheres cientistas não tenham filhos para não atrapalhar a produção.

Apenas a partir de 2017 que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) passou a oferecer licença-maternidade para as bolsistas, mas a após o período de pós-parto, o benefício era retirado, o que dificultava ainda mais a conclusão do curso, informou Ana. A professora também alerta que, na área de química e de tecnologia, não há espaço adequado e seguro por conta de os reagentes para as mães amamentarem.

D. L., que ficou grávida durante o mestrado, diz que a maternidade interfere na maneira em que seu trabalho é visto. “Quando a pessoa sabe que sou mãe, antes de conhecer meu trabalho, dúvida. E quando fica sabendo do meu filho depois que viu meu trabalho, se surpreende. Na banca, um avaliador ficou chocado por conta do resultado que entreguei mesmo tirando licença-maternidade. Não vejo motivo para reagirem assim, porque teria feito bem de qualquer forma. A verdade é que precisamos de apoio e entendimento para fazermos tudo o que quisermos. Eu quis ser mãe, foi uma escolha, mas ao mesmo tempo escolhi e quero ser cientista”.

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Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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