Além de bonecas, dê brinquedos tecnológicos para a sua menina

Aproximar as mulheres desse universo é urgente, pois encontram-se nele boas oportunidades de crescimento profissional e de emancipação econômica

Você se lembra de quando éramos crianças e ganhávamos bonecas, enquanto nossos irmãos e amigos meninos tinham à disposição uma diversidade maior de brinquedos? Carrinhos com controle remoto, aviões, eletrônicos dos mais variados tipos costumavam estar – e permanecem – no repertório infantil dos meninos. Assim, até hoje eles são, desde cedo, estimulados a montar, desmontar e explorar equipamentos, entendendo como funcionam as máquinas por dentro. E as meninas pequenas, rodeadas por itens domésticos e de cuidado com o outro, criando pouca interação com sistemas tecnológicos. A diferença vai aparecer anos depois, na hora de escolhermos a área de estudo e a profissão.

Um dos problemas desse tratamento diferenciado é que, no futuro, ele contribui para a desigualdade salarial entre homens e mulheres. Para ter uma ideia, segundo pesquisa feita pelo Conselho Federal de Enfermagem, cerca de 86% desses profissionais no Brasil são mulheres. Já nos cursos de engenharia, os homens representam 70% dos matriculados de acordo com o Dieese, deixando uma parcela ínfima para a ala feminina.

Aproximar as mulheres do universo científico e tecnológico é urgente, pois encontram-se nele boas oportunidades de crescimento profissional e de emancipação econômica. Os empregos no setor da tecnologia estão entre os mais bem pagos e é uma seara em expansão acima da média. Estima-se que até 2020 (em apenas um ano) a economia digital será responsável por 25% da economia mundial, ou seja, um movimento de 24,6 trilhões de dólares.

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Se isso já não é motivo suficiente, temos outra razão para nos apropriar das novas ferramentas: o fato de as tecnologias não serem neutras. Ou seja, elas carregam comportamentos culturais e refletem escolhas estratégicas de seus criadores. Quando um algoritmo recomenda um filme considerando seu padrão de consumo, ele faz isso com base em subjetividades.

Definir qual das escolhas vai aparecer para você é um poder que a pessoa que cria o algoritmo (hoje, na maioria, homens) tem. Trabalhar por mais mulheres na tecnologia é investir na nossa liberdade de expressão. É estimular que soluções que só nós enxergamos existam e sejam elaboradas pela nossa forma de resolver.

O caminho para construir um mercado de trabalho mais diverso na tecnologia é longo. As mulheres ainda recebem salários menores e têm menos chances de ser promovidas do que seus colegas do sexo masculino – como na maior parte dos negócios. O problema se acentua quando falamos em mulheres negras, o que também acontece em outros setores. Nos Estados Unidos, elas representam 1% das poucas mulheres empregadas nas áreas de engenharia e ciências. No Brasil, esse dado nem sequer existe.

A boa notícia é que a questão vem ganhando mais atenção. I Am the Code, PrograMaria, PretaLab, Computação sem Caô, Mastertech e MariaLab são alguns dos projetos em ação no país com foco em trazer diversidade para esse campo. Eles aproximam meninas e mulheres da tecnologia e incentivam aquelas que já estão na área.

Políticas corporativas para a inclusão também estão em alta. Ter em mente que, idealmente, os espaços de trabalho deveriam ser compostos de 50% de mulheres em todos os níveis hierárquicos leva a escolhas que priorizam a diversidade. E é preciso estimular práticas para que isso se torne uma realidade, claro. A mudança não vem sem esforço e exige de nós uma transformação cultural profunda que nos convide a olhar para a tecnologia como um terreno amigo.

Gabriela Agustini é consultora de inovação e diretora da Olabi, organização social focada em democratizar tecnologias

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