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Ana Claudia Paixão A jornalista e editora digital de CLAUDIA, Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood.

Executiva da Globoplay avalia mudanças na relação do brasileiro com a TV

"Acredito que pouquíssimas novidades devem ter causado tamanha revolução", diz Erika Wurts sobre os 70 anos do veículo no Brasil

Por Ana Claudia Paixão - Atualizado em 21 set 2020, 15h12 - Publicado em 18 set 2020, 20h30

Quando o assunto é memória da televisão brasileira, que completa 70 anos nesta sexta-feira (18), a experiência de um veterano vem logo de cara à nossa mente. Aos 35 anos, Erika Wurts rompe essa lógica com a sua relativamente nova, porém intensa bagagem nos bastidores televisivos.

Formada em Comunicação Social pela UFRJ e com mestrado em Televisão, Rádio e Filme pela Syracuse University, em Nova York, seus 15 anos de carreira atravessam a TV aberta, fechada e o streaming, no qual se dedica atualmente como gerente de coproduções e originais da Globoplay.

A plataforma de streaming da Rede Globo existe há cinco anos. Mas, com a pandemia, consolidou um público saudoso em relação às obras antigas da emissora e em busca por entretenimento inédito ou mais recente, como séries e shows exclusivos.

Em entrevista exclusiva, Erika fala sobre as transformações do público com esse meio de comunicação e da interação dele com outros recursos tecnológicos, como o sistema sob demanda.

O que foi mais marcante na história da chegada da TV no Brasil, há 70 anos?

De todas as histórias contadas, a minha favorita é sobre a transmissão inaugural da TV Tupi de São Paulo, o marco inicial da TV brasileira em 18 de setembro de 1950. Os relatos são muito curiosos. Houve um momento solene, em que o Hino da TV seria cantado por Hebe Camargo, mas Hebe preferiu encontrar o namorado Luís Ramos e deixou a amiga Lolita Rodrigues para realizar a tarefa. As duas riem muito dessa música em uma entrevista lendária com Jô Soares, 20 anos atrás. E não se pode deixar de dizer, além do pioneirismo visionário de Assis Chateaubriand, que nesta primeira transmissão estavam Lima Duarte e Cassiano Gabus Mendes, tão essenciais para a trajetória da TV no Brasil, ali já construindo História.

Como foi o impacto cultural e social se comparado às mudanças de hoje em dia? Podemos traçar um momento tão icônico como ele?

Difícil comparar o impacto com os adventos tecnológicos de hoje em dia, mas acredito que pouquíssimas novidades devem ter causado tamanha revolução. É a fundação de uma mídia, algo que expandiu horizontes em diversos âmbitos e seguiu abrindo caminhos junto com a evolução da produção, do consumo, da tecnologia, etc.

Como a TV ditou os hábitos no Brasil e qual o impacto da TV Globo nesta parte da história?

A TV é um meio que traz representações da sociedade brasileira, na qual ela se enxerga, se espelha, pela qual reflete sobre si mesma e sobre sua história. Naturalmente, os hábitos são impactados pelo que se vê na TV. Poderíamos citar a moda, como os espectadores passam a se vestir seguindo tendências lançadas por personagens e personalidades da TV, e os bordões, que passam a ser rapidamente usados pelas pessoas. O impacto da TV Globo é monumental, sem dúvida. O fato de não sabermos de cor os horários dos programas da grade, mas nos localizarmos ao longo do dia pelo sequenciamento desses programas é muito simbólico.

Brasileiro gosta mais de TV que qualquer outro povo ou é uma mítica?

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Esta é uma ótima pergunta. Já fico feliz por esse questionamento existir, porque apenas isso já indica o quanto a TV é uma paixão nacional. Impossível ter certeza se é o povo mais aficionado, mas que está ali no top 5, com certeza está. A importância da TV e do conteúdo audiovisual na vida das pessoas é impressionante. Se o brasileiro precisa ser estudado, um dos motivos é esse.

Por década, quais os sete momentos mais marcantes da história da TV no Brasil?

Já peço desculpas de antemão e compartilho minha dor em ter que escolher só sete momentos e programas, cometendo injustiças terríveis e escolhas que vão me atormentar para o resto da vida. Nos anos 1950, a transmissão da notícia da morte do presidente Getúlio Vargas, no horário em que a TV Tupi entrava no ar. Nos anos 1960, a transmissão da chegada do homem à Lua em 1969. Nos anos 1970, a primeira novela da TV Globo em cores, O Bem Amado, simbolizando um movimento profícuo de modernização do formato. Nos anos 1980, a revelação de quem matou Odete Roitman, em Vale Tudo. Nos anos 1990, a novela Pantanal, um marco realizado pela TV Manchete. Nos anos 2000, o primeiro Big Brother Brasil, maior formato de reality show no país. E nos anos 2010, o sucesso retumbante de Avenida Brasil.

Como a TV entrou na sua vida, quando se dedicou aos estudos e o que ela representa para você?

A TV (e o cinema) sempre foram onipresentes na minha vida, tamanho o meu fascínio desde muito pequena. Uma das minhas primeiras lembranças de infância é o momento em que assisti Laurinha Figueiroa pulando do prédio em Rainha da Sucata (e não, não fui negativamente impactada pelo teor da cena, rs). Sempre me dediquei aos estudos sobre TV e cinema com a seriedade de quem estuda Física Quântica (ou algo do tipo, bem complexo, rs), por ser realmente apaixonada pelo tema e tomar isso como missão. Isso me levou a buscar aprofundamento em um Mestrado nos EUA e outros cursos, a seguir uma trajetória que incluiu TV aberta, TV paga, Streaming e Estúdios, e deixar algumas pessoas me achando meio maluca. Amo tanto séries internacionais (desde bem antes desse hype da última década…) quanto, por exemplo, novelas e realities – cada formato e gênero tem suas características e belezas. Para mim, a TV também representa essa diversidade – é cultura, arte, um jeito de se conectar, se emocionar e aprender.

Quando surgiu a TV, disseram que acabaria o rádio. Estamos testemunhando o fim de um meio? Como será a adaptação nas próximas décadas?

Estas frases de efeito sobre o fim das mídias são bastante apocalípticas e taxativas. Acredito que estejamos vivendo um período de transição, como tantos outros já vividos e por vir, em um fluxo de mudanças cada vez mais avassalador e interessante. Determinados desejos e necessidades dos consumidores são inexoráveis, como assistir a histórias bem contadas, descobrir e aprender mais sobre o mundo e diferentes universos, acompanhar determinados formatos de conteúdo em comunidade, sentir pertencimento e identificação… Por isso, creio que, independente da mídia e do artefato para o audiovisual, o entretenimento e a informação serão transmitidos, impactarão as pessoas, provocarão mudanças sociais e gerarão muita memória afetiva. E, embora possa parecer óbvio, é inevitável dizer que o consumidor segue cada vez mais no controle, determinando como, quando, onde e o que consumirá.

O que podemos ver de histórico no Viva e na Globoplay, que você recomenda?

Estamos em um momento muito especial para os consumidores de conteúdo de acervo, que podem finalmente desfrutar de um volume nunca antes visto de obras na íntegra e on demand. No line up incrível do Viva, impossível não destacar a crônica deliciosa e o elenco estelar de Mulheres Apaixonadas e deixar de lembrar que A Viagem, clássico arrebatador, vem em nova exibição ainda este ano. E tenho o maior orgulho e carinho pelo projeto do Globoplay que resgata um grande título de acervo a cada duas semanas. Duas pérolas que destacaria são Tieta e Vale Tudo (novela favorita para maioria dos noveleiros que se prezam, rs). Posso adiantar que virão títulos bem surpreendentes e queridos neste último trimestre e em 2021.

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