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Dating burnout, a exaustão dos usuários de apps durante a pandemia

A quarentena provocou um boom no número de pessoas nos aplicativos, mas a impossibilidade de levar a relação para fora das telas causou desânimo

Por Maria Clara Serpa - Atualizado em 16 out 2020, 13h13 - Publicado em 17 out 2020, 10h30

Os aplicativos de relacionamento tiveram um boom no número de usuários durante a pandemia. Contudo, a impossibilidade de levar a conversa para além das telas, devido aos riscos, causou um fenômeno de exaustão conhecido como dating burnout. Como fica o futuro das relações amorosas?

 

O processo tende a ser o mesmo. Pelo aplicativo, você encontra pessoas com interesses em comum. Se o “santo” (ou o algoritmo) bate, você começa uma conversa que se estende até que sinta segurança e vontade de marcar um encontro em um bar, cinema ou restaurante.

Depois, é como em qualquer relacionamento – pode dar certo e seguir ou terminar por aí. Esse processo, cada vez mais frequente nos últimos anos com a popularidade dos apps de namoro, foi bruscamente interrompido pela pandemia. Os solteiros se viram meio perdidos com a impossibilidade de sair de casa. Afinal, é duro começar uma relação à distância e também fica complicado nem sequer flertar nos tantos meses de isolamento.

Por isso, apesar do preconceito de muitos com o recurso virtual, ele se tornou a melhor saída para o período. A arquiteta Geórgia*, 24 anos, estava solteira fazia três anos. No início deste ano, engatou um romance, mas nada foi oficializado. A chegada da pandemia aumentou a incerteza dos encontros, levando a parceria a esfriar.

“Eu precisava superar e meus amigos insistiram tanto que em maio resolvi baixar o Bumble. Como só as mulheres podem puxar papo nesse aplicativo, achei que evitaria os tipos insistentes”, conta. Pouco mais de um mês depois, Geórgia sentia-se completamente esgotada do xaveco online.

“Não conseguia desenvolver uma conversa fluida com ninguém, embora tivesse encontrado caras que pareciam ser interessantes. Sem poder conhecer pessoalmente, fica desafiador manter a conexão. Passei mais de duas semanas apenas dando likes, sem nem falar com quem dava match. A sensação de exaustão era real”, afirma.

A esse sentimento da arquiteta e de muitas outras pessoas em situações semelhantes deu-se o nome de dating burnout. O uso excessivo dos aplicativos pode causar efeitos colaterais similares aos da síndrome de Burnout, como o esgotamento físico e mental, além de deixar as pessoas deprimidas por se sentirem ineficazes na construção de um laço duradouro.

Uma pesquisa do aplicativo Happn relativa a agosto mostra que 60% dos usuários passaram várias horas por dia conectados e 78,4% utilizaram mais de um aplicativo simultaneamente. “O virtual foi uma facilidade, em especial nos últimos meses. Ao mesmo tempo, é complexo ser bombardeado por tantos estímulos; isso nos esgota.

Foto/Getty Images

Há mais perfis e fica difícil focar com tantas opções”, afirma Carla Françoia, psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. A disponibilidade maior gera a fomo, iniciais de fear of missing out (medo de ficar por fora), ou seja, enquanto fala com um crush, a pessoa pensa que está abrindo mão de conhecer outro mais interessante.

O empecilho

Priscila Ohara, 29 anos, terminou um relacionamento longo no início da pandemia e voltou aos aplicativos. Contudo, como vive com os pais, que são do grupo de risco, não teve coragem de sair. “Conheci alguns caras legais. Com dois deles, até marquei dates por videochamada, mas passado um tempo o assunto morreu. E os homens parecem mais ansiosos pelo encontro pessoalmente”, conta ela, que admite ter se cansado dos apps algumas vezes. “Eu apago, mas depois baixo de novo, porque é a única saída agora, apesar de não gostar muito”, completa.

 

Não devemos buscar alguém pra nos preencher. Isso causa frustração em todo tipo de relacionamento, iniciado virtualmente ou não”

Carla Françoia, psicóloga

 

Não é só nesse estágio que uma possível relação é interrompida. Relatos de conversas que não passam do “Oi, tudo bem?” também são bastante comuns. Segundo Adriana Nunan, psicóloga e autora do livro Relacionamentos Amorosos na Era Digital (Editora dos Editores), isso se deve ao fato de que a maioria das pessoas não quer de fato desenvolver uma relação, mas apenas se sentir desejada.

Em outras palavras, o match serve para inflar o ego. No Happn, de acordo com o estudo citado anteriormente, 81,4% dos usuários ficam muito mais tempo dando likes do que conversando e 94,3% afirmam que está cada vez mais difícil ter papos significativos. “As pessoas se submetem a isso porque depositam sua felicidade nos outros e precisam dessa validação”, explica.

Há quem, diferentemente de Geórgia, resolveu dar um passo à frente no relacionamento. A artista Daniela* estava enrolada com uma pessoa quando foram anunciadas as medidas de isolamento em São Paulo, onde vive. Como a relação ia bem, o casal decidiu morar junto, na casa dela, para reduzir o ir e vir.

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Essa foi a opção de muitos pares, tanto é que a prática ganhou o nome de corona cuffing, algo como enlaçamento do corona. “Foi a melhor solução pra gente. Nunca gostei de ficar por meses antes de assumir o namoro, e ele é igual”, diz.

420% foi o aumento de convites para sair no aplicativo Inner Circle em agosto

Em outra etapa

Com a recente flexibilização do isolamento em algumas cidades, a mudança de comportamento entre os usuários de aplicativo já pode ser notada. Só no mês de agosto, os convites para encontros cresceram 420% no app Inner Circle, enquanto as conversas sobre “coronavírus” e “quarentena” diminuíram consideravelmente, dando lugar aos papos sobre “carência”, “sexo” e o uso recorrente da expressão “olhos nos olhos”.

A empresária Luana*, 49 anos, resolveu finalmente sair com duas pessoas que conheceu nos apps durante a pandemia. Ela escolheu linkar o aplicativo à sua conta do LinkedIn para que as sugestões de crushes tivessem perfis profissionais parecidos com o dela e para aumentar a probabilidade de ter amigos em comum com o outro usuário, fatores que Luana valoriza.

Ainda assim, a empresária considera improvável desenvolver algo mais sólido por agora “Não consigo mais só ficar no online e não acho seguro sair com muita gente; então reduzi o uso da ferramenta. Além disso, estou trabalhando muito e acabei acumulando mensagens não lidas, o que me deixou com preguiça”, admite.

Foto/Getty Images

Já a professora Patrícia Schatz, 35 anos, aproveitou o tempo livre fora do trânsito para se debruçar de vez no Tinder, que já usava esporadicamente desde o início do ano. Ela nem começa a conversa se a pessoa não tiver interesses semelhantes aos seus.

O aumento do uso desse tipo de filtro foi observado em outros aplicativos de relacionamento, como o Badoo, em que uma ferramenta específica de filtro de gostos passou a ser usada 2,8 vezes mais nos últimos meses. Assim, fica mais fácil estabelecer uma conexão, o que resultou em uma melhoria de 11% na qualidade dos matches, com conversas mais extensas.

“Depois de um tempo, resolvi aceitar sair com alguns caras desde que o papo fosse bom e estivessem cumprindo o isolamento certinho. Dá para perceber se isso é verdade após um período de conversas online”, explica Patrícia. Algumas pessoas deixaram esse critério ainda mais óbvio estampando na descrição do perfil termos como “Corona-free” ou “Covid-free”, apontando que um possível date seria seguro.

O que será do amanhã

Se você se identificou com essa fadiga dos encontros virtuais amorosos, saiba que nem tudo está perdido. Não precisa abandonar de vez os aplicativos. O recomendado é fazer um detox das redes por algum tempo, até se sentir preparada para voltar. Procure se restringir a um ou dois apps no máximo. Lembre-se: quanto mais opções, mais difícil fica escolher.

“Tente também ter bem claro o que você busca em um parceiro e quais são seus gostos. Isso exige um tanto de reflexão, mas com esse foco ficará mais fácil conhecer alguém com quem a troca possa evoluir para algo legal”, explica Carla. Adriana sugere ainda se limitar a olhar somente dez perfis por vez. “Há estudos que mostram que, a partir do décimo, não prestamos mais atenção no que estamos fazendo. Dê um tempo antes de continuar”, diz a psicóloga.

Nesse período de afastamento das redes, dedique-se a um mergulho profundo para entender verdadeiramente sua relação com os aplicativos. “Muitas mulheres sofrem com a expectativa social de ter um relacionamento duradouro porque existem um discurso e uma cultura muito fortes de que só assim estaremos completas. Não devemos buscar alguém para nos preencher. Isso causa frustração em todo tipo de relacionamento, iniciado virtualmente ou não”, explica Carla.

É difícil prever o futuro da paquera online, mas a maioria das entrevistadas para esta matéria acredita que os aplicativos continuarão sendo úteis na vida pós-pandemia. A fadiga pode se tornar um estímulo para as pessoas retornarem a eles mais focadas e com intenções claras.

Com esses fatores definidos, a função dos apps seria até potencializada – em vez de acabar em tanto desperdício de energia. “Não pretendo abandonar de vez os aplicativos, mesmo quando pudermos sair e conhecer pessoas de outras formas. Para mim, eles são mais uma possibilidade de encontrar alguém bacana. A experiência pode ser muito rica; depende da frequência em que você está”, afirma Luana.

 

*Nomes trocados a pedido das entrevistadas

 

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