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Nativos digitais: as crianças que já nasceram com acesso à tecnologia

A tecnologia é parte integrante da vida das crianças de hoje. Não fuja do assunto, e sim entre na jogada da maneira mais adequada.

Por Denise Bobadilha (colaboradora) Atualizado em 27 out 2016, 20h33 - Publicado em 7 jan 2015, 06h28

Seu filho, esse ser cheio de perguntas interessantes e respostas rápidas, parece ter nascido em outro planeta. Reconhece imediatamente as funções de um controle remoto, abre qualquer jogo e o usa com naturalidade, enfim, circula no ambiente digital sem temor. Parece que nunca lerá um manual de instruções na vida. E você, será que precisa de manual de instruções para lidar com essa nova infância digital?Como em tudo na educação dos filhos, também não há livro pronto ou regras universais no convívio com o ambiente digital. Mas uma coisa é certa: a não ser que você viva em um lugar isolado, sem acesso à tecnologia, vai ser impossível evitar que seu filho participe desse mundo. E isso nem seria saudável.

“A internet é uma nova ferramenta cultural, ou, melhor ainda, um novo kit de ferramentas culturais”, escreveram os psicólogos norte-americanos Patrícia Greenfield e Zheng Yan em estudo sobre o uso entre crianças para a American Psychological Association. “É cultural porque é compartilhada; normas são desenvolvidas e transmitidas para novas gerações de usuários, que então criam novas normas. E é um kit de ferramentas porque tem infinitas aplicações.” Por meio da internet, seu filho aprende, mantém suas amizades e, em resumo, conecta-se com o mundo. Mas seu uso sem controle pode levá-lo também a desligar-se do mundo real e a perder o interesse por outras atividades – isso sem falar da exposição a conteúdos que a criança ainda não tem maturidade para compreender.

Moderação, portanto, é a palavra de ordem nessa relação. Tempo passado online é tempo não passado gastando energia, tomando sol, relacionando-se com outras pessoas, falando, ouvindo, tateando, experimentando outras formas de se desenvolver. Os pais devem ser agentes e ter papel ativo nessa relação, ajudando a criança a encontrar o que há de melhor nos dois mundos, o digital e o “analógico”.

“Os pais precisam ter paciência para configurar o acesso dos filhos aos dispositivos (computadores, tablets e celulares) para limitar esse mundo ao que é seguro e, também, evitar o uso excessivo”, aconselha o professor Rodrigo Abrantes, do Colégio Joana D’Arc, de São Paulo. Formado em história, Rodrigo percebeu que os alunos cada vez mais traziam novidades para a sala de aula e resolveu colocar a mão na massa: enfiou-se no mundo digital e passou a levar para a escola novas formas de integrar o ensino tradicional com as mentes conectadas das cadeiras escolares. “Há a questão pedagógica, de como educar para o novo cenário, e a comportamental, que analisa o que acontece com as crianças ao interagir com esses recursos”, diz. “Só que é tudo muito recente, e há situações para as quais não se tem resposta, nem aqui, nem em outros países”, opina.

Para Carlos Querido, diretor do colégio Osvaldo Cruz e professor de novas tecnologias no colégio Nossa Senhora do Morumbi, ambos em São Paulo, o aprendizado está sendo coletivo. “Os alunos são nativos digitais, que trazem conhecimento, mostram o que há de novo. Mas não se pode perder de vista que nem tudo que é interativo é educacional. Quem vai dar esse sentido é o educador”, afirma. O professor, desde que bem preparado, acaba sendo uma espécie de curador do conteúdo digital.

Sinal amarelo

Rodrigo Abrantes cita como bons exemplos os jogos e aplicativos nos quais as crianças podem criar ferramentas e regras, digitalizar desenhos feitos à mão, gravar áudios e vídeos etc. Variar é muito importante. “Quando o aplicativo estimula um comportamento viciante, obrigando a criança a ficar cada vez mais horas apenas naquele jogo, é bom ter cuidado”, alerta. É o caso do Minecraft, febre entre meninos e meninas a partir dos 7 anos que é bastante instrutivo – expõe conceitos de física, matemática e até geologia ao propor que o jogador crie seu mundo usando blocos –, mas, ao mesmo tempo, por não ter etapas ou um fim, prende demais a criança.

O mesmo vale para os “mundos” virtuais – parecidos com o pioneiro Farmville –, que apenas acrescentam acessórios e desafios simples, e nada mais, e podem continuar indefinidamente. Jogos gratuitos, mas que exigem a compra de mil acessórios – e bombardeiam a tela a todo minuto com propagandas – também devem ser evitados. Vale mais a pena comprar alguns poucos e bons aplicativos do que encher as telas com jogos de zero valor educativo. Por isso, é fundamental nunca entregar para a criança a senha para baixar ou comprar jogos. Ela precisa saber desde cedo que a decisão do que ela consome online é do adulto, mesmo que todas as sugestões partam dela mesma, a partir de dicas de colegas ou pesquisas próprias.

“A mediação precisa ser cada vez mais orientadora e pedagógica, e não restritiva”, opina Camila Garroux, coordenadora da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2013. Maior levantamento recente do uso da internet entre crianças e adolescentes no país, feito com os próprios e com seus pais, o estudo mostra dados significativos – daqueles que vemos em casa e nas casas dos amigos, mas só nos damos conta de sua importância quando estão reunidos em números. Entre eles está o fato de que 79% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos possuem perfil em rede social (mesmo naquelas que só permitem maiores de 18 anos) e de que 53% utilizam celulares para acessar a rede.

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A pesquisa, feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC.br) e pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), utiliza os mesmos critérios e questões em outros países. Tanto aqui como nos Estados Unidos e na Europa o grande destaque é para o uso cada vez mais disseminado de dispositivos móveis, os celulares e tablets. “No caso particular do Brasil, o uso da rede social é muito relevante, mais presente do que em outros países”, aponta Camila.

Dá trabalho, sim

Mesmo pais muito ligados às novas tecnologias precisam reaprender com os filhos como essa influência pode ajudar no desenvolvimento. Fábio Botelho Josgrilberg, pró-reitor de pós-graduação e pesquisa da Universidade Metodista, de São Paulo, notou que a filha de 4 anos já desenvolveu várias habilidades cognitivas graças ao uso do tablet. “Ela tem uma capacidade de quase leitura e encontra meios para conseguir o que precisa – sozinha, achou o comando de voz do YouTube para pedir vídeos de seus programas favoritos”, conta. “Mas continuamos mantendo uma regra restrita de horário. E o tablet, que não é dela, e sim de toda a família, só pode ser usado na sala ou onde possamos dar uma espiada”, detalha.

Na casa de Fábio, apenas os pais podem baixar jogos. Outra preocupação é ajudar a filha a compreender o que aprende online, ajudando-a a ter foco no que faz. As restrições e o diálogo frequente dão mais segurança para todos. “Não há como evitar que os filhos cheguem onde querem no mundo digital. Você não tem controle, principalmente quando eles ficam mais velhos. Mas, como em tudo na paternidade, criamos o filho para o mundo e temos de prepará-lo para isso.” Ou seja, manual de instruções até existe, mas ele é construído coletivamente, em família, dia a dia.
 

O perigo do vício

Ultrapassar o limite entre diversão saudável e vício é mais fácil do que parece. Crianças que têm dores de cabeça pelo excesso de horas no mundo digital, que evitam socializar com outras ou que se mostram agressivas durante ou depois do uso precisam ser observadas. Uma psicóloga relatou o caso de um paciente de 10 anos que ameaçou suicídio quando a mãe o suspendeu do computador, onde passava o dia todo e parte da noite jogando Minecraft. “Não posso viver sem jogar”, ele disse.

 

“Os pais precisam também sair da comodidade para tirar os filhos dessa situação e colocá-los mais em contato com o mundo real, com a natureza”, orienta a psicóloga e psicopedagoga Quézia Bombonatto, de São Paulo. Propor um jogo de tabuleiro, levar para um passeio a pé, preparar um alimento junto com a criança são atividades que podem ser introduzidas aos poucos e ganharem mais tempo com o passar dos dias, ajudando a devolver a vida “analógica” para as crianças – e também para os adultos.

Com segurança

Existem vários programas e aplicativos que prometem mais segurança na rede, no computador ou em dispositivos móveis. Mas não se iluda: 100% de segurança ninguém garante. “A pesquisa mostrou que 58% das crianças sabem mudar as configurações de privacidade e 46% sabem apagar o histórico do que foi visitado”, contou Camila Garroux, coordenadora da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2013. Ou seja, se tiverem interesse, elas podem driblar e buscar o que quiserem. Mas algumas medidas ajudam a preservar a criança:

 

  • Deixe o computador em ambiente visível e, de vez em quando, dê uma olhada no que a criança está fazendo. Mostre interesse por seus jogos e brincadeiras online, deixando claro que você sabe o que ela está fazendo.
  • Se a criança já usa celular, não permita que ela o leve para o quarto. É o mesmo princípio do computador e do tablet: deve ser usado apenas em ambiente visível.
  • Redes sociais de adultos (Facebook e Twitter) são para adultos. Se a criança insiste em ter conta porque todos os amigos jogam por lá, diga que isso não é certo e ponto. Há redes próprias para os pequenos.
  • Ensine a criança que só quem autoriza e compra jogos é você. Não dê a senha de compra para ela, que pode “acidentalmente” comprar alguns itens.
  • Ative configurações de privacidade e de conteúdo restrito. As crianças podem burlá-las eventualmente, mas, mesmo assim, são uma barreira a mais.
  • Em geral, os aparelhos que usam o sistema iOS são mais seguros que os da Android. “Para ter um aplicativo na iOS, o desenvolvedor tem de obedecer a muitos critérios, e isso afasta programas mal-intencionados”, afirma o professor Rodrigo Abrantes.
  • Alguns aplicativos de segurança que podem ser instalados nos aparelhos são Kids Place (que coloca o celular ou tablet em “modo criança” e só permite que ela use aquilo que foi previamente autorizado), para Android; e Smylesafe, que restringe o acesso e ainda avisa o administrador (ou seja, os pais) quando alguém tenta acessar conteúdo bloqueado, para Android e iOS.
  • Apresente a criança ao lado educativo e fabuloso da rede. Assista a vídeos curiosos com ela, visite sites com jogos interessantes e estimule sua criatividade. Ouça mais e estimule-a a dar sua opinião sobre o que vê.
     
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