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As mulheres que mudam a indústria pornográfica

Os filmes produzidos por elas buscam furar a dinâmica machista e opressora ainda presente no segmento

Por Ana Carolina Pinheiro Atualizado em 18 jun 2020, 16h34 - Publicado em 18 jun 2020, 10h00

Se você tiver que imaginar agora a cena de um filme pornô, o que vem na sua cabeça? É com essa pergunta que a diretora e roteirista de cinema adulto independente, a sueca Erika Lust, começou sua palestra no TEDx Talks, em 2014, sobre as mudanças na indústria audiovisual erótica. A resposta para a sua própria pergunta foi de encontro com o imaginário de muita gente naquela plateia e fora dela também. Uma mulher loira, de seios fartos, usando um vestido justo e fazendo sexo oral, descreveu Erika, que se frustrou logo de cara quando viu, pela primeira vez, um filme pornô. Para ela, era difícil sentir prazer com cenas em que atrizes pareciam sofrer e eram objetificadas. O incômodo fez com que a cientista política, durante um curso de cinema, começasse a criar o cinema adulto que ela queria ver.

Considerada pioneira da pornografia feminista, Erika lançou o seu primeiro filme, o curta metragem The Good Girl, em 2004. Com uma estratégia popular, o acesso à produção foi disponibilizado gratuitamente na internet. O resultado? Mais de dois milhões de download apenas no primeiro mês. Dali em diante, a ocupação da profissional no segmento se expandiu para literatura e empreendimentos. O romance erótico Nora’s Songe, aprodutora Lust Films e o cinema erótico Lust Cinema são algumas das criações de Erika, em que cenas de sexo explícito são resultados do prazer e respeito a quem participa e assiste, segundo ela.

Cinthia Fajardo é diretora-geral do Grupo Playboy no Brasil Divulgação/Reprodução

Assim como Lust, a carioca Cinthia Fajardo assume o cargo inédito de diretora-geral do Grupo Playboy, responsável pelos canais adultos Sexy Hot, Playboy TV, Penthouse tv, Private, Venus e For Man, desde janeiro deste ano. Tanto para fazer a curadoria dos filmes que entram no catálogo como na produção em que são responsáveis, Cinthia conta uma equipe de profissionais majoritariamente feminina, proporção existente há alguns anos na emissora. “Com um olhar feminino, seja de diretoras, produtoras, roteirista, há um cuidado maior com o elenco e as cenas. Por exemplo, tem muito filme que termina com a ejaculação masculina, mas nós queremos retratar também o prazer feminino”, revela. Com um investimento em um selo próprio, o canal Sexy Hot passou a produzir o próprio conteúdo.

Antes da preocupação em como a mulher é retratada em um filme pornográfico, é crucial o cuidado com a segurança e respeito com os profissionais que trabalham e principalmente atuam. Segundo Cinthia, nas produções exclusivas, os atores só fazem cenas de sexo com preservativo e suas vontades são escutadas e respeitadas. Com uma passagem curta pelas tradicionais produtoras, a atriz Jully Delarge, de Recife, diz que conseguiu escapar de situações opressoras. “Houve um roteiro em que eu faria uma cena de sexo anal, mas no dia da gravação não senti vontade de fazer e a cena foi gravada sem a penetração. Todos respeitaram minha decisão”, comenta Delarge, que também produz e dirige filmes eróticos.

Eduardo Jorge/Reprodução

Mas essa não é a realidade para a maioria das pessoas no set e também não é sinônimo de libertação para todas as espectadoras. Na vida da ativista Daiane Novaes, de São Paulo, o consumo de pornografia começou nos tempos de locadora de vídeos. “Quando adentrei o feminismo, de maneira atuante e organizada, militando de forma orgânica em um coletivo liberal, ainda consumia e produzia material pornográfico. Mas passei a enxergar críticas, como a violência estrutural às mulheres, quando comecei a estudar o feminismo radical, não de radicalismo, mas no sentido da origem do movimento”, comenta Daiane, que não acredita na ideia de pornografia feminista, já que para ela o conteúdo ainda é resultado do patriarcado.

Mesmo com mudanças, Daiane acredita que a estrutura do audiovisual pornográfico sempre será alimentada por uma visão lucrativa, principalmente para homens em posições de poder nas empresas, objetificando mulheres como moeda de troca. “Não é uma tentativa de repressão, como pode parecer. Não queremos conservar nada. A ideia é minar a sua potência através do apelo ao não consumo”, considera.

Daiane Novaes acredita que não há mudanças que libertem a pornografia dos sistemas de opressão Reprodução/Acervo pessoal

Para Cinthia Fajardo, a sua participação ao lado das outras profissionais é uma forma de disponibilizar um conteúdo com mais segurança. “Não é só porque é uma mulher que vai assistir, que ela não pode gostar de um filme que vai direto ao ponto. E isso depende muito do momento de vida da pessoa. Porém, independente se o filme é voltado para mulheres ou não, um critério importante que temos é que nenhum dos profissionais esteja sofrendo”, diz. Durante a quarentena, de 16 de março a 7 de junho, o site Sexy Hot teve um aumento de 127% de mulheres assistindo aos filmes de seus catálogos.

Já Jully explica que sua atuação como profissional no mercado de conteúdo adulto se concretiza apenas quando há compatibilidade de posicionamentos. “Faço parcerias quando as ideias correspondem. A possibilidade de a mulher ser ativa não deve ser apenas na hora de performar, mas principalmente no momento de decidir como será feita a cena”, afirma a diretora, que atua nos próprios filmes. Para ela, a participação de mulheres na produção de conteúdos audiovisuais adultos não só atrai mais espectadoras, como também abre portas para um ramo de trabalho. “Essa é uma tendência natural quando modificamos linguagens obsoletas e certas formas de interação. A pornografia é ocupada por nós, mulheres. A diferença é que antes somente nossos gemidos eram levados em consideração, hoje não”, pontua.

  • Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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